
No Dia das Mães, histórias como a de Giselle Ávila ganham ainda mais força e significado. Sua trajetória é marcada por uma luta diária, silenciosa e persistente por inclusão, respeito e oportunidades reais para o filho. Mãe de Pedro, um adolescente autista não falante com apraxia de fala severa, ela transformou o amor em coragem e a rotina em resistência. Entre desafios e conquistas, Giselle carrega a realidade de tantas outras mães que seguem, todos os dias, abrindo caminhos para que seus filhos sejam vistos, ouvidos e, acima de tudo, acolhidos com dignidade e pertencimento.
Hoje, Pedro tem 13 anos e caminha para os 14, carregando consigo não apenas as mudanças próprias da adolescência, mas também desafios intensos ligados à comunicação, à socialização e à regulação emocional. Ao longo dessa trajetória, Giselle precisou reconstruir a própria história: formada em Ciências Biológicas e atuante como professora, ela deixou a sala de aula após o diagnóstico do filho, ainda com 1 ano e 8 meses, para se dedicar integralmente ao seu desenvolvimento, transformando amor em ação diária e cuidado em propósito de vida.

Essa decisão não apenas mudou sua rotina, mas redefiniu sua missão. A vivência com Pedro foi o ponto de partida para esse mergulho no universo da comunicação e do autismo. Mesmo sem fala, ele sempre demonstrou compreensão e, foi a partir dessa percepção, que a família passou a buscar caminhos alternativos para dar voz ao filho. “A comunicação é multimodal. Está nos gestos, nas expressões, nos comportamentos. Precisamos aprender a escutar além da fala”, salienta Giselle.
Ela também buscou se especializar em autismo e inclusão escolar, com foco em Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), e realizou uma pós-graduação em inclusão com práticas baseadas em neurociências. “A pós trouxe com muita força a ideia de individualização do ensino, porque a inclusão não é padrão — cada estudante é único. A adaptação que faço para o Joãozinho, do primeiro ano A, muitas vezes não será a mesma para o Pedrinho, do primeiro ano B. São muitas variáveis, muitos detalhes, e todos passam pela comunicação. Eu preciso aprender com esse estudante, enxergá-lo como único, compreender suas particularidades, suas dificuldades e, principalmente, suas potencialidades”.
Giselle destaca ainda: “Não há inclusão sem comunicação. Muitos alunos chegam às escolas com dificuldades de aprendizagem, mas, com frequência, não se percebe que, na raiz disso, estão desafios na comunicação e na interação social. Não se trata apenas da comunicação entre pares para responder atividades, mas da capacidade de estar presente, sentir-se pertencente ao ambiente e compreender suas regras sociais — habilidades que nascem da comunicação. Por isso, é fundamental ir além do conteúdo pedagógico: ensinar a cumprimentar, responder, interagir, fazer comentários, construir vínculos. Alfabetizar não deve se limitar a ler e escrever, mas também a formar sujeitos capazes de se comunicar e participar ativamente do mundo ao seu redor”.
Ela relembra um caso marcante, descrito em uma literatura sobre a CAA: uma criança com necessidades complexas de comunicação tentou sinalizar que precisava ir ao banheiro, mas não foi compreendida. O desfecho foi constrangedor e poderia ter sido evitado com preparo adequado. Para ela, situações como essa evidenciam o quanto o conhecimento em CAA é essencial para que educadores consigam reconhecer, interpretar e responder às tentativas de comunicação de seus alunos, garantindo dignidade, autonomia e inclusão. “Com recursos simples, como pranchas de CAA e ensino adequado dos símbolos, essa situação poderia ter sido diferente. Comunicação é também dignidade”, enfatiza.
Adolescência: um novo território
Se a infância trouxe aprendizados intensos, a adolescência de Pedro abriu um novo capítulo. “Foi como conhecer outro indivíduo”, conta Giselle. Mudanças hormonais, crises emocionais e a necessidade de ajustes médicos fizeram parte desse processo. Além disso, a socialização – já desafiadora – se tornou ainda mais complexa.
“No ambiente escolar, o que mais chama atenção agora é a questão da socialização e o desejo genuíno de estar com os pares. Sabemos que a adolescência traz as chamadas ‘panelinhas’ e, muitas vezes, de forma inconsciente, os alunos acabam se excluindo – com ou sem deficiência. Para Pedro, isso se soma a uma dificuldade que ele já tinha em interagir e se relacionar. Ele quer estar junto, quer participar, mas ainda encontra barreiras nesse processo”, diz Giselle, que tem atuado como ponte entre ele, a escola e outras famílias, buscando construir, pouco a pouco, um ambiente mais acolhedor e de empatia. “Não podemos forçar relações, mas podemos promover oportunidades de convivência”.
No campo pedagógico, os desafios também aumentam: “No Fundamental II e no Ensino Médio, há maior demanda por interpretação, raciocínio e um processamento cognitivo mais complexo. Por isso, é essencial que os professores tenham um olhar atento e sensível. Não se trata de facilitar o conteúdo, mas de torná-lo acessível. É possível adaptar o vocabulário, simplificar a linguagem, organizar conteúdos mais objetivos e utilizar recursos visuais como apoio. Estratégias como essas – síntese, clareza e suporte visual – fazem toda a diferença no processo de aprendizagem do meu filho. E para outros jovens, quais adaptações seriam mais adequadas para garantir, de fato, uma aprendizagem significativa e inclusiva? Por isso, repito: inclusão não é padronização. Cada estudante precisa de estratégias individualizadas”, destaca.
Estratégias, emoções e o papel da família
Diante das mudanças da adolescência, Giselle buscou novas ferramentas. A regulação emocional passou a ser prioridade — tanto para Pedro quanto para ela. Com apoio psiquiátrico, leitura de livros sobre emoções e uso de recursos visuais, como um “termômetro emocional”, a família constrói caminhos para lidar com sentimentos intensos.
“Eles precisam da nossa regulação para se regularem. A co-regulação é essencial”, enfatiza. Atividades físicas, como natação e a possibilidade de iniciar artes marciais, também fazem parte das estratégias que ela planeja para Pedro para canalizar a avalanche de energia e de emoções, características da fase.
Giselle é também honesta ao falar sobre os limites: “O cansaço mental existe. Há momentos em que a gente não aguenta. E tudo bem reconhecer isso”. Para ela, cuidar de quem cuida é fundamental — algo ainda pouco valorizado socialmente.
Rede de apoio e desafios sociais
A rede de apoio de Giselle é composta principalmente pela família, com destaque para a sobrinha, além de profissionais e outras mães atípicas. “Muitas vezes, apenas ser ouvida e poder falar sem julgamento já é um grande suporte”, afirma.
No entanto, ela chama atenção para a ausência de políticas públicas que acolham essas famílias, especialmente mães solo. “A sociedade ainda transfere toda a responsabilidade para a família, quando, na verdade, a inclusão é um compromisso coletivo”.
Uma jornada de amor e aprendizado
Ao refletir sobre sua trajetória, Giselle se emociona. Ela reconhece seus privilégios, como ter a oportunidade de se dedicar integralmente ao filho, mas também destaca os inúmeros papéis que precisou assumir: mãe, professora, terapeuta, psicóloga e advogada.

“A minha jornada sempre foi sustentada por um amor incondicional e pela espiritualidade, que nunca deixou de me acompanhar. As orações e a fé me deram força, e eu sempre soube que estava fazendo o meu melhor, mesmo diante de tantas dificuldades. O ano passado, por exemplo, foi o mais desafiador, especialmente pelas crises, pela agressividade e pelas dificuldades na escola. Eu me permiti sentir, ficar triste, vulnerável, até mesmo deprimida, porque precisava elaborar tudo aquilo. Isso também faz parte do meu desenvolvimento e do meu papel como mãe. E não é porque se trata de autismo que o sentimento é diferente – não quero, de forma alguma, diminuir a vivência de outras mães. Todas enfrentam desafios. No caso das mães atípicas, o que se soma são as barreiras impostas pela sociedade, sobretudo as atitudinais, que tornam tudo ainda mais difícil. Se eu não estou bem, se não tenho condições de buscar as terapias que meu filho precisa, tudo se torna mais pesado. A minha luta sempre foi tentar manter relações harmônicas em todos os espaços da vida do Pedro — com médicos, escola, família, vizinhos. Mas é exaustivo, porque exige uma entrega constante. Enquanto a sociedade não se sensibilizar e não assumir sua responsabilidade — entendendo que a dificuldade não está na pessoa ou na família, mas nas barreiras que ela mesma cria —, essa caminhada continuará sendo muito mais árdua”, salienta.
Uma mensagem para outras mães
Neste Dia das Mães, Giselle deixa um recado sincero e necessário às mães atípicas: “Feliz Dia das Mães! Que especialmente neste dia possamos nos reconhecer como especiais e lembrar que estamos, todos os dias, tentando ser as melhores mães que nossos filhos podem ter. E isso, com toda certeza, é sentido por eles. Sejam gentis com vocês mesmas. Estamos tentando fazer o nosso melhor. Vamos errar, acertar, aprender. É um processo”.
Ela também faz um apelo à sociedade: mais empatia, mais escuta e um interesse genuíno pelo outro. “Se eu pudesse fazer um pedido a quem está lendo, seria este: permitam-se conhecer, de verdade, os nossos filhos com deficiência. No meu caso, o Pedro só será, de fato, incluído quando houver abertura para compreendê-lo como indivíduo, respeitar suas particularidades e ouvir o que ele tem a dizer. Ele tem gostos, preferências, desejos — assim como qualquer um de nós. A disposição de conhecê-lo, de se interessar por quem ele é, faz toda a diferença para mim. Eu realmente acredito que o preconceito nasce da falta de informação. Por isso, é preciso se permitir aprender com as diferenças. E é importante lembrar: hoje, nós somos ‘os outros’. Eu sou a mãe de um filho com deficiência. Amanhã, qualquer pessoa pode ocupar esse lugar: a deficiência pode fazer parte da vida de qualquer família. Por isso, precisamos ser mais humanos. Inclusão passa pela individualização, pelo olhar atento a cada pessoa, mas também depende de uma escolha coletiva: a de se abrir para compreender, acolher e respeitar, transformando a convivência em um espaço onde todos, sem exceção, possam existir com dignidade, pertencimento e voz”.
Confira também as matérias que já fizemos com Giselle, que retratam sua busca incansável por inclusão:https://civiam.com.br/comunicacao-aumentativa-e-alternativa-e-autismo-uma-jornada-que-vale-a-pena/
https://civiam.com.br/parceria-entre-familia-e-escola-o-segredo-da-inclusao-escolar/
https://civiam.com.br/autismo-educacao-inclusiva-a-importancia-do-protagonismo/


