
Logo na entrada do consultório, os pacientes são recebidos por uma sequência de pictogramas e vocalizadores que tornam o ambiente mais acessível e acolhedor para pessoas com necessidades complexas de comunicação. Neste período de Copa do Mundo, esses recursos ganharam um toque ainda mais especial: uma prancha de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) temática e um vocalizador que, ao ser acionado, reproduz um animado “Brasillll!”, acompanhado dos sons característicos que embalam as torcidas nos estádios e nas transmissões dos jogos.
A iniciativa mostra como a Acessibilidade Comunicacional também pode conectar as pessoas aos acontecimentos culturais e sociais que mobilizam o país. “Na sala da tia Myrian, a torcida pelo Brasil já começou! É a Acessibilidade Comunicacional garantindo a participação de todos. Vai, Brasil!”, compartilhou em suas redes sociais a fonoaudióloga Myrian Botelho*, especialista, consultora e docente em Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), Conceito Neuroevolutivo Bobath e Gestão de Recursos e Serviços em Tecnologia Assistiva.
Ao entrar na sala, uma mensagem dá o tom de tudo o que acontece naquele espaço: “Aqui, toda modalidade de comunicação é bem-vinda” – a frase não é apenas um slogan, ela se materializa em cada canto do ambiente criado pela especialista. Há vocalizadores para cumprimentar quem chega, sequências visuais que orientam a retirar os sapatos para entrar no ambiente; recursos para solicitar uma ida ao banheiro, pranchas de comunicação com diversos temas (como emoções, dores), previsibilidade de rotina, entre muitos outros; livros adaptados, pictogramas e materiais personalizados com fotos das crianças em atendimento e de seus familiares, além de uma infinidade de recursos lúdicos, como a bonequinha Jujú, uma menina com necessidades complexas de comunicação, que faz uso da CAA.

Mais do que um consultório, o espaço é uma demonstração prática do que é a Acessibilidade Comunicacional – “um tema ainda pouco divulgado no Brasil e que faz toda a diferença na vida de pessoas com necessidades complexas de comunicação”, destaca a fonoaudióloga. Entende-se por Acessibilidade Comunicacional: “é, portanto, oferecer recursos, atividades e bens culturais que promovam independência e autonomia aos indivíduos que necessitam de serviços específicos para acessar o conteúdo proposto. Audiodescrição, legendas, janela de Libras, impressões em braille e dublagem são alguns dos exemplos existentes.” (Fonte: Universidade Federal do Ceará – Secretaria de Acessibilidade).
Comunicação é muito mais do que fala
Ao longo de sua trajetória profissional, Myrian percebeu que um dos maiores desafios enfrentados por pessoas com necessidades complexas de comunicação não é a ausência da fala em si, mas a falta de oportunidades reais para se expressarem — e é justamente nesse ponto que a Acessibilidade Comunicacional se torna fundamental.
Para garantir que cada paciente tenha acesso à comunicação de forma significativa, a especialista mantém em seu espaço uma ampla variedade de recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), contemplando diferentes perfis e necessidades. Entre eles estão pranchas de comunicação de baixa tecnologia, livros adaptados, recursos de média tecnologia, como vocalizadores e acionadores, e soluções de alta tecnologia, como mouse de cabeça, o mouse ocular PCEye, o sistema de comunicação TD Snap e o software Boardmaker 7, utilizado na criação de materiais personalizados.
“Uma das coisas que mais me preocupa é quando as pessoas valorizam mais o recurso do que a necessidade do usuário. Não existe uma receita pronta, nem uma prancha de CAA que sirva para todo mundo. Existe uma pessoa única, com características, habilidades e necessidades específicas, além de formas próprias de se comunicar. Por isso, um dos grandes desafios da implementação da CAA é compreender profundamente quem é esse usuário para, então, desenvolver recursos realmente funcionais para ele”, explica.
Segundo Myrian, outro equívoco bastante comum ocorre quando famílias ou profissionais associam a eficácia da comunicação exclusivamente aos recursos de alta tecnologia. “Muitas vezes os pais chegam querendo adquirir um equipamento sofisticado, mas a criança se comunica melhor utilizando recursos de baixa tecnologia. A alta tecnologia é maravilhosa e pode transformar vidas, mas não deve ser vista como a única solução. O mais importante é oferecer diferentes possibilidades e permitir que o próprio usuário participe dessa escolha”, destaca.
Para a especialista, a verdadeira Acessibilidade Comunicacional acontece quando os recursos são selecionados a partir das necessidades da pessoa e não o contrário. Afinal, mais importante do que a tecnologia utilizada é garantir que cada indivíduo tenha meios efetivos de compreender, se expressar, fazer escolhas e participar ativamente dos diferentes contextos da sua vida.

Por isso, antes de definir qualquer recurso de CAA, Myrian realiza uma avaliação fonoaudiológica minuciosa que envolve as habilidades de linguagem do usuário, seu processamento visual, o contexto familiar, o ambiente escolar e todos os parceiros de comunicação que fazem parte de sua rotina. Para ela, a comunicação não acontece de forma isolada e precisa estar presente em todos os espaços de convivência da pessoa.
“A comunicação permeia todos os ambientes da vida. Não adianta um recurso funcionar apenas dentro da terapia. Ele precisa fazer sentido e ser utilizado em casa, na escola, nos momentos de lazer, nos passeios e em todas as situações do dia a dia. Quando família, escola e profissionais caminham juntos, a comunicação deixa de ser uma habilidade trabalhada apenas no consultório e passa a se tornar uma ferramenta real de participação, autonomia e inclusão”, enfatiza.
Por isso, a fonoaudióloga ressalta que um dos grandes desafios para uma implementação eficaz da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é a necessidade de um raciocínio clínico mais aprofundado por parte dos profissionais. Segundo ela, não basta conhecer os recursos disponíveis: é fundamental compreender as necessidades individuais de cada usuário, realizar avaliações criteriosas e dominar a aplicação prática da CAA nos diferentes contextos de vida da pessoa. “Muitas vezes, o que falta é justamente esse olhar clínico. Não basta ter acesso aos recursos ou conhecer as ferramentas. É preciso entender quem é aquele usuário, como ele processa as informações, quais são suas habilidades, suas dificuldades e quais estratégias realmente farão sentido para ele. Além disso, é importante que o profissional tenha à disposição uma variedade de recursos para oferecer diferentes possibilidades de comunicação e permitir que a pessoa encontre aquilo que melhor atende às suas necessidades”.
Myrian cita o caso de uma criança que chegou ao consultório com a queixa da família de que não apresentava avanços significativos no desenvolvimento da comunicação. Durante a avaliação, ela percebeu que o menino havia desenvolvido um padrão de respostas condicionado ao “sim” e ao “não”, que nem sempre refletia aquilo que realmente queria expressar. Na anamnese, descobriu que ele era apaixonado por figurinhas. A partir desse interesse genuíno, decidiu construir oportunidades de comunicação mais significativas. “Comprei várias figurinhas e ele ficou extremamente animado. Então, resolvi trabalhar a partir daquilo que ele realmente queria comunicar”, conta. Em determinado momento da atividade, a fonoaudióloga sugeriu encerrar a brincadeira: “Agora eu vou guardar tudo, certo? Vamos fazer outra coisa?”. Quase chorando, o menino respondeu “sim”. No entanto, seu comportamento demonstrava exatamente o contrário.
“Percebi que aquela resposta não representava sua verdadeira intenção. Então modelei para ele uma nova possibilidade de comunicação: ‘Eu quero continuar fazendo isso’. Quando apresentei essa frase, ele imediatamente se identificou, se animou e começou a utilizá-la”, relembra. A partir dessa descoberta, foi possível construir um sistema de comunicação mais alinhado às necessidades reais do usuário. “Optei por desenvolver um sistema comunicacional voltado às necessidades específicas daquele menino, que apresentava uma demanda maior relacionada às habilidades sociais e à comunicação funcional. E, a partir daí, ele deslanchou!”, comemora a especialista. Para Myrian, o caso exemplifica a importância de olhar para além dos protocolos e compreender o que cada pessoa realmente deseja comunicar. “Quando partimos dos interesses, das motivações e das necessidades reais do usuário, a comunicação ganha propósito. E é nesse momento que ela começa a acontecer de forma significativa”.
Boardmaker: personalização e infinitas possibilidades
Entre as ferramentas que fazem parte da rotina da fonoaudióloga Myrian Botelho está o Boardmaker 7 (BM7), software que ela utiliza há cerca de cinco anos para desenvolver materiais personalizados de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). A plataforma reúne mais de 80 mil símbolos PCS (Picture Communication Symbols®), disponíveis em dezenas de idiomas, além de centenas de modelos editáveis e imprimíveis que facilitam a criação de recursos adaptados para diferentes perfis de usuários.
Segundo a especialista, o Boardmaker ampliou significativamente as possibilidades de construção de materiais individualizados e de rápida implementação. “O Boardmaker 7 oferece uma infinidade de possibilidades para a criação de recursos de CAA. Além da excelente qualidade visual, ele permite personalização de tamanhos, formatos, contrastes e organização dos símbolos, além de disponibilizar uma enorme biblioteca de materiais prontos. Isso facilita a elaboração de recursos realmente adaptados às necessidades de cada usuário, de forma prática e eficiente”, salienta.
Com o software, Myrian desenvolve desde recursos simples até sistemas completos de apoio à comunicação. Entre os materiais produzidos estão sequências visuais para atividades do cotidiano, livros adaptados, jogos educativos, recursos para leitura compartilhada, pranchas temáticas de CAA, organizadores visuais de rotina, materiais curriculares adaptados e recursos voltados à alimentação, lazer e interação social.

A personalização é uma das características que ela considera mais importantes no processo. “Eu personalizo os materiais com fotos, nomes, interesses e preferências da própria criança. Quando ela se reconhece no recurso — ao ver sua foto, sua família, seus brinquedos e temas de interesse representados ali — a comunicação ganha significado e se torna muito mais funcional”.
Para garantir que cada usuário tenha acesso às formas de comunicação que melhor atendem às suas necessidades, a especialista combina diferentes tecnologias em sua prática clínica. “No meu consultório convivem lado a lado sistemas digitais, vocalizadores, flip books, livros adaptados, cartões de comunicação e diversos recursos impressos. O importante é que a pessoa tenha possibilidades de escolha e acesso à comunicação em qualquer contexto”.
Vocalizadores: quando um botão pode mudar uma vida
Entre os recursos mais utilizados por Myrian estão os vocalizadores, dispositivos simples, mas extremamente poderosos para o desenvolvimento da comunicação. Com apenas um toque, a pessoa pode expressar mensagens importantes como: “quero beber água”, “quero ir ao banheiro”, “está muito barulhento” ou “preciso de ajuda”.
Os vocalizadores também são incorporados às brincadeiras, rotinas e atividades do dia a dia, ajudando a construir a compreensão de que cada símbolo ou mensagem possui uma função comunicativa real.
E foi justamente um vocalizador que protagonizou uma das histórias mais marcantes da trajetória da especialista: “Recebi um menino de oito anos que já havia passado por diversas intervenções, sem avanços significativos na comunicação. Ele nunca tinha conseguido pedir para ir ao banheiro e ainda fazia suas necessidades na roupa”.
Durante a primeira sessão, Myrian apresentou os vocalizadores e suas funções. Em determinado momento, o menino apertou o botão que dizia: “quero ir ao banheiro”. A mãe acreditou que ele tivesse pressionado o botão ao acaso, já que havia ido ao banheiro antes de sair de casa. Mas a fonoaudióloga validou imediatamente aquela tentativa de comunicação: “Expliquei que, se ele havia apertado o botão, precisávamos mostrar que aquela mensagem tinha uma função. Era importante que ele entendesse que os vocalizadores serviam para comunicar desejos e necessidades reais”.
O menino foi levado ao banheiro e, para surpresa da mãe e emoção da terapeuta, utilizou o vaso sanitário pela primeira vez. “A partir daquele dia, a mãe passou a utilizar o vocalizador também em casa e ele começou a solicitar quando queria ir ao banheiro. Pode parecer algo simples para quem vê de fora, mas aquilo mudou completamente a vida daquela criança e de sua família”, relembra emocionada.
Acessibilidade Comunicacional é responsabilidade de todos
Além da atuação clínica, Myrian dedica-se à formação de profissionais, familiares e equipes escolares em todo o Brasil e é membro do Grupo de Trabalho em “Acessibilidade Comunicacional” do Comitê de CAA da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia – SBFa.
Para ela, um dos maiores desafios ainda é fazer com que a Comunicação Aumentativa e Alternativa deixe de ser vista como uma ferramenta restrita ao consultório. “Escuto com frequência: ‘Não tenho tempo para usar os recursos de CAA’. Mas, se você está se comunicando com a criança, então o recurso já deveria fazer parte daquela interação. A comunicação acontece o tempo todo”, destaca a fonoaudióloga.
Ela também ressalta a importância da parceria entre família, escola e profissionais. “Os ambientes precisam conversar entre si. Quando terapeutas, professores e familiares trabalham juntos, a comunicação deixa de ser apenas uma meta terapêutica e passa a fazer parte da vida da pessoa”, reforça.
O verdadeiro objetivo: autonomia
Ao refletir sobre a importância da CAA, Myrian faz um convite às famílias que ainda têm receio de iniciar esse processo. “Muitos pais dizem que entendem tudo o que o filho quer comunicar. Mas e quando eles não estiverem por perto?”, questiona.
Para ela, o objetivo da Comunicação Aumentativa e Alternativa vai muito além de facilitar a interação com quem já conhece a criança. Trata-se de promover autonomia, independência, participação social e qualidade de vida em todos os contextos da vida. “Toda pessoa tem o direito de expressar opiniões, fazer escolhas, dizer o que sente, do que gosta e do que não gosta. A comunicação é um direito humano fundamental, e as ferramentas de CAA existem justamente para tornar esse direito acessível a todos”, ressalta a especialista.
Não tenha medo de pedir ajuda
Ao final, a especialista compartilha uma mensagem que nasce da própria experiência com a tecnologia assistiva: “Não tenham medo de errar nem de pedir ajuda. Eu me lembro perfeitamente do primeiro dia em que comecei a explorar o TD Snap. Tirei um dia inteiro para aprender a usar o sistema e, no final, sentei e chorei porque achei que nunca conseguiria dominá-lo”, relembra, entre risos, com a leveza e a determinação que marcam sua trajetória profissional.
Ela conta que recorreu inúmeras vezes ao suporte da Civiam para aprender a utilizar recursos como o TD Snap, o Boardmaker e os vocalizadores. “Quantas vezes eles me explicavam e eu ainda não tinha entendido nada? Muitas. Mas eles continuavam me ajudando, faziam acessos remotos, enviavam vídeos explicativos e até vieram presencialmente me orientar. Hoje, utilizo todos esses recursos com muita naturalidade”.
Para Myrian, essa vivência guarda uma lição importante para famílias e parceiros de comunicação: “No começo tudo parece difícil, até impossível. Mas, quando existe o desejo genuíno de se comunicar e de ajudar alguém a se comunicar, o caminho vai sendo construído aos poucos. Os pais também precisam se permitir errar, corrigir e recomeçar”.
Segundo ela, esse processo ensina à própria criança que a comunicação é uma construção compartilhada. “Em algum momento ela também vai apertar um botão sem querer, selecionar uma palavra diferente da que pretendia ou encontrar dificuldades pelo caminho. E tudo bem. O mais importante é que ela saiba que não está sozinha e que, junto com sua família e seus parceiros de comunicação, encontrará formas de fazer acontecer o seu comunicar”.

Saiba mais:
https://www.instagram.com/myrianbotelhofono/
Atendimentos: (12) 99633-1333
*Myrian Christina Neves Botelho de Andrade é fonoaudióloga, especialista no Conceito Neuroevolutivo Bobath e em Gestão de Recursos e Serviços de Tecnologia Assistiva (TA), com ênfase em Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Integra o Comitê de CAA e o Grupo de Trabalho de Acessibilidade Comunicacional da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, além de ser membro da ISAAC Brasil. Também atua como docente em cursos de especialização em CAA e de aprimoramento em Síndrome de Down na Alcance Meeting, onde ministra aulas e oficinas. Realiza consultorias em Comunicação Aumentativa e Alternativa para escolas, famílias e profissionais da educação em todo o país, além de promover formações online e presenciais voltadas à acessibilidade comunicacional, inclusão e participação social para profissionais (fonoaudiólogos, terapeutas e Atendentes Terapêuticos).


