
O Dia dos Pais é uma oportunidade para celebrar as diferentes formas de viver a paternidade. Entre elas, está a dos pais atípicos: homens que, diariamente, ressignificam o ato de cuidar, enfrentam desafios, superam barreiras e descobrem que a verdadeira força está na presença, na escuta, no respeito às diferenças e no amor incondicional.
A história de Ivan Fialho, pai solo de Fernanda Fialho (@paraquetabu) e avô de Ana Laura – ambas autistas – representa, na prática, esse compromisso diário com o cuidado. “Não existe manual para a paternidade, muito menos para a paternidade atípica e solo. Mas existe amor suficiente para preencher qualquer ausência”, salienta.
Mais do que uma narrativa de superação, sua trajetória é um testemunho de que o amor, aliado à responsabilidade, à dedicação e ao compromisso em priorizar os filhos, têm o poder de transformar vidas, não apenas a de quem recebe o cuidado, mas também a de quem escolhe estar presente.
Ivan conta que decidiu ser pai aos 37 anos, depois de realizar objetivos pessoais e profissionais. A chegada de Fernanda, fruto de uma gestação planejada, representou o início de uma nova vida. “Logo de cara, abri mão do ‘eu’ e passei a usar o ‘seu’ e o ‘nosso'”, recorda. As madrugadas em claro, os cuidados diários e a responsabilidade de acompanhar cada etapa do desenvolvimento da filha fizeram com que ele descobrisse o real significado da paternidade.
“Antes de ir para o trabalho, eu a levava para a creche; depois do expediente ia buscá-la. Anos depois veio o caçula Pedro Hugo e quando ele tinha 4 anos e Fernanda 9, como o relacionamento não estava bem, resolvi sair de casa, que era minha. Achei que o melhor era deixar as crianças no lugar onde já estavam acostumadas a viver. Fui morar na casa de um compadre, padrinho da Fernanda,no condomínio ao lado. Quando eles descobriram onde eu estava, foram sozinhos até lá e disseram: “Papai, viemos morar com você”. Aquilo me marcou profundamente. Conversei com a mãe deles e decidimos respeitar a vontade das crianças. Ela saiu de casa, eu voltei para lá e passei a criá-los sozinho. Nunca houve disputa ou briga. Foi uma escolha espontânea deles, e eu apenas acolhi essa decisão”, relembra.
Paternidade solo
Ao assumir a paternidade solo, Ivan precisou reorganizar completamente a própria vida. Bancário, na época ocupava um cargo de executivo, com uma jornada superior a 10 horas diárias, além de trabalhar longe de casa. Para conseguir acompanhar de perto o crescimento dos filhos, tomou uma decisão: abriu mão do cargo, reduziu a jornada de trabalho – e, consequentemente, o salário – para atuar em uma unidade mais próxima de sua residência.
A transformação não parou por aí. Sem experiência nas tarefas domésticas, aprendeu a cozinhar com a ajuda da irmã, que lhe ensinava preparos por telefone. Aos poucos, passou a conciliar trabalho, consultas médicas, escola, afazeres da casa e toda a rotina de cuidados com Fernanda e Pedro. Entre renúncias e aprendizados, fez da presença, do acolhimento e do amor os pilares da criação dos filhos.
“Costumo brincar dizendo a eles que sou pai, não mãe. Mas, na prática, quem cria um filho sozinho acaba exercendo todos os papéis. É você quem dá o remédio, oferece colo, socorre quando precisa, prepara a comida, leva ao médico, acompanha na escola e enfrenta as madrugadas difíceis. Com o tempo, você simplesmente faz o que precisa ser feito. O amor vai mostrando o caminho”, destaca Ivan.
O desafio do diagnóstico do autismo e a importância da identificação precoce
“Nessa mesma época, comecei a perceber que tinha algo de errado com a Fernanda, porque ela tinha muitas dificuldades e atraso no desenvolvimento – foi um momento muito difícil, porque também não tive o apoio da mãe, que achou um exagero a minha desconfiança e por eu querer levá-la a consultas. Mesmo assim não desisti e continuei na luta, porém, estamos falando de 20 anos atrás e o autismo não era um diagnóstico fácil de ser fechado – que aconteceu, de fato, apenas quando ela tinha 25 anos de idade. Foi um grande desafio. Mas, como sempre digo: você não pode desistir, respira fundo, encara e pensa que tudo dará certo”, conta Ivan, com uma tranquilidade e leveza admiráveis.
Antes de receber o diagnóstico correto, Fernanda enfrentou um longo período de sofrimento marcado por diversas internações psiquiátricas decorrentes da ausência de uma identificação adequada do transtorno. Essa trajetória é narrada por ela no livro “A História que meus pais não contariam – sobrevivendo sem o diagnóstico de autismo” (Editora Escrita Nobre), em que relata os impactos da falta de diagnóstico e da incompreensão sobre o autismo em sua vida (confira a matéria que publicamos sobre a obra aqui).
“Muitas vezes, quando a Fernanda era internada, eu passava a noite com ela no hospital. Por volta das 5h da manhã, voltava para casa para preparar o Pedro e levá-lo à escola. Depois retornava ao hospital e, quando ele saía das aulas, ia direto para lá e passava o restante do dia conosco. À noite, eu o levava de volta para casa para dormir – sozinho -, e então voltava novamente ao hospital. Essa era a nossa rotina”, relembra Ivan.
Ele conta ainda que, como acontece em muitas famílias, Pedro sentia ciúmes da atenção dedicada à irmã e, por vezes, se zangava com o pai pelos cuidados constantes com Fernanda. “Eu sempre dizia a ele que ela não tinha culpa de nada. Afinal, ele também tinha mãe”, relembra.
Em 2022, Fernanda tornou-se mãe solo de Ana Laura, hoje com 5 anos e também diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 2 de suporte. Os primeiros sinais surgiram quando a menina tinha cerca de um ano de idade. A partir da confirmação do diagnóstico, a família iniciou imediatamente o acompanhamento terapêutico, que segue até hoje.

“Tenho muita fé em Deus e acredito que nada acontece sem a Sua permissão. Quando a Ana Laura chegou, confesso que fiquei muito assustado. Além da minha idade avançada, havia o fato de ela também ser autista, e muitos medos passaram pela minha cabeça. Com o tempo, porém, fui percebendo que Deus tinha um propósito maior. Hoje vejo que uma veio para completar a outra. A Ana Laura gosta justamente das atividades que a Fernanda nunca apreciou, e cada uma, à sua maneira, complementa a outra. Por isso, acredito que, com a ajuda de Deus, o futuro delas já está sendo construído. Tenho confiança de que tudo dará certo”, ressalta o avô.
Segundo ele, as internações de Fernanda ainda acontecem esporadicamente, em razão das desregulações e de crises intensas. Atualmente, sua rotina exige conciliar o trabalho com os cuidados da filha e da neta Ana Laura, carinhosamente chamada por Fernanda de “Dona Moça”.
O filho mais novo, Pedro Hugo, mora em outro município, onde cursa o ensino superior. Nos períodos de férias acadêmicas, retorna para casa para apoiar o pai nos cuidados com a irmã e a sobrinha, reforçando a rede de apoio construída pela família ao longo dos anos.
Aprendizados de um pai atípico
Ao longo dessa jornada, Ivan encontrou as lições mais transformadoras de sua vida:
“Todos os dias eu aprendo um pouco com a Fernanda. O maior ensinamento que ela me deu foi que, muitas vezes, precisamos ouvir mais e falar menos. A pessoa autista precisa da nossa companhia, da nossa presença genuína. Ela precisa sentir que é amada. E, para demonstrar esse amor, nem sempre é necessário dizer uma única palavra. Basta estar ali. O autista não espera grandes discursos ou conversas o tempo todo. Muitas vezes, ele só quer que você permaneça ao seu lado, compartilhando o momento. Essa presença silenciosa transmite segurança, acolhimento e amor. Quando você escolhe dedicar seu tempo para simplesmente estar com ela, demonstra, na prática, o quanto aquela pessoa é importante para você. Por isso: sempre que puderem, priorizem o tempo compartilhado, o olhar atento e a disponibilidade para estar ao lado dos seus filhos autistas e isso, muitas vezes, é a mais profunda demonstração de amor que podemos oferecer”, enfatiza.
Ele ressalta que um dos maiores aprendizados da paternidade atípica é viver um dia de cada vez. “Não tem como planejarmos mais do que as próximas 24 horas, porque tudo pode mudar. Certa vez, eu estava com uma viagem marcada com amigos quando a Fernanda começou a passar muito mal. Eles já estavam na porta de casa para irmos ao aeroporto, mas decidi ficar e levá-la ao hospital e foi a melhor coisa que fiz naquele momento. O bem-estar dela sempre foi e sempre será a minha prioridade”, ressalta.
A experiência de Ivan evidencia que um dos pilares mais importantes para o desenvolvimento de crianças autistas é o envolvimento da família, independentemente da sua configuração. Ao relembrar essa trajetória, ele também revela os momentos que mais tocaram e tocam seu coração como pai atípico:
“Toda vez que a minha filha sobe em um palco e faz uma palestra para mais de 3 mil pessoas, causando emoções, me emociona.
Toda vez que após uma palestra se forma uma fila gigantesca para parabenizá-la, fazer fotos e a fila atrapalha o palestrante seguinte, porque a fila não acaba, me emociona.
Toda vez que minha filha consegue vender mais de 200 exemplares em 20 minutos em algum evento, e ver aquela fila gigantesca para ela autografá-los, me emociona.
Toda vez que ela é convidada a participar de um comercial ou mídia televisiva, me emociona”.

Ao Dia dos Pais, Ivan deixa a seguinte mensagem:
“Vivam um dia de cada vez. Não queiram dar um passo maior do que o seu filho pode alcançar. Aproveitem cada momento, celebrem cada conquista e amem mais.
À sociedade, eu gostaria de deixar uma palavra: respeito. Não critiquem, não menosprezem, não zombem. A pessoa autista é diferente, mas todos nós somos diferentes. Eu convivo com uma mulher autista que consegue ler um livro com mais de 500 páginas em um único dia. Depois, faz análises profundas sobre a obra e ainda é capaz de ministrar uma verdadeira aula sobre o que leu. Ela sobe ao palco diante de mais de três mil pessoas para palestrar sobre autismo com uma segurança admirável. Hoje, reúne mais de 150 mil seguidores nas redes sociais, onde compartilha conhecimento e conscientização sem abrir mão dos seus princípios. Já recebeu propostas de valores milionários para divulgar plataformas de apostas on-line, mas preferiu permanecer fiel aos seus valores.
O meu desejo é que a inclusão deixe de existir apenas no papel e se torne realidade. Que os governantes olhem com mais atenção para as escolas, onde tantas crianças autistas ainda são colocadas em salas com mais de 30 alunos, sem que seus professores recebam a capacitação necessária para acolhê-las e promover uma educação verdadeiramente inclusiva. Que os CAPS contem com profissionais qualificados para complementar o tratamento e contribuir para o desenvolvimento da autonomia das pessoas autistas. Que shoppings, aeroportos e outros espaços públicos disponham de salas sensoriais para acolher crianças e adultos autistas em momentos de sobrecarga sensorial. Enfim, que existam mais políticas públicas efetivas voltadas ao bem-estar, à inclusão e ao respeito às pessoas com deficiência e a todas as minorias.
E aos pais de meninos, deixo um alerta: eduquem seus filhos para serem seres humanos responsáveis, empáticos e presentes, e não príncipes que acreditam que não precisam sequer lavar uma louça. Ensinem respeito, responsabilidade e compromisso com a família. Assim, no futuro, teremos homens mais preparados para cuidar, dividir responsabilidades e permanecer ao lado de seus filhos, inclusive quando eles forem atípicos”, salienta Ivan, ao mencionar o alto índice de abandono de pais diante do diagnóstico de deficiência – de acordo com o Instituto Baresi, 78% dos pais abandonam o lar após o diagnóstico de deficiência dos filhos, antes mesmo de a criança completar cinco anos de idade.
Ivan também transformou as redes sociais em um espaço de acolhimento, troca de experiências e conscientização sobre a paternidade atípica. Em seu perfil no Instagram, @paiatipicosemtabu – inspirado no trabalho desenvolvido por Fernanda no @paraquetabu -, ele compartilha os desafios, as conquistas e os aprendizados de sua trajetória como pai solo e avô em uma família atípica. O objetivo é mostrar que a paternidade atípica pode ser vivida com afeto, compromisso e presença.
Além disso, ele tem como projeto a criação de um grupo de apoio para cuidadores de pessoas com deficiência na igreja que frequenta, com o propósito de oferecer escuta, troca de experiências e fortalecimento de uma rede de acolhimento para famílias que vivenciam essa realidade.
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@paiatipicosemtabu


