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Muito além da música: como a musicoterapia pode ampliar a autonomia e a participação social

Foto de um menino fazendo uma escalada em uma teia de um parque indoor

Pedir um lanche, escolher um produto no mercado, esperar em uma fila ou circular por um espaço movimentado parecem ações corriqueiras, mas exigem uma combinação de habilidades, como comunicação, planejamento, tomada de decisão, interação social e autorregulação, principalmente para crianças neuro divergentes. No Dia do Musicoterapeuta, celebrado em 15 de setembro, situações como essas ajudam a revelar uma dimensão menos conhecida da profissão: o trabalho vai muito além da música restrita à sala de atendimento e pode contribuir para que crianças, adolescentes e adultos desenvolvam habilidades para participar com mais autonomia de diferentes situações da vida cotidiana. 

É justamente nesse contexto que as chamadas saídas sociais terapêuticas ganham importância no acompanhamento de pessoas com deficiência. Mais do que uma atividade de lazer, elas são experiências planejadas para levar para ambientes reais habilidades trabalhadas durante o processo terapêutico em ambientes clínicos.

A proposta também contribui para ampliar a compreensão sobre a atuação dos musicoterapeutas, cuja prática está muito além do imaginário ainda comum de que seu trabalho se resume a tocar músicas. As saídas sociais terapêuticas são um exemplo disso: ao acompanhar a pessoa em situações reais do cotidiano, o profissional pode utilizar a música e seus elementos para trabalhar aspectos como comunicação, percepção, organização, expressão, aprendizagem e autonomia. Regulamentada pela Lei nº 14.842/2024, a profissão pode ser exercida em diferentes contextos, incluindo saúde, educação, assistência social, reabilitação e prevenção, reforçando a possibilidade de uma atuação que ultrapassa os limites da sala de atendimento e se aproxima das experiências concretas da vida diária. 

Quando a musicoterapia sai dos ambientes clínicos

Foto de uma paciente em uma saída social em uma galeria de arte.

“A música e a arte têm um papel muito bonito nesse processo das saídas sociais, porque ajudam a acessar camadas sensíveis da experiência humana, aproximando a pessoa de seus gostos, seus afetos e suas possibilidades de lazer”, destaca a musicoterapeuta e terapeuta ocupacional Vitória de Morais Goes, à frente do Ser Brincante espaço terapêutico, cujo brincar ocupa um lugar central nos atendimentos. Na clínica, ele não é visto como um simples passatempo, mas como um recurso terapêutico potente, capaz de favorecer o desenvolvimento, a aprendizagem e a participação da pessoa em diferentes experiências do cotidiano.

Segundo ela, a proposta do Ser Brincante é fundamentada em abordagens como o DIR/Floortime, que respeita o ritmo individual da criança, fortalecendo vínculos, comunicação e habilidades socioemocionais; e Integração Sensorial de Ayres, uma abordagem da terapia ocupacional que utiliza conhecimentos do desenvolvimento humano, da neurociência e da psicologia para compreender como o processamento das informações sensoriais influencia a aprendizagem, o comportamento e a participação da criança nas atividades do dia a dia.

“A preparação começa antes da saída, com previsibilidade, combinados claros, consentimento e experiências graduais. Depois, o paciente vai sendo exposto aos poucos a ambientes reais, com apoio compatível com seu perfil sensorial, emocional e funcional. Em alguns casos, o DIR/Floortime ajuda muito nesse processo, porque valoriza o desenvolvimento singular, a relação de confiança e a adaptação ao ritmo do sujeito. No Ser Brincante espaço terapêutico, a preparação não é apenas técnica; ela também é afetiva, porque o paciente precisa se sentir seguro para explorar o mundo sem ser pressionado, além do que consegue sustentar naquele momento”, salienta Vitória.

Ela explica ainda que a diferença das saídas sociais em relação a um passeio comum está justamente no objetivo. “Enquanto o passeio tem o lazer como foco, a saída social é planejada com uma finalidade terapêutica: identificar desafios, estimular competências e favorecer aprendizagens que possam ser incorporadas à vida prática. Em nossa clínica, entendemos essa experiência como parte importante do cuidado, porque é também nas situações reais que a pessoa pode experimentar e desenvolver novas habilidades com o suporte adequado”, destaca.

Segundo a profissional, as saídas terapêuticas são extremamente relevantes ao considerar lidar com ruídos, movimento, espera, outras pessoas, mudanças de planos e escolhas que nem sempre podem ser previstas. “Ao pedir um alimento, por exemplo, a pessoa precisa compreender o que está disponível, comunicar o que deseja, aguardar, tomar uma decisão e lidar com o resultado”, destaca a musicoterapeuta.

A lógica parte de uma questão importante: uma habilidade aprendida dentro de um consultório precisa fazer sentido também fora dele. Se uma pessoa consegue realizar determinada tarefa apenas em um ambiente estruturado, ainda há um caminho a percorrer até que esse conhecimento seja generalizado para diferentes situações. E é nesse espaço entre a clínica e a vida cotidiana que as saídas sociais enriquecem o desenvolvimento do paciente: “Em uma rua, em uma loja, em um restaurante ou em um espaço cultural, o profissional pode identificar novas possibilidades de participação e também observar situações que ainda exigem suporte”, destaca Vitória, que complementa: “Entre os inúmeros benefícios desse processo, a percepção auditiva é um dos que ganham destaque. Sons como buzinas, passos, vozes e chamados fazem parte da experiência de circular pela cidade e podem ser trabalhados dentro de uma perspectiva da musicoterapia. O ritmo, por sua vez, pode contribuir para aspectos como a coordenação bilateral, a organização temporal e o ajuste dos movimentos. Já as experiências musicais podem favorecer a expressão de preferências, afetos, memórias e curiosidades, criando oportunidades para fortalecer a relação entre o paciente, o profissional e o ambiente. A música também pode ser utilizada como recurso para favorecer a comunicação, estimular a interação e criar oportunidades de vínculo. Em uma situação cotidiana, porém, o trabalho vai muito além de simplesmente cantar durante o passeio. O profissional pode observar como a pessoa reage aos sons do ambiente, percebe os estímulos ao seu redor, estabelece relações, lida com mudanças e utiliza recursos musicais para se comunicar ou se organizar. Por isso, trata-se de usar a experiência musical como parte de um processo terapêutico profundo”, explica Vitória.

Um dos exemplos importantes observados pela profissional nos diversos atendimentos do Ser Brincante espaço terapêutico, está o de uma criança com uma deficiência intelectual que demandava maior grau de suporte, que vinha sendo acompanhada em um projeto longo de saídas sociais, em um processo de ampliação de repertório: “Em uma das experiências, ela foi levada a um show de jazz, onde precisou lidar com o barulho, com a intensidade sonora e com o ambiente diferente. Esse contato foi importante porque permitiu observar limites, ampliar tolerância e preparar vivências futuras com a família. Outro exemplo marcante foi o de uma adolescente que começou com muita insegurança: entrava de cabeça baixa nos espaços e demonstrava dificuldade para se posicionar. Com o tempo, ela passou a circular melhor, perguntar onde estavam os produtos, escolher itens sozinha e construir vínculos sociais mais consistentes. Em outro momento, ela foi até a Galeria do Rock, onde encontrou um grupo com o qual se identificava e passou a ampliar seu repertório social. Também houve a experiência no mercado, em que inicialmente ela se mostrava retraída, mas depois foi ganhando mais autonomia e presença”, recorda Vitória. São momentos como esse que permanecem na memória e, ainda hoje, alegram e emocionam a musicoterapeuta.

Esses exemplos mostram que a saída social não é apenas uma atividade externa. Ela pode ser profundamente transformadora quando respeita o tempo do sujeito e permite que ele vá se descobrindo no mundo. “São experiências que mostram que autonomia não significa necessariamente fazer tudo sozinho. Significa ter condições de participar, fazer escolhas e exercer protagonismo, contando com o suporte necessário”, destaca a profissional.

Confira uma das saídas sociais que Vitória publicou em seu instagram:
https://www.instagram.com/reels/DEaER4UJ_PL/

A família também faz parte do processo

De acordo com a musicoterapeuta, as saídas sociais não substituem a participação da família, mas podem criar oportunidades para que crianças e adolescentes exerçam maior independência de maneira acompanhada.

“Em alguns momentos, a presença dos familiares é importante. Em outros, oferecer espaço para que o paciente interaja com o profissional e com o ambiente sem a intervenção constante da família pode ser parte do próprio objetivo terapêutico. O equilíbrio depende de cada caso”, explica.

Para as famílias que buscam esse tipo de atendimento, Vitória salienta a importância do cuidado na escolha do profissional: “A recomendação é observar se há planejamento, objetivos claros, transparência sobre a proposta e atenção às questões de segurança. Também é importante que a atividade não seja improvisada, mas, ao mesmo tempo, não se transforme em um passeio rigidamente conduzido. Isso significa permitir que a pessoa experimente, faça escolhas, encontre soluções e vivencie situações espontâneas. A intervenção pode acontecer de maneira mais discreta, respeitando seu ritmo, suas características e suas formas próprias de se relacionar com o ambiente. Esse cuidado é fundamental para que as habilidades sociais trabalhadas não se tornem artificiais ou dependentes de um roteiro. O objetivo não é ensinar alguém a cumprir uma sequência de comportamentos, mas ampliar sua possibilidade de participar, fazer escolhas e se posicionar em diferentes contextos”, salienta Vitória

Outro aspecto importante das experiências fora da clínica é a possibilidade de lidar com aquilo que não estava previsto: uma fila maior do que o esperado, uma mudança de trajeto, um ambiente mais barulhento, uma alteração de programação ou uma situação social inesperada fazem parte da vida cotidiana. Em vez de serem encarados necessariamente como fracassos, esses acontecimentos podem se transformar em oportunidades reais e importantes de aprendizagem. “O papel do profissional, nesse momento, é avaliar a situação e ajustar o suporte, o percurso ou os combinados conforme necessário, sempre considerando a segurança e o bem-estar do paciente. Afinal, a vida real não acontece em um ambiente totalmente controlado”, reforça.

Um trabalho que ultrapassa a música

Por isso, Vitória destaca que o Dia do Musicoterapeuta também é uma oportunidade para ampliar o olhar sobre a profissão e compreender que a musicoterapia não se restringe ao que acontece dentro de uma sala de atendimento. Em propostas como as saídas sociais, o trabalho terapêutico acompanha a pessoa em situações reais do cotidiano, utilizando a música e seus elementos para favorecer novas experiências, aprendizagens, autonomia e formas de participação. Afinal, a música é uma ferramenta potente, mas seu potencial terapêutico vai muito além dela e também ultrapassa as paredes da clínica.

Por isso, nesta data dedicada aos musicoterapeutas, Vitória propõe a reflexão:
“A mensagem para este Dia é de resiliência, persistência e coragem para fazer diferente de verdade. O processo terapêutico exige presença, responsabilidade e sensibilidade, porque trabalhar com a vida prática não é apenas ensinar habilidades, mas acompanhar cada pessoa em sua forma singular de existir e se relacionar com o mundo. No Ser Brincante espaço terapêutico, acreditamos que o mais importante não é apenas alcançar desempenho, mas construir pertencimento, autonomia, dignidade e bem-estar. Para as famílias, isso significa confiar no processo e respeitar o tempo de cada criança. Para os profissionais, significa reconhecer que fazer diferente dá mais trabalho, exige mais compromisso e disponibilidade, mas também pode produzir transformações mais profundas e humanas. No fim, é sobre olhar para além da habilidade que se pretende desenvolver e criar oportunidades para que cada pessoa possa ocupar seu espaço no mundo com mais autonomia, participação e sentido”.

Confira mais:
https://www.instagram.com/serbrincante_/