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Comunicação Aumentativa e Alternativa: como a CAA ampliou as possibilidades de expressão de uma criança em quatro meses

Adelina, criança autista que utiliza recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa como este tablet de CAA

Antes de conseguir expressar o que queria, Adelina, de 5 anos, vivenciava situações de frustração que muitas vezes se manifestavam por meio do choro e de comportamentos de esquiva. Autista e com necessidades complexas de comunicação no início do processo, ela encontrava dificuldades para se fazer entender durante as atividades terapêuticas e no cotidiano.

“O processo de intervenção com a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) começou por volta dos dois anos de idade. Na época, Adelina respondia muito bem ao mouse ocular. No entanto, devido à intensa excitação motora, ao hiperfoco em espelhos e canetas e à dificuldade de permanecer em sala de aula, ela passou um período sem frequentar o CAEE (Centro de Atendimento de Educação Especializada Allan Moreira do Rosário) da prefeitura de Estiva/MG. O serviço atende crianças das escolas municipais e oferece suporte por meio da sala de recursos e de uma equipe composta por psicopedagogas, psicóloga e neuropsicopedagoga. Ao retornar às intervenções neste ano, Adelina apresentava dificuldade para permanecer na sala de atendimento, chorava constantemente e precisava da presença da mãe ou de outro familiar no ambiente para se acalmar. Também demonstrava dificuldade para realizar as atividades propostas, recorrendo frequentemente a comportamentos de esquiva e fuga. Diante desse cenário, conversei com os pais e propus a utilização da CAA. Com o apoio integral da família, iniciei o trabalho com o flip book, um material de baixa tecnologia que reúne símbolos e pictogramas para apoiar a comunicação. Os materiais foram desenvolvidos com recursos do Boardmaker 7, software que permite criar pranchas, atividades e outros materiais de comunicação acessíveis”, relata Jamila Iara, neuropsicopedagoga clínica, especialista em autismo, inclusão e Comunicação Aumentativa e Alternativa, palestrante e escritora.

Em quatro meses de utilização da CAA, Adelina passou a fazer escolhas, solicitar o que desejava, expressar sentimentos e comentar situações por meio dos símbolos. Nesse período, também começou a repetir palavras e demonstrou avanços no reconhecimento de letras e no interesse pela escrita.

A experiência evidencia a importância de oferecer possibilidades alternativas de se comunicar a pessoas com necessidades complexas de comunicação. Em outubro, mês dedicado à conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa, a história de Adelina convida famílias, educadores e profissionais da saúde a conhecerem recursos que podem ampliar a participação e a autonomia de pessoas com deficiência na fala.

O início de uma nova forma de se comunicar

A mãe de Adelina, Beatriz Moura Bueno, acolheu a proposta, mesmo sem conhecer a CAA, e participou do processo desde o início: “A Jamila nos apresentou a Comunicação Aumentativa e Alternativa durante as sessões de terapia da Adelina. No começo, ficamos com medo de não dar certo, mas logo vimos a diferença. Foi muito emocionante vê-la conseguir pedir algo por meio da CAA, mesmo que fosse algo simples. Foi mágico! Quando percebemos os resultados com os recursos de baixa tecnologia, ficamos tão animados que decidimos investir também na alta tecnologia com um tablet”, conta.

Beatriz salienta ainda os comportamentos desafiadores também tiveram melhoras com a CAA: “A Adelina ficava muito desregulada e frustrada por não conseguir se expressar. Em casa, era um verdadeiro jogo de adivinhação. Hoje, o ambiente é mais tranquilo e ela consegue expressar suas necessidades pelo tablet, que se tornou seu melhor amigo.  A CAA significa não só uma esperança, mas também a certeza de que eu posso ouvir o que minha pequena tem a dizer, entender, acolher, ajudar e auxiliar. A CAA foi uma transformação em nossas vidas”, afirma.

Por isso, a mãe de Adelina deixa uma mensagem às famílias: “Primeiramente, deem uma chance à Comunicação Aumentativa e Alternativa – ela realmente funciona! Dediquem-se juntos com a criança e com a equipe – vale cada segundo e vocês verão que o resultado é real!”.

Quando comunicar também significa participar

Um dos episódios que marcaram Jamila em seus atendimentos à pequena aconteceu durante a preparação de Adelina para cortar o cabelo. A criança havia cortado a franja e precisava ajustar o corte. A partir dessa necessidade, a profissional criou um material com pictogramas para antecipar e organizar a experiência.

No dia seguinte, durante o atendimento no salão, a cabeleireira se esqueceu de colocar a capa de proteção. Adelina conseguiu solicitá-la utilizando a CAA. O episódio demonstrou como o recurso poderia ser incorporado a situações cotidianas, permitindo que a criança expressasse uma necessidade sem depender exclusivamente da interpretação das pessoas ao seu redor.

Outro momento especial ocorreu durante a Feira Literária do CAEE: Jamila escreveu um livro com as crianças, com o tema “Que cor tem o amor?”, e utilizou o tablet para construir a participação de Adelina na atividade. Em uma das perguntas, a criança foi convidada a dizer onde o amor morava. “Por meio dos pictogramas, ela disse que o amor morava no CAEE”, emociona-se Jamila, ao lembrar o tamanho do significado dessa resposta, não apenas à pequena, mas principalmente à profissional, sendo um dos momentos mais marcantes de sua trajetória.

De acordo com a especialista, a experiência reforça que a comunicação não se limita a pedir objetos ou responder a perguntas. Ela também permite compartilhar preferências, expressar sentimentos, participar de atividades coletivas e revelar interesses.

A CAA e o desenvolvimento da fala e da escrita

De acordo com Jamila, ao longo desses meses utilizando a CAA, Adelina passou também a utilizar o sistema em diferentes funções comunicativas. Além de fazer solicitações, começou a comentar situações e a demonstrar o que sentia. Segundo a especialista, os episódios de comportamentos que dificultavam sua participação também se tornaram menos frequentes.

Além disso, ela passou a repetir palavras que encontrava no tablet, como “Super Mario”, “Adelina”, “mamãe” e “linda”. Também demonstrou maior reconhecimento de letras e números e sinais de que está começando a desenvolver habilidades relacionadas à leitura e à escrita.

Foto de Adelina usando seu tablet de CAA junto com construções de letras.

“Esse processo vem ocorrendo paralelamente ao uso da CAA e ao trabalho de outros profissionais, incluindo a fonoaudióloga, que também desenvolve atividades com o alfabeto. É importante compreender que a CAA não precisa ser interrompida quando a fala oral começa a aparecer, pelo contrário: os recursos continuam oferecendo possibilidades para que a pessoa se comunique, mesmo quando não consegue expressar tudo o que pensa ou sente por meio da fala”, enfatiza Jamila.

Para ela, o desenvolvimento da comunicação precisa considerar as características individuais de cada criança. “Adelina aprende CAA sendo respeitada com seus desafios de excitação motora, como a dificuldade em permanecer sentada por muito tempo, mas isso não foi e não é um empecilho para que ela consiga se comunicar”, explica.

A profissional salienta que a experiência reforça a importância de adaptar as estratégias às necessidades de cada pessoa, em vez de condicionar a aprendizagem a um comportamento específico.

CAA não é apenas para quem não fala

Uma das ideias que Jamila procura desconstruir é a de que a Comunicação Aumentativa e Alternativa serve somente para pessoas que não utilizam a fala. “A CAA é indicada para pessoas com necessidades complexas de comunicação e pode ser utilizada por quem não fala, por quem apresenta fala limitada ou por quem fala algumas palavras, mas encontra dificuldades para manter diálogos, expressar sentimentos, fazer escolhas ou comunicar necessidades de maneira compreensível em diferentes contextos. Por isso, os recursos não devem ser utilizados apenas para testar se a pessoa reconhece os símbolos ou para ensinar a pedir objetos. Seu potencial está em oferecer meios para que ela expresse suas próprias mensagens, compartilhe interesses, recuse situações e participe das interações. Afinal, comunicação não é só a fala oral, as pessoas se comunicam de formas diferentes, o que chamamos de comunicação multimodal”, explica.

Essa perspectiva também envolve reconhecer formas de expressão que já estão presentes, como o olhar, os gestos, as expressões faciais, o apontar e a atenção compartilhada. “A CAA pode ampliar essas possibilidades e oferecer outros caminhos para tornar as mensagens compreensíveis”, complementa a especialista.

Por isso, Jamila salienta ser fundamental que famílias e profissionais estejam dispostos a escutar essas mensagens, sem presumir que a ausência da fala significa ausência de compreensão, sentimentos ou ideias.

Outubro: um convite para conhecer a Comunicação Aumentativa e Alternativa

Celebrado em outubro, o mês da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) chama a atenção para a importância de ampliar o acesso a esses recursos e incentivar seu uso em diferentes contextos, como clínicas, escolas e residências. Além de favorecer a comunicação, a CAA possibilita que pessoas com necessidades complexas de comunicação expressem desejos, compartilhem ideias e façam escolhas.

Jamila conhece essa transformação de perto, tanto pelo trabalho com a CAA quanto pela experiência como mãe de Matheus, de 13 anos, autista com nível 3 de suporte e não oral. “Ele também começou a usar a CAA com pictogramas e, hoje, escreve, faz pesquisas e consegue se fazer entender pela escrita e pelo Google. Já pensa em empreender e está cheio de ideias: quer vender sorvete, pesquisou máquinas para assar frango, fazer crepes e coxinhas. Tudo isso para juntar os R$ 400 mil de que precisa para realizar um dos seus sonhos: comprar uma carreta do Fofão!”, conta Jamila, divertindo-se com os planos do filho: “Ou seja, Matheus não fala, mas compreende e se comunica”.

Por isso, neste mês de conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa, a mensagem de Jamila é um convite para que famílias e profissionais conheçam esses recursos e reconheçam as potencialidades de cada pessoa. “Estudem, aprendam sobre CAA, porque toda voz importa e não existe idade ou pré-requisito para iniciar. E, principalmente, devemos presumir competência: toda pessoa é capaz de aprender, ainda que suas dificuldades sejam extensas”, reforça.

Mais do que oferecer recursos para a comunicação, a CAA abre caminhos para que cada pessoa expresse seus desejos, compartilhe ideias, faça escolhas e participe ativamente da própria vida. Afinal, como a especialista ressalta, comunicar-se vai muito além da fala.

Confira também a matéria que fizemos com Jamila Iara, na qual ela compartilha sua trajetória e sua luta por uma educação mais inclusiva:
Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva: conheça a história de Jamila Iara

Saiba mais:

https://www.instagram.com/jamilaiaraoficial