Pesquisar

Enxergando Além do Olhar: associação amplia inclusão com alfabetização em Braille

Mulher utiliza materiais táteis coloridos para atividades de alfabetização em Braille e estimulação sensorial, promovendo a aprendizagem e a autonomia de pessoas com deficiência visual.

Depois de sete anos dedicados à inclusão e à autonomia de pessoas com deficiência visual, o projeto Enxergando o Futuro inicia uma nova etapa de sua história. A iniciativa passa a se chamar Associação Enxergando Além do Olhar e amplia sua estrutura, com matriz em São Paulo e filial em Duartina (SP), cidade onde o projeto nasceu.

À frente dessa trajetória está Daniela Reis Frontera, farmacêutica de formação, empresária e fundadora da iniciativa, que dedica sua atuação à inclusão social e à acessibilidade. “Estamos muito felizes com essa nova fase. São sete anos de projeto e agora a formalização da associação é uma oportunidade para ampliar o alcance das ações desenvolvidas ao longo dos anos pelo projeto Enxergando o Futuro. Com CNPJ e uma estrutura institucional própria, pretendemos fortalecer parcerias, alcançar novos públicos e ampliar o acesso à alfabetização em Braille e à tecnologia assistiva”, destaca Daniela.

Segundo ela, a formalização também traz novas responsabilidades, além de mais credibilidade para a instituição. O objetivo, porém, permanece o mesmo: ensinar, promover autonomia e transformar vidas por meio da alfabetização em Braille online.

“Nós somos especializados no ensino do Braille e a nossa metodologia de alfabetização é única. Além disso, oferecemos, via WhatsApp, orientação em tecnologia assistiva para o aluno conseguir tirar uma foto sozinho, fazer vídeo, entrar no Google Meet, no Zoom e ter autonomia no celular e no computador usando NVDA, TalkBack ou VoiceOver”, explica a fundadora.

A mudança representa mais do que uma alteração de nome. Para Daniela, a constituição da associação cria condições para que a iniciativa cresça de maneira mais estruturada. Entre os próximos passos está a migração para uma plataforma online mais robusta e profissional, que permita ampliar o número de alunos e aperfeiçoar a metodologia de ensino do Braille a distância. A ferramenta ainda passa por ajustes, incluindo recursos como avaliações, pontuação e outros mecanismos de acompanhamento da aprendizagem.

A proposta também é ampliar o público atendido. Além de pessoas com deficiência visual, a associação pretende capacitar professores, pedagogos e outros profissionais da educação, diante da carência de profissionais preparados para ensinar Braille no país. “Por isso, venham aprender com a gente”, convida Daniela.

Expansão da Associação Enxergando Além do Olhar

A nova configuração da instituição prevê a matriz em São Paulo e uma filial em Duartina (SP), preservando a ligação com a cidade onde o projeto teve início. A escolha da capital paulista está relacionada ao número de oportunidades, convites e contatos institucionais que a iniciativa já vinha recebendo.

Daniela cita reuniões e aproximações com órgãos ligados à área da deficiência, incluindo a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

A expectativa é que a presença na capital facilite a criação de projetos-piloto, novas parcerias e, futuramente, até a implantação de uma sede própria.

“Por enquanto, teremos apenas um escritório, mas temos a ideia de implantar em nossa associação mais recursos, como a tecnologia assistiva, orientação de esportes com acessibilidade, atendimentos com psicólogos. Enfim, tem vários pilares que, quem sabe um dia, a gente consiga acrescentar em nossa associação”, afirma.

Alfabetização em Braille e autonomia para pessoas cegas

Atualmente, a instituição oferece alfabetização online para pessoas com deficiência visual por meio de uma plataforma virtual. Segundo a fundadora, desde o início do projeto, mais de 400 pessoas já passaram pela iniciativa, e aproximadamente 300 concluíram a alfabetização em Braille.

Para Daniela, aprender o sistema de leitura e escrita representa muito mais do que adquirir uma nova habilidade. É uma porta para a autonomia.

“É a pessoa poder assinar o nome, poder ter autonomia para ler um livro em Braille, rotular as coisas, ativar a cognição”, explica.

A metodologia também busca mostrar aos alunos que a deficiência visual não representa o fim de seus projetos pessoais e profissionais. A adaptação e o acesso aos recursos adequados podem abrir novos caminhos para a educação, a qualificação e o mercado de trabalho.

“A gente mostra à pessoa com deficiência visual que esse é apenas um recomeço, que tudo é uma questão de adaptação e que os sonhos continuam possíveis, inclusive o de se tornar um profissional. Eu sempre busco mostrar aos meus alunos, com o meu exemplo de vida, que eles podem se formar, ter uma profissão e ter sucesso no mercado de trabalho”, ressalta a fundadora.

Em setembro de 2026, Daniela foi homenageada na 12ª edição do Prêmio MCEYS Qualidade Brasil, reconhecimento relacionado à sua atuação em defesa da inclusão e da acessibilidade. A edição deste ano teve como tema “Inteligência Artificial e o Futuro Humano no Social” e reuniu reflexões sobre o papel da inovação e das novas tecnologias na construção de uma sociedade mais inclusiva e acessível.

Para Daniela, a homenagem representa o reconhecimento de um trabalho construído na prática. “Para mim, é um reconhecimento, uma confirmação da credibilidade do nosso projeto. É resultado de um trabalho que mostra que estamos no caminho certo da educação inclusiva”, afirma.

Os desafios do acesso à alfabetização em Braille no Brasil

Apesar dos avanços na legislação e dos discursos sobre inclusão, Daniela aponta um problema que considera básico: o acesso à alfabetização em Braille ainda é limitado.

Na avaliação dela, faltam profissionais capacitados, materiais acessíveis e estrutura adequada nas escolas. A disponibilidade de livros didáticos em Braille é um dos principais exemplos dessa dificuldade.

“Os nossos alunos têm dificuldade de acesso à alfabetização em Braille. São poucas as instituições e escolas que oferecem professores capacitados e material em Braille”, afirma.

Para ela, garantir que crianças cegas tenham acesso aos mesmos conteúdos educacionais passa necessariamente pela oferta de materiais acessíveis e pela formação dos profissionais responsáveis pela alfabetização.

“Meu sonho é que não cresça nenhuma criança analfabeta em Braille e eu quero colaborar para isso”, resume.

Daniela defende que o compromisso com a acessibilidade precisa ultrapassar campanhas e discursos institucionais e chegar à prática. Escolas, empresas, instituições e poder público podem contribuir cobrando a oferta de recursos básicos de acessibilidade e apoiando iniciativas que trabalham diretamente com a formação.

A fundadora também busca parceiros que possam contribuir para levar a metodologia da associação a um número maior de cidades.

“A gente precisa de ajuda e de parcerias para poder levar nossa plataforma para todos os municípios do país”, afirma.

O convite é direcionado especialmente a empresas e instituições interessadas em investir em inclusão e educação. A proposta é estabelecer parcerias que permitam ampliar o acesso à plataforma e, consequentemente, à alfabetização em Braille.

Uma rede nacional para ampliar o ensino de Braille

O nome da nova associação traduz também um sonho maior de sua fundadora: fazer com que o acesso ao Braille seja uma realidade em todo o território nacional. Daniela defende ainda que o sistema tenha reconhecimento e presença social comparáveis à importância atribuída à Língua Brasileira de Sinais (Libras).

“Eu tenho o sonho de criar uma rede nacional de capacitação. A proposta é que, sempre que uma pessoa cega precisar de alfabetização em qualquer escola de um município brasileiro, o poder público possa acionar a nossa plataforma e contar com profissionais capacitados para oferecer o atendimento necessário”, afirma.

Para transformar esse projeto em realidade, ela destaca a importância de construir parcerias com empresas, instituições e governos municipais, estaduais e federal. A proposta é ampliar a rede de profissionais preparados para garantir o acesso à alfabetização em Braille e, consequentemente, à educação e à autonomia.

“Vamos lutar para realizar esse sonho de transformar cada vez mais vidas em todo o país para que a alfabetização aconteça de forma efetiva. Afinal, ela é a base da educação e representa tudo para nós, pessoas cegas”, conclui Daniela.

Rifa solidária celebra sete anos e ajuda a ampliar a inclusão
Em comemoração aos sete anos de trajetória do projeto Enxergando o Futuro, que agora passa a atuar como Associação Enxergando Além do Olhar, a instituição lançou uma rifa solidária para arrecadar recursos e dar continuidade ao trabalho de alfabetização em Braille em todo o país.
O prêmio da campanha é um iPhone 15, com sorteio previsto para 21 de novembro de 2026.
Para participar, acesse: https://alemdoolhar.org.br/raffles/1