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Brincar não termina com o fim das férias: por que a infância precisa de tempo para brincar o ano inteiro

Foto de Dafne brincando com uma criança com um patinete em uma sala cheia de brinquedos

Quando as férias escolares chegam ao fim, a rotina das crianças muda rapidamente. Horários, tarefas, atividades extracurriculares e compromissos voltam a ocupar boa parte do dia. Em meio a essa correria, uma pergunta merece atenção: será que o brincar também entra na agenda?

Para Dafne Herrero*, fisioterapeuta pediátrica, consultora do Brincar pela IPA-Brasil, pós-doutora, doutora e mestre em Ciências da Saúde pela USP, e à frente do Instituto Kaimbe, a resposta deveria ser um sonoro “sim”. Segundo ela, brincar não deve ser um prêmio reservado às férias, mas trata-se de uma necessidade permanente da infância. “O brincar é o tempo que a gente “contabiliza” na infância e não pode ser restrito apenas às férias. O relógio da infância é contado por tempo de brincar… quanto tempo os pequenos estão contando no relógio do desenvolvimento pelo brincar?”.

O interesse da especialista pelo universo infantil começou ainda na adolescência, quando, aos 12 anos, começou a trabalhar como auxiliar de sala em uma escola e ficou encantada pela forma como as crianças enfrentavam e resolviam desafios com naturalidade, como dividir um lanche, lidar com mudanças de casa ou o falecimento de um familiar, entre outros. Assim, no último ano do Ensino Médio, estava em dúvida entre a Fisioterapia e a Pedagogia. Ao visitar uma faculdade, entrou em um ambulatório de Fisioterapia e a primeira percepção chamou sua atenção: havia muitas crianças, mas nenhuma brincadeira. “Quando perguntei onde elas brincavam, a resposta que tive foi que ali não era lugar de brincar. E de repente, me vi num salão enorme pensando que precisava levar brincadeira para crianças e profissionais daquele lugar“, lembra. 

Assim, desenvolveu uma trajetória acadêmica inteiramente dedicada ao estudo do desenvolvimento infantil. Formou-se em Fisioterapia, especializou-se em Pediatria e seguiu com pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado sobre os movimentos dos bebês, aprofundando a compreensão sobre a origem do movimento humano e sua relação com a interação, o desenvolvimento e o brincar: “Desde os primeiros meses a brincadeira já se coloca nos movimentos dos bebês, que seguem na infância como uma potente ferramenta de mover e SER o movimento”

Foto de Dafne brincando com uma bebê bem novinha e várias mulheres estão olhando para aprender

Dafne também é conhecida como Dra. Brincadeira (@doutorabrincadeira), nome que nasceu logo após a defesa de sua tese de Doutorado. Segundo ela, a ideia surgiu do desejo de tornar o conhecimento científico mais próximo das famílias. “Eu tinha muito receio de que todo esse conhecimento não fosse acessível. Foi então que uma prima sugeriu criar a Dra. Brincadeira para unir ciência e diversão de forma integral e acessível. Eu amei a ideia de imediato. A Dra. Brincadeira representa minha forma responsável de promover o brincar, proteger a infância e mostrar que a ciência também pode ser leve, divertida e acolhedora”. 

O brincar é a linguagem da infância

Dafne destaca que as crianças ‘brincam a vida’ 24 horas por dia: “O brincar é a forma como a criança vive, se expressa e compreende o mundo, sendo, assim, sua principal linguagem. Por isso, sempre que os adultos quiserem se conectar verdadeiramente com elas e serem ouvidos, precisam interagir de maneira brincante”. 

Ela explica ainda que o brincar é liderado pela criança e quando o adulto conduz toda a atividade, deixa de ser brincadeira e passa a ser uma atividade dirigida. “Isso não significa que atividades orientadas não tenham valor, mas elas não substituem o brincar espontâneo, onde a criança cria regras, negocia, experimenta e conduz a experiência. E esse protagonismo dos pequenos durante o brincar é que faz diferença na neuroplasticidade, na diversidade de oportunidades e na replicação nos ambientes sociais. O brincar que a gente inicia em atendimento, a criança pode levar pra casa, pra escola… pra vida! Ou seja, o que promovemos fora do ambiente terapêutico é o impacto do brincar. Por isso, quando a rotina é composta apenas por atividades dirigidas e a brincadeira deixa de fazer parte da rotina da criança, ela perde oportunidades importantes de exercer autonomia, uma vez que ela passa a entender que não tem livre escolha e que a única opção é seguir ordens”, destaca.

E quando o assunto são crianças com deficiência, o brincar ganha um significado ainda maior, pois, como diz a especialista:  “O brincar nos faz iguais. É durante a brincadeira que todas as crianças podem participar, interagir e construir relações de pertencimento. Brincar junto é poder existir junto”, salienta. Dafne destaca ainda que essa convivência fortalece vínculos, promove inclusão e amplia as oportunidades de participação social.

Foto de Dafne segurando um garotinho junto com um bambolê

A fisioteapeuta enfatiza também que para crianças com necessidades complexas de comunicação que utilizam Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), o brincar representa um espaço privilegiado para exercer autonomia e protagonismo: “A criança escolhe a brincadeira, interage com os colegas e passa a existir a partir de uma situação que ela mesma está conduzindo por conseguir se comunicar. E mais do que estimular a linguagem, o brincar fortalece a participação social e o sentimento de pertencimento”.

Brincar também ajuda na volta às aulas

O retorno às aulas costuma trazer ansiedade para muitas crianças. Segundo Dafne, nesse contexto, as brincadeiras funcionam como uma ferramenta importante de regulação emocional: “No brincar existem inúmeras possibilidades de experimentar desafios, assumir pequenos riscos e imaginar diferentes finais para uma mesma situação. Isso fortalece a resiliência e amplia o repertório emocional da criança. Ao brincar, ela aprende a lidar com frustrações, expectativas, medos e conquistas de forma natural”.

A especialista ressalta ainda que diversas pesquisas mostram que o brincar livre estimula também diversas outras as áreas do desenvolvimento infantil, como: habilidades motoras; desenvolvimento sensorial; linguagem e comunicação; cognição; criatividade; interação social; resolução de problemas; e autonomia. Ela enfatiza: “Todos esses são pilares fundamentais para um desenvolvimento pleno”. 

Mas, como conciliar a rotina de escola, tarefas e atividades extras sem abrir mão do brincar na volta aos estudos? A fisioterapeuta sugere oportunizar os momentos e exemplifica: “Ter uma atitude brincante entre as atividades, como por exemplo: vamos brincar de elefantinho colorido no ônibus até chegar no futebol? Alguma brincadeira de foguete, contando os andares no elevador… imaginando o que as pessoas estão pensando ou indo passear… criar tempo de brincar, é criar narrativa na interação. Ou até mesmo fazer uma pergunta inusitada a respeito de uma atividade que foi dirigida, por exemplo: alguém foi de tênis vermelho igual o Marshall do patrulha canina?”.

Ela salienta ainda: “Não é preciso separar horas do dia. Basta transformar momentos comuns em experiências compartilhadas”.

A Dra. Brincadeira também chama a atenção para um erro bastante comum entre os adultos: acreditar que é possível acelerar ou encurtar os processos de aprendizagem durante as brincadeiras. Segundo ela, respeitar o tempo da criança é essencial para um desenvolvimento saudável. “O brincar é o tempo necessário para a compreensão. Não precisamos de atalhos. Precisamos de tempo junto, de tempo só, de tempo para viver e compreender o contexto e os processos”

Para quem acredita ser difícil competir com celulares e tablets, a especialista propõe uma mudança de perspectiva: “Trazer o brincar para a rotina, por exemplo: arrumar a cama enquanto tocamos uma música. Deixar bolinhas de sabão para usar no banho. Deixar umas almofadas no caminho para pular “pedras” na floresta. Colocar plaquinhas com símbolos pela casa para poder validar os combinados de brincar a cada momento do dia”.

Foto de Dafne brincando com uma criança que olha interessada

Ao longo da carreira, a especialista coleciona histórias que traduzem o poder transformador do brincar. Para ela, cada pequena conquista alcançada no consultório representa um passo gigantesco no desenvolvimento infantil e, muitas vezes, na esperança das famílias. “Agradeço todos os dias por ter o privilégio de fazer do brincar a minha missão e de testemunhar o quanto ele pode transformar vidas. Frases que escuto com frequência nos atendimentos e aquecem o meu coração, como: ‘nunca vi meu filho assim tão persistente para encaixar o brinquedo’, ‘nunca o vi nessa postura e com esse sorriso’, ‘eu que escolhi a brincadeira na escola hoje’, ‘meu filho existe agora na brincadeira’ e ‘obrigada por deixar essa trajetória mais leve e brincante!’  reforçam que brincar vai muito além da diversão: é uma forma de descobrir potencialidades, fortalecer vínculos e abrir caminhos reais para o desenvolvimento”, emociona-se. 

Para as famílias, Dafne Herrero deixa a seguinte mensagem: “Divirtam-se. São esses momentos que ficarão na memória dos seus filhos e darão início às grandes jornadas da vida deles. Que sejamos brincantes para sermos juntos e fortes!”.

A especialista atende famílias em seu consultório, em São Paulo, localizado na Avenida do Café, 130, conjunto 81. Ela também atua como docente na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde compartilha a mesma filosofia que norteia seu trabalho clínico: aprender e desenvolver também pode ser leve, acolhedor e divertido. Na última semana, esse compromisso com o brincar foi reconhecido de forma especial: Dafne foi a professora homenageada da 21ª turma do Curso de Especialização em Intervenção em Neuropediatria do Núcleo de Estudos em Neuropediatria e Motricidade (NENEM/UFSCar). Fiel à sua essência, celebrou este momento vestindo uma fantasia de unicórnio, transformando a homenagem em uma demonstração prática de que o brincar não é apenas uma ferramenta terapêutica, mas uma forma de acolher, ensinar e criar conexões. Um gesto que emocionou os alunos e simbolizou a marca que deixa em sua trajetória: a de mostrar que a ciência e a ludicidade podem caminhar juntas na promoção do desenvolvimento infantil.

Foto de Dafne vestindo uma fantasia de unicornio na UFSCar

* Dafne Herrero é Pós Doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Saúde Pública da USP pelo Departamento de Saúde Materno Infantil, Doutora e Mestre pela mesma Universidade, Diretora e Consultora do Brincar pela International Play Association – Brasil (IPA – Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e a Cultura). À frente do Instituto Kaimbe, ela tem Especialização em Pediatria, Extensão pelo Método Neuroevolutivo Bobath, Kinesiotaping, TheraTogs, Práticas de Inclusão, Brincar e a temporalidade do bebê e da criança pequena, Escalas de Avaliação e Follow-up (General Movements, Alberta Infant Motor Scale, Test of Infant Motor Performance, Pediatric Evaluation of Disability Inventory, Bayley Scales of Infant and Toddler Development, Ages Stages). Tem ampla experiência na área de Fisioterapia com ênfase em Fisioterapia Neonatal e Pediátrica, Brincar, Desenvolvimento Infantil, Tecnologia Assistiva e Inclusão Escolar.