Parceria entre família e escola: o segredo da inclusão escolar

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Foto vista de cima de algumas crianças olhando para o tablet de comunicação alternativa

Na semana passada, contamos aqui em nosso blog a jornada da família de Giselle Ávila em busca de uma melhor qualidade de vida ao seu filho Pedro, após o diagnóstico de autismo. (Confira aqui). Hoje, compartilhamos como foi a inclusão do jovem em escolas regulares e as estratégias adotadas por Giselle para tornar esse processo menos desafiador e a inclusão escolar acontecer: “O diálogo genuíno entre profissionais da escola e famílias é a chave do sucesso para que a inclusão escolar de uma criança com deficiência, de fato, aconteça e, assim, possa beneficiar todos os demais alunos, não apenas o estudante atípico”, salienta Giselle Ávila, mãe de Pedro, 11 anos.

Com uma dedicação ímpar para entender o universo do autismo e poder ofertar uma melhor qualidade de vida a Pedro, Giselle criou formas encantadoras para iniciar a jornada escolar do jovem aos 4 anos de idade na escola municipal regular CEI Olga Brehmer, em Blumenau/SC: ela buscou a direção da instituição para explicar as condições de Pedro e entender como seriam os trâmites para solicitar a Professora de Apoio da educação especial. “Fomos recebidos com muito acolhimento e orientações assertivas para o requerimento desse profissional específico, que foi concedido a Pedro. Dias antes do início das aulas, elaborei um material de apresentação do Pedro (a partir de um modelo sugerido pelo Instituto Lagarta vira Pupa) e, com autorização da direção, fomos conhecer a estrutura da escola para Pedro se familiarizar com todos os ambientes da instituição. E, a cada funcionário da escola que encontrávamos (desde a pessoa do portão, da limpeza, refeitório, professores, coordenadores), eu nos apresentava e entregava o material. Ao mesmo tempo, pedi autorização para tirar fotos de todas essas pessoas, anotando seus nomes, e criei um material de apoio visual para que Pedro pudesse conhecer e lembrar das pessoas com quem conviveria na rotina escolar. Assim que as aulas começaram, pedi também autorização da escola para enviar, por meio da agenda escolar, às famílias das crianças da sala do Pedro uma cartinha de apresentação do meu filho e sobre o autismo, onde também pedi autorização dos pais para que os professores pudessem tirar uma foto de cada aluno para me mandar, cujo propósito era também elaborar um material para que o Pedro fosse se familiarizando com os alunos que estariam com ele no dia a dia, uma vez que os autistas têm dificuldade de olhar no rosto das pessoas. Na cartinha, sugeri também montarmos um grupo de WhatsApp e à medida que os pais iam autorizando e retornando, as professoras tiravam as fotos e o grupo dos pais ia sendo criado, onde eu compartilhava também as fotos que as professoras tiravam das atividades realizadas em sala e me autorizavam a postar no grupo dos pais, onde também me coloquei à disposição para esclarecer todas as dúvidas sobre o meu filho e sobre o autismo. E a abertura desse canal foi algo muito positivo, porque eu pude esclarecer informações relevantes e o grupo se tornou uma troca muito proveitosa, não apenas de informações, mas de respeito e apoio, acima de tudo”, destaca.

Dessa forma, aos poucos, Giselle foi criando um canal com as famílias e também com os profissionais da escola, abrindo um espaço enriquecedor de trocas de informações e diálogos. “Na primeira reunião com os pais, após um mês de aula, falei do nosso grupo, e os materiais sobre a rotina escolar que eu havia plastificado para deixar na sala, já estavam na parede. Os pais adoraram a ideia, porque não traria apenas a previsibilidade ao Pedro – questão essencial para o autista –  mas, também, ajudaria a minimizar a ansiedade das demais crianças em relação à programação dos dias. Então, os pais já perceberam ali a força que nós, enquanto famílias, teríamos para criar um ambiente escolar saudável, que beneficiaria todos os alunos”.

E, segundo ela, a previsibilidade e os materiais de apoio visual são fundamentais não apenas na rotina, mas também quando acontecem imprevistos, como a troca de professores. “Muitas vezes, a primeira Professora de Apoio que Pedro teve precisava se ausentar. Então a escola me avisava qual profissional o acompanharia e eu mostrava no material dele quem era a pessoa, a partir daquelas fotos que eu havia feito na primeira visita. Dessa forma, Pedro se tranquilizava e conseguia lidar com a situação”, explica. 

Como a escola Olga atendia até o Pré-III, após concluí-lo, Pedro precisou mudar de instituição. “Fizemos muitas coisas boas ao longo dos três anos que Pedro estudou lá, como, por exemplo, em todo início do ano eu deixava com os professores diversos livros infantis que falavam sobre o autismo para que eles usassem nas aulas. E, durante o mês de conscientização do autismo, comemorado em Abril, a escola me permitia ir na sala do Pedro falar sobre o tema para as crianças”, ressalta. 

Com a finalização do Pré-III, a direção da escola sugeriu à Giselle a escola EBM Professora Zulma Souza da Silva, mas, como era destinada apenas aos estudantes que moravam no entorno, a família decidiu mudar de residência para estar dentro das regras de aceitação da matrícula. “Alguns colegas que estudaram com Pedro na escola Olga também foram para a Zulma, o que nos trouxe grande alegria, porque criamos um vínculo enorme de carinho com essas famílias e essas crianças”, diz Giselle, que relata que adotou o mesmo procedimento da escola anterior, como ir dias antes do início das aulas para conhecer os ambientes e os professores, juntamente com Pedro; registrar fotos de todos e entregar o perfil dele para os funcionários. “Além da previsibilidade que mencionei, toda ação que fazíamos em relação à escola, o Pedro estava presente, como compra de material escolar, escrita do nome dele nas etiquetas, organizar a mochila e preparar o lanche”.  

Segundo Giselle, a adaptação do Pedro à nova escola foi um processo de muita conversa com ele e também com a Professora de Apoio: “Com ela eu falava das minhas angústias quanto à inclusão do Pedro e acredito que esse diálogo sincero, como sempre ressalto, é fundamental. Nós, como família, precisamos nos abrir, nos despir das nossas inseguranças. Na época, ele ainda não era oralizado e não tinha nenhum canal de comunicação. Eu o compreendia a partir de seus comportamentos: ele ia muito feliz pra escola e voltava muito feliz, o que me mostrava que ele estava sendo acolhido”.

Ela complementa: “Nessa escola, uma outra mãe que nos conhecia da escola Olga, mas não tínhamos tido contato, porque nossos filhos não eram da mesma turma é quem sugeriu o grupo do WhatsApp dos pais dos alunos. E eu achei muito legal, por ter sido outra pessoa  quem sugeriu e, como sempre, deixei claro que, qualquer dúvida em relação ao Pedro, nenhuma pergunta era errada, que as crianças poderiam ter dúvidas e os pais poderiam não saber as respostas, então que eles tinham total abertura de perguntar no grupo e eu não ficaria ofendida. Nós, famílias atípicas, temos que espalhar o conhecimento, pois, muitas vezes, a falta de conhecimento é que leva as pessoas a agirem de uma forma negativa. Da mesma forma que o colégio anterior, neste grupo, pedi autorização para que os professores tirassem as fotos das crianças e expliquei que os autistas têm dificuldades de memorizar rostos. Quando tinha trabalho em grupo, chegando em casa, eu mostrava as fotos de quem tinha participado com ele  da atividade e isso o ajudava muito”, explica.

Giselle ressalta que também sugeriu à escola a ideia da leitura de livros sobre autismo no mês de Abril e a receptividade foi imediata: “Na escola Zulma eu passei a falar de autismo também às turmas de outros anos, além da sala do Pedro. Passamos a distribuir adesivos e, posteriormente, bottons sobre o autismo durante o mês de Abril para todos os funcionários e para os alunos da turma do Pedro. E, durante as conversas em sala sobre o autismo, eu sempre perguntava se tinham alguma dúvida, porque, mesmo os alunos que já conheciam o Pedro desde o Pré-I no Olga, poderiam ter novas dúvidas, daí a importância de estarmos sempre abertos para esclarecermos, e as crianças eram incríveis! A gentileza que elas desenvolveram com meu filho, certamente elas levam pra casa, pra vida. Muitas famílias me perguntavam que livro que era para poderem comprar, então foi um trabalho lindo que tenho maior orgulho e tenho um carinho imenso por essas famílias e por essas crianças, que estão crescendo com o Pedro desde o colégio anterior. Tenho certeza que serão seres humanos maravilhosos e terão papéis na sociedade muito potentes”, emociona-se Giselle, que relembra ainda que, durante a pandemia, Pedro ficou ausente do colégio e só retornou em 2022 ao presencial. “Uns dias antes dele retornar, as crianças mandaram vídeos no grupo de WhatsApp, perguntando se Pedro lembrava delas e que estavam felizes com a volta dele. Foi lindo demais e só de lembrar, não tem como não me emocionar”, diz.

Foto da classe do Pedro com vários alunos segurando uma prancha de comunicação alternativa. Na foto também estão as duas professoras e Giselle, mãe do Pedro.

Ela destaca ainda a importância do Professor de Apoio (PAP) no processo de inclusão de Pedro na jornada escolar: “Toda criança com deficiência tem direito a esse profissional, mas sabemos que muitas famílias têm a solicitação negada do acompanhamento do Professor de Apoio. No caso do Pedro, sua jornada escolar só foi possível graças ao acompanhamento dessa professora específica para a educação especial, que permitiu o elo com sucesso do professor regente, alunos e nós, como família”, enfatiza. 

A Comunicação Aumentativa e Alternativa na escola

Foto do Pedro apresentando seu trabalho no tablet de comunicação alternativa para outras crianças

A partir de 2021 também é que Pedro começou a utilizar a Comunicação Aumentativa e Alternativa, primeiro em baixa tecnologia (veja como foi o processo na matéria que fizemos com a família, clique aqui). Em 2022 é que, com a ajuda de familiares e amigos, Giselle adquiriu um iPad para que fosse iniciada a CAA em alta tecnologia. “A partir do ano passado, Pedro passou a levar o recurso todos os dias e, com o comunicador, ele passou a ter o sentimento de pertencimento, de fato. Em um dos trabalhos da sala, Pedro apresentou em seu dispositivo, enquanto outras crianças apresentaram em cartaz ou em maquete. Como era apresentação no pátio, diversas turmas e professores de outros anos passaram na mesa dele e Pedro estava muito feliz, porque as pessoas estavam prestando atenção no trabalho dele, ouvindo o que ele tinha para apresentar. Foi um momento incrível e muito especial pelo fato dele ter conseguido se comunicar e interagir com toda a escola”, diz Giselle, que passou também a ser uma fonte de informação à escola sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa, até então pouco conhecida pelos professores.

Ela conta ainda que, no ano passado, juntamente com a fonoaudióloga que atende Pedro, foi feita uma reunião com a Professora de Apoio e a professora regente, com a ideia de montarem um banner de CAA para ser colocado na sala, além de mini pranchas de Comunicação Aumentativa e Alternativa para todos os alunos. “A fonoaudióloga  criou o vocabulário que deveria ter nas pranchas e eu as montei na versão gratuita de teste do Boardmaker 7, um software de CAA, onde são criadas as pranchas de comunicação. Então eu as imprimi, plastifiquei e fui na sala falar para as crianças sobre a CAA e explicar como funcionava o comunicador do Pedro. Este ano, falei com cada professor sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa e estamos estudando a possibilidade de elaborarmos mais banners e pranchas para cada disciplina, o que é incrível, porque a CAA dá ‘voz’ a todos os alunos”, conta Giselle, que fez ainda no ano passado um curso de adaptação de materiais do Instituto Itard, além de diversas outras especializações. “Por isso, a minha ideia este ano é colaborar com a escola criando modelos de materiais adaptados para que os professores tenham uma base de como adaptar os recursos usados em aula”.

Foto de duas crianças jogando Pula Pirata, usando uma prancha de CAA para se comunicar. Um deles está apontando a figura: Minha vez.
Foto do horário do lanche, uma mesa com duas crianças com seus lanches, se comunicando com uma prancha de CAA.

Giselle diz ainda que a entrada este ano de Pedro no Ensino Fundamental II está sendo desafiadora pela mudança de carga horária maior e também por ser diversos professores – um para cada disciplina. “O Pedro levou três semanas para entender toda a dinâmica do EF2, que é toda diferente e nova para ele em relação aos anos anteriores. Ele ficou bastante agitado pelas mudanças, mas vale ressaltar ainda que a agitação não é algo ‘normal do autismo’, como muitas pessoas acreditam. É possível evitá-la quando há antecipação das situações. Por isso, ressalto a importância da previsibilidade, fundamental para que o autista não se desregule, pois o fato dele se desregular gera uma série de mudanças emocionais e comportamentais que são desafiadoras para as famílias, implicando até mesmo em mudanças de rotina, como não querer ir para a aula, para as terapias, não conseguir dormir e assim por diante. E os professores que compreendem a importância dessa antecipação no autismo vão se atentar a, sempre que puder, comunicarem às famílias as mudanças na programação, ao invés de entenderem a questão como um incômodo, pois a rotina, a estrutura e a previsibilidade são essenciais e devem ser vistas com mais importância. Por isso, as escolas precisam se organizar melhor, pois muitas pessoas entendem os imprevistos como um mero detalhe, quando para as pessoas com deficiência faz toda a diferença, gerando, como no caso do Pedro, um mal estar absurdo, que desencadeia uma série de questões emocionais”, enfatiza.

Foto de um tablet de CAA, onde vemos as figuras de "raiva", "bagunça na sala" e "fazer algo que eu não quero"

Ela ressalta ainda a importância também da capacitação dos profissionais: “É uma batalha, um longo processo para garantir a inclusão do Pedro na jornada escolar. Muitas vezes, esse processo de pertencimento é um trabalho de formiguinha, onde lutamos pela pessoa Pedro e não pelo autista Pedro. É desafiador enquanto família, mas permitir que ele tenha ‘voz’ e possa participar da sociedade como todos, vale a pena. Por isso, o que eu puder fazer para plantar a sementinha de termos cada vez mais parceiros de comunicação, tanto professores quanto alunos, melhor será para toda a sociedade, não apenas para o meu filho”, destaca Giselle.

Giselle faz um agradecimento especial às pessoas que ela considera que foram fundamentais na jornada escolar de Pedro: “Eu não poderia deixar de agradecer e reconhecer a importância de professores que foram fundamentais em fazer a inclusão do Pedro como indivíduo: da escola Olga, um agradecimento especial às professoras regentes Vanessa, Elaine, Ana Paula, Fabíola, Tamires, Marciane, Suzani; às Professoras de Apoio Rosa, Marlene, Ana Paula, Cristina; à diretora Silvana pelo acolhimento; e às coordenadoras Leidioneia e Ana Paula, muito queridas. Do colégio Zulma, eu gostaria de agradecer as Professoras de Apoio Rosângela, Lenira (que me acolheu como mãe e se tornou uma grande amiga para a vida), Fabiana (que também tem se tornado uma pessoa muita importante para nós); os diretores Marcos, Cheila, Sinclair; e os professores regentes que fizeram também a diferença: Lilian, Márcia, Nicole, Eliane, Priscila, Andreia, Carla, Deise, Jucylene, Solange, Vânia, Kamila, Jandir, Maria Lúcia, Henrique, Leonni, Cezar, Glaucio, Ecilda, Arnaldo, Edinan e Marili. Agradeço também os coordenadores: Andreia, Adriana, Anisio, Rosecler e Kátia; e as professoras do Atendimento Educacional Especializado (AEE), Vanessa e Eliane. Acredito que todas essas pessoas, tanto professores regentes, quanto PAPs e do AEE, não têm ideia da importância que têm em nossas vidas. Agradeço ainda a todos os funcionários, tanto do colégio Olga, quanto Zulma, como o segurança Bruno, as meninas da limpeza, do refeitório, da biblioteca. E um agradecimento especial também às famílias que tanto nos ajudaram a construir um ambiente escolar saudável aos nossos filhos”, emociona-se Giselle.

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