
Algumas histórias começam com um gesto de cuidado e, com o passar dos anos, alçam novos voos e trilham novos caminhos. É o caso da Kibô-no-Iê – nome em japonês que significa “Casa da Esperança” -, uma instituição sem fins lucrativos que há mais de cinco décadas atua pelo bem-estar, desenvolvimento e autonomia de pessoas com deficiência intelectual e idosos.
E, para entender a história da Kibô-no-Iê, é preciso voltar ao início dos anos 1960, quando esse gesto de cuidado começou a ganhar forma pelas mãos de Koko Ichikawa. Nascida em Tóquio, no Japão, em 1927, veio para o Brasil em 1958, onde passou a atuar em uma instituição voltada ao atendimento de pessoas com deficiência intelectual. Cinco anos depois, em 1963, decidiu iniciar seu próprio trabalho acolhendo pessoas em sua própria residência, na Vila Brasilândia, em São Paulo. O que nasceu como uma iniciativa de cuidado e solidariedade logo ganhou novos apoiadores e cresceu, mudando para a atual sede em Itaquaquecetuba, dando origem à Kibô-no-Iê, que posteriormente seria oficialmente registrada, em 1970, como Sociedade Beneficente Casa da Esperança.
Assim, ao longo das décadas, a pequena iniciativa que começou dentro de uma casa se transformou em uma instituição que ampliou suas formas de acolher e cuidar. Hoje, a Kibô-no-iê combina moradia de longa permanência e atendimento no Centro de Convivência, acolhendo tanto pessoas que vivem na instituição quanto aquelas que retornam para casa ao fim das atividades. Essa transformação também veio acompanhada de uma nova forma de compreender as possibilidades de cada pessoa, com ações voltadas ao fortalecimento da autonomia, dos vínculos familiares e da participação social.
“Estimamos que a Kibô-no-iê, considerando o período da sua atuação desde os primeiros anos, quando a atuação ainda era informal, na década de 1960 até os dias atuais, tenha atendido mais de 400 pessoas. Quando a fundadora da Kibô iniciou seu trabalho, as pessoas com deficiência intelectual eram vistas como incapazes, e não eram vistas como pessoas que tinham suas próprias vontades e escolhas”, relembra Dirce Akemi Shimomoto, presidente da Kibô-no-iê.
Koko Ichikawa faleceu em 2001, mas os valores de trabalho com amor que deram origem à Kibô-no-iê continuaram presentes na trajetória da instituição. Ao longo dos anos, esse legado também foi ganhando novos significados, à medida que a forma de compreender as pessoas com deficiência intelectual e suas possibilidades de participação e autonomia foi se transformando. De acordo com Dirce Shimomoto, um marco importante nesse processo aconteceu em 2015, quando a instituição começou a desenvolver novos projetos voltados à autonomia, muitos dos quais foram implementados ao longo dos anos e permanecem até hoje. “Temos várias atividades que contribuem para o desenvolvimento e a autonomia dos atendidos, como a fábrica de fraldas, os ateliês de cerâmica e de papel reciclável, além das oficinas de educação financeira, que incluem experiências de ir às compras fora dos muros da Kibô-no-iê, e da capacitação profissional nos setores da própria entidade. Também contamos com as residências coletivas, onde eles podem exercitar a autonomia no dia a dia e assumir responsabilidades, como limpar a casa, lavar as próprias roupas e cuidar das suas coisas. Tudo isso é complementado por oficinas e atendimentos voltados ao desenvolvimento e ao bem-estar, sempre com o acompanhamento de profissionais especializados”, explica.

Atualmente, a Kibô-no-iê tem sua sede em Itaquaquecetuba e mantém um escritório na Vila Mariana, em São Paulo. A instituição conta com 110 colaboradores e atende 65 pessoas considerando aquelas que vivem em regime de longa permanência e de Centro de Convivência. “Atender pessoas com deficiência intelectual e idosos na Kibô-no-iê é dar a elas a oportunidade de se desenvolverem e realizarem sonhos em um ambiente que realmente acredita na sua capacidade e individualidade com a dedicação e profissionalismo da equipe multidisciplinar”, explica Dirce.
Ela destaca ainda que a inserção no mercado de trabalho é um dos passos mais importantes nessa trajetória de autonomia: “Hoje, temos quatro pessoas que passaram pela nossa residência assistida e hoje estão trabalhando com carteira assinada na Kibô-no-iê. Para nós, são conquistas muito importantes, porque mostram o quanto é possível avançar quando existem oportunidades e o apoio necessário”. Ela salienta que embora a Lei de Cotas tenha ampliado a presença das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, ainda existem dificuldades para preencher determinadas vagas, muitas vezes relacionadas ao desconhecimento ou despreparo das empresas.
Para Shimomoto, ampliar essas oportunidades também significa enfrentar barreiras atitudinais, como o preconceito, que ainda fazem parte do cotidiano de muitas pessoas com deficiência intelectual e idosos. Segundo ela, a falta de informação, o sentimento de pena e os julgamentos equivocados ainda influenciam a forma como essas pessoas são vistas na sociedade e podem criar barreiras à convivência, ao desenvolvimento, à autonomia e à participação social.
Um espaço para desenvolver potencialidades

O trabalho da Kibô-no-iê envolve uma equipe multidisciplinar e diferentes atividades voltadas ao desenvolvimento e à qualidade de vida dos atendidos. Entre os acompanhamentos estão fisioterapia, psicologia e fonoaudiologia, além de oficinas terapêuticas, atividade física, musical e desenvolvimento profissional. Mais do que oferecer atividades, a proposta é estimular habilidades que possam ser levadas para a vida cotidiana.
Nesse processo, Dirce explica que a família também tem papel fundamental. Quando os estímulos realizados na instituição encontram continuidade no ambiente familiar, os resultados podem ser potencializados: “Uma atividade, definida junto com as famílias no Projeto Terapêutico Singular (PTS) de cada atendido que inicialmente representa um grande desafio pode, com o tempo, tornar-se mais simples e natural. É justamente nessa evolução cotidiana que a instituição encontra parte do sentido de seu trabalho”, ressalta a presidente da instituição.
O processo de acolhimento da Kibô-no-iê
Para ingressar na Kibô-no-iê, a pessoa com deficiência intelectual e/ou idoso passa por um processo de avaliação dividido em três etapas:
1. Apresentação e entendimento da demanda – consiste na apresentação do trabalho da Kibô-no-iê em uma conversa com a família para compreender sua demanda e conhecer melhor a situação do candidato(a). Nesse momento, a equipe também avalia se os serviços oferecidos pela instituição estão de acordo com as necessidades apresentadas.
2. Triagem social – caso haja elegibilidade, o processo segue para uma triagem social realizada com a família, o(a) candidato(a) à vaga e uma equipe de profissionais da instituição. São levantadas informações sobre histórico de saúde, hábitos, rotina e necessidades individuais.
3. Avaliação da equipe – na terceira etapa, é realizada uma avaliação interna pela equipe da Kibô-no-iê, que envolve profissionais da assistência social, psicologia, medicina, enfermagem e fonoaudiologia.
A avaliação da equipe técnica é um equilíbrio delicado entre as características da pessoa e as capacidades da Kibô-no-iê, levando em conta três critérios: Funcionalidade e Autonomia (capacidade física): avalia-se o quanto a pessoa consegue realizar atividades da vida diária (comer, banhar-se, vestir-se, ir ao banheiro). Saúde Física e Mental: o nível de comprometimento intelectual, a presença de doenças crônicas, as medicações em uso e seu comportamento (agressividade, fuga, estabilidade emocional). E, por fim, Adaptação Social: capacidade de convivência com outros atendidos e com a equipe.
Caso a pessoa não atenda aos critérios de elegibilidade, a instituição procura indicar outros caminhos e serviços que possam atender às suas necessidades, como CRAS, CREAS, Secretaria de Saúde e Judiciário, entre outros.
Após a aprovação, há um período de adaptação de três meses na instituição. “O atendimento oferecido pela Kibô é gratuito, entretanto, considerando o alto custo dos cuidados de saúde e atividades terapêuticas, contamos com a colaboração dos familiares e de uma legião de voluntários em diversas frentes de arrecadação de recurso como eventos, bazares, o programa Nota Fiscal Paulista, dentre outras”, destaca Dirce.
A importância da Festa do Verde: encontro, celebração e solidariedade
Para contribuir com a manutenção e a sustentabilidade da instituição, a Kibô-no-iê promove, ao longo do ano, diferentes eventos e ações de arrecadação. Entre eles, está a Festa do Verde, principal evento beneficente da instituição, que chega à sua 46ª edição em 2026, nos dias 26 e 27 de setembro.

Realizada sempre no final de setembro, a festa também carrega um significado que vai além da arrecadação. De acordo com Shimomoto, a escolha do período está relacionada à chegada da primavera e à ideia de renovação que inspirou o próprio nome do evento: “A Festa do Verde acontece sempre no final de setembro, porque é quando a primavera chega, trazendo o desabrochar das flores e o começo de um novo ciclo. É uma época em que a natureza ganha novas cores, a vida se renova e tudo parece florescer novamente. E foi justamente essa ideia de renovação, de vida e de esperança que inspirou o nome da festa”.

Dirce conta ainda que a Festa do Verde nasceu como um bazar beneficente e, com o passar das décadas, cresceu com o apoio de parceiros e a participação de pessoas que ajudaram a construir sua trajetória. “Após tantas edições da Festa do Verde, o que fica para a história da entidade é, sobretudo, a demonstração de solidariedade de voluntários, artistas, empresas e de todos que ajudam a tornar o evento possível. E, principalmente, dos nossos atendidos, que são a razão de ser dessa mobilização e inspiram tantas pessoas a se unirem à prática do bem. É isso que ajuda a explicar por que a festa se tornou muito maior do que um evento de arrecadação. Ao longo de 46 edições, ela passou a fazer parte da memória de milhares de pessoas e, principalmente, dos assistidos”.
Voluntários: uma história construída por muitas mãos
Na edição de 2025, mais de 2 mil voluntários se mobilizaram para fazer a Festa do Verde acontecer. Mas, essa rede de solidariedade vai muito além dos dois dias de evento: durante todo o ano, grupos e pessoas contribuem de diferentes maneiras com a Kibô-no-iê, seja arrecadando itens para os bazares permanentes da instituição, na sede em Itaquaquecetuba e na Vila Mariana (SP), seja na coleta e separação de cupons da Nota Fiscal Paulista, depositados pelos consumidores nas urnas da Kibô-no-iê espalhadas por diferentes estabelecimentos comerciais da cidade de São Paulo.
“Tudo começou com uma rede próxima de amigos da fundadora, Koko Ichikawa, junto à comunidade japonesa no Brasil e seus descendentes. Com o passar dos anos, novos grupos de amigos e pessoas interessadas em fazer trabalho voluntário foram se juntando a essa rede. Hoje, temos famílias que passam de geração em geração no voluntariado, assim como pessoas que chegam sozinhas, dispostas a conhecer a instituição, contribuir e viver essa experiência. É muito bonito ver como esse movimento continua se fortalecendo e reunindo, a cada edição, novas pessoas que encontram na Kibô-no-iê uma oportunidade de praticar o amor fraterno e a solidariedade e fazer a diferença”, emociona-se Dirce.
Essa rede de solidariedade, construída e fortalecida a cada edição, também se revela na trajetória de quem permanece conectado à Festa do Verde ao longo dos anos. É o caso de Gisele Yochitake, voluntária desde 2002: “Quando conheci a instituição e entendi o enorme desafio de cuidar de pessoas com deficiência intelectual e, em alguns casos, também física, em meio a recursos limitados, percebi que era uma causa que nem sempre recebia a mesma atenção ou mobilizava tantos voluntários quanto outras frentes sociais. Isso me tocou e, com o tempo, aquele primeiro desejo de contribuir se transformou em um vínculo que já dura 24 anos. Hoje, é emocionante ver que os filhos de muitos voluntários também se juntaram a nós e passaram a fazer parte dessa história. No fim, o que mantém tantas pessoas unidas é uma razão maior: contribuir para que os residentes da Kibô-no-iê tenham uma vida com dignidade, respeito e cuidado. É isso que faz tantos de nós chegarmos para ajudar um dia e permanecermos aqui tantos anos depois”, salienta.
A história de Pedro Canova traduz, na prática, esse legado que passa de uma geração para outra. Ele conheceu a Kibô-no-iê em 2004 e, desde então, atua como voluntário nos caixas da Festa do Verde. Hoje, além de manter seu próprio vínculo com a instituição, vê o filho seguir o mesmo caminho: “Já são pelo menos 22 anos como voluntário nos caixas da instituição. O que me motivou a contribuir é a vontade de me dedicar a uma causa tão séria e nobre, que leva esperança às pessoas com deficiência intelectual e suas famílias. E essa relação com a Kibô-no-iê também passou a fazer parte da minha família: meu filho é voluntário desde os 13 anos e hoje, aos 21, não vê a hora de participar novamente a cada ano. Para quem ainda não conhece a instituição e a Festa do Verde, o que tenho a dizer é: venham vivenciar de perto. O evento é muito importante para ajudar na manutenção da Kibô-no-iê ao longo do ano, mas é também um momento muito especial para todos que fazem parte dela: visitantes, voluntários e, principalmente, os residentes, que ficam ansiosos esperando pela chegada da festa. Eu só tenho a agradecer por poder fazer parte desse legado. Muito obrigado, Kibô-no-iê!”
Além das ações e eventos de arrecadação, a Kibô-no-iê conta com o apoio de pessoas físicas, por meio de doações recorrentes e da participação em eventos solidários; e jurídicas, que contribuem por meio do programa Nota Fiscal Paulista, de patrocínios e de outras iniciativas. A instituição também recebe recursos de fundos e organizações destinados a investimentos em renovação tecnológica, adequações físicas e capacitação das equipes em diferentes setores. Entre os apoiadores estão a Fundação Kunito Miyasaka, a Fundação Salvador Arena, Elijass Gliksmanis, o governo japonês, por meio da JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão), o Nippon Country Club, a AFLORD (Associação dos Floricultores da Região da Via Dutra), o Arujá Golfe Clube, entre outros.
“Para manter este trabalho com qualidade, temos muitos custos, principalmente com a folha de pagamento que representa aproximadamente 54% da despesa anual. Em 2025, a despesa anual total (assistencial, administrativo e estrutura dos eventos) foi de mais de R$8 milhões e a arrecadação da Festa do Verde, ajudou a custear as despesas da Kibô-no-iê por mais de um mês”, explica a presidente.
Sonho da Kibô-no-iê: o quitute que virou tradição
E se existe um símbolo gastronômico da Festa do Verde, ele tem nome, sabor e uma história que atravessa décadas: o famoso Sonho da Kibô-no-iê. A receita foi criada por Julia Mitake, voluntária que, durante a segunda edição do evento, em 1980, a doou à fundadora Koko Ichikawa. O que começou de forma simples, com uma receita oferecida para ajudar na arrecadação de recursos, ao longo dos anos, transformou-se em uma das tradições mais saborosas da Festa do Verde.

“Na Festa do Verde do ano passado foram vendidas em torno de 7.500 unidades do delicioso sonho. Além disso, ele também é comercializado em festividades como o Festival do Japão, Okinawa Festival, Expo AFLORD, Nippon Fest onde somadas as vendas são quase 30 mil sonhos!”, conta a presidente.
Além do quitute, a instituição também comercializa peças artesanais produzidas pelos próprios assistidos em terapias, como bloquinhos de anotação, panos de prato e peças de cerâmica e itens de papel reciclável.
O futuro da Kibô-no-iê
E mesmo enquanto projeta novos caminhos para o futuro, a Kibô-no-Iê mantém vivos os valores de trabalho com amor que acompanham sua história desde o início. A instituição planeja ampliar sua atuação com a criação de um centro de convivência: “Queremos chegar a uma estrutura capaz de atender cerca de 500 pessoas com deficiência intelectual e idosos, reunindo diferentes serviços e espaços, como atividade musical, equoterapia, hidroterapia, centro de reabilitação, oficinas terapêuticas, centro poliesportivo e praça de alimentação”, explica.

A presidente destaca ainda que a “Kibô do futuro” aponta para novas possibilidades, com o objetivo de garantir os direitos humanos dos atendidos e ampliar as oportunidades para que possam romper com paradigmas que ainda os associam à incapacidade. A proposta é criar caminhos para que realizem seus sonhos, conquistem autonomia e tenham suas escolhas respeitadas – condições essenciais para que possam escrever a própria história e florescer à sua maneira. “O limite não é a deficiência intelectual, é a falta de oportunidade”, finaliza Dirce Akemi Shimomoto.
Mais informações:
Saiba mais: https://www.kibonoie.org.br/
Instagram: https://www.instagram.com/kibonoie/
46ª Festa do Verde – Kibô-no-Iê
26 de setembro de 2026 (sábado) – Das 10h às 18h
27 de setembro de 2026 (domingo) – Das 9h às 17h
Local: Sede da Kibô-no-Iê (Endereço: Travessa Hideharu Yamazaki, s/nº – Veraneio Maracanã – Itaquaquecetuba/SP)
Entrada: R$5 por pessoa. Gratuito para crianças de até 8 anos e pessoas com 60 anos ou mais.
Estacionamento: gratuito no local.


