
O rock também é lugar de pertencimento. Para quem vive a cultura underground, um show não é apenas um momento de entretenimento: é encontro, identidade, expressão e construção de comunidade. Mas, para muitas pessoas com deficiência, chegar a esse espaço e vivenciar plenamente a experiência ainda envolve uma série de obstáculos.
É justamente essa realidade que o ABC Pró HC, festival de rock independente dedicado à cena underground, vem se propondo a transformar. Eleito em 2008 o melhor festival de música independente do Brasil pelo Prêmio Dynamite de Música Independente, celebra 22 anos de fundação no dia 22 de agosto, na Arena Galeria, na cobertura da Galeria do Rock, em São Paulo. Nesta edição, a acessibilidade ganha protagonismo — não apenas como uma questão de estrutura, mas como um princípio que atravessa a própria concepção do festival.

A proposta é ampliar o acesso, romper barreiras e reafirmar que pessoas com deficiência também têm o direito de ocupar, vivenciar e construir a cena do rock. Mais do que adaptar espaços, a iniciativa busca promover uma mudança de perspectiva: fazer da inclusão parte da cultura do festival e fortalecer a ideia de que o rock, em toda a sua diversidade, deve ser um espaço de pertencimento para todos.
A trajetória é contada por Fabiana Couto, produtora cultural e responsável pela organização do ABC Pró HC, e por Luciano de Almeida, conhecido como Luck Rock, pessoa com paralisia cerebral, fã de rock e frequentador do festival desde 2007. Para os dois, a construção de uma cena mais inclusiva passa por uma mudança fundamental: deixar de enxergar a pessoa com deficiência apenas como alguém que precisa de adaptações, mas reconhecê-la como parte ativa da cultura.
Uma cultura de acolhimento
Segundo Fabiana, o olhar para a inclusão começou a ganhar força nos primeiros anos do ABC Pró HC, especialmente quando o festival passou a se aproximar mais do movimento emo, uma vertente do hardcore que, em sua visão, carrega uma filosofia de acolhimento e aceitação de todos.
A percepção sobre acessibilidade arquitetônica, porém, surgiu de maneira mais concreta conforme os eventos cresceram. Em uma das primeiras edições realizadas no Espaço Lux, em 2004, a necessidade de instalar grades de proteção em frente ao palco acabou criando também uma oportunidade de reservar um espaço para cadeirantes, idosos e crianças.
“Um episódio, entretanto, despertou essa percepção em mim de uma maneira ainda mais profunda, como se tivesse acendido uma luz e mudado para sempre a forma como eu enxergava a acessibilidade nos eventos. Durante um show do New Found Glory, na 12ª edição do festival, Luck estava em uma área próxima ao palco quando integrantes da banda pediram que ele fosse levantado e direcionado ao palco para participar do show. Ver aquele momento, a emoção e a alegria estampadas no rosto dele, percebendo que ele estava ali, no meio daquela experiência que tanto amava, foi algo que me tocou profundamente. Naquele instante, entendi que não bastava permitir que uma pessoa com deficiência entrasse em um evento. Era preciso criar condições para que ela pudesse estar, participar, ser vista e viver aquela experiência por inteiro. Foi um marco para mim e deixou ainda mais evidente o quanto promover eventos culturais verdadeiramente acessíveis era urgente”, conta Fabiana.
Para Luck, aquele momento permanece entre as lembranças mais marcantes de sua trajetória como fã de rock. “É como se o rock e a inclusão, duas partes muito fortes da minha vida se encontrassem naquele mesmo palco”, resume.
Muito além de uma rampa
Quando se fala em acessibilidade em eventos, é comum que a primeira imagem seja a de uma rampa. Mas, para Luck, essa é apenas uma pequena parte de uma questão muito mais ampla: “Escadas, banheiros inadequados, circulação limitada, transporte, áreas reservadas com pouca visibilidade do palco e equipes despreparadas podem transformar uma noite que deveria ser dedicada à música em uma sucessão de obstáculos”, destaca.
No caso dele, a comunicação é outro aspecto fundamental. Luciano não se comunica oralmente e utiliza formas alternativas de comunicação. Por isso, não basta que o espaço seja fisicamente acessível: a equipe também precisa saber como interagir diretamente com ele. “Acessibilidade não é ‘coloquei uma rampa, missão cumprida’. Ou seja, não é simplesmente permitir que uma pessoa entre no local. É garantir que ela consiga vivenciar o evento inteiro. Afinal, entrar é acesso. Participar de verdade é inclusão”, define o jovem.
Acessibilidade começa antes do show
Para Fabiana, um evento acessível precisa ser planejado desde o momento em que começa a ser concebido. Isso inclui a escolha do espaço, a comunicação com o público, a capacitação da equipe e a identificação das necessidades de diferentes pessoas.
No caso da festa de 22 anos, a organização realizou previamente uma vistoria técnica para verificar o trajeto do entorno até o local, o acesso por elevador e as condições do espaço. O evento contará com banheiro acessível e equipe capacitada para atendimento relacionado à acessibilidade comunicacional. Também haverá um espaço mais reservado para pessoas autistas, pensado como uma espécie de refúgio do barulho, além de espaço kids.
“A audiodescrição, no entanto, não pôde ser incluída nesta edição por questões financeiras. A própria experiência evidencia um dos grandes desafios enfrentados por produtores independentes: transformar a acessibilidade em prioridade diante de orçamentos limitados. Por isso, cada avanço em relação à inclusão nos eventos culturais – ainda que tímidos diante das necessidades das pessoas com deficiência – é uma conquista que devemos comemorar”, ressalta Fabiana, que defende uma mudança em toda a cadeia cultural. Para ela, a acessibilidade e a inclusão começam com a divulgação do evento, continuam no deslocamento da pessoa com deficiência até o local, na chegada, no atendimento e na experiência dentro do espaço.
Quando a pessoa com deficiência deixa de ser apenas público
Para Luciano, um dos aspectos mais importantes dessa discussão é justamente o protagonismo. Ele lembra que, durante muito tempo, pessoas com deficiência foram apresentadas principalmente como indivíduos que precisam de ajuda, cuidado ou proteção. Para ele, essa visão reduz a pessoa à deficiência e ignora todas as outras dimensões de sua vida.
“Sou fã de rock, trabalho com marketing, crio conteúdo, participo de eventos e desenvolvo meus próprios projetos, como a criação de HQs com a ajuda da IA. A deficiência faz parte de minha trajetória, mas não define a minha identidade. Por isso, saliento que não quero ser convidado só para falar sobre deficiência. É poder falar de música, trabalho, cultura, vida… e de deficiência também, quando fizer sentido”, afirma.
Essa presença também produz representatividade. “Quando uma pessoa com deficiência vê outra ocupando um palco, trabalhando em um evento, produzindo conteúdo ou simplesmente curtindo um show, ela pode enxergar novas possibilidades para a própria vida. Quando um de nós entra, pode ajudar a deixar a porta um pouco mais aberta para quem vem depois”, diz Luck.
Uma cena que precisa aprender a ouvir
Apesar dos avanços, os entrevistados reconhecem que ainda há um longo caminho a percorrer para que a inclusão e a acessibilidade estejam presentes em eventos. Luck avalia que os produtores culturais estão mais atentos à acessibilidade, mas ainda existe uma tendência de concentrar esforços apenas em questões físicas. A preparação das equipes e a compreensão das diferentes necessidades das pessoas com deficiência ainda precisam avançar.
Para ele, não é necessário que um produtor tenha todas as respostas. O mais importante é estar disposto a ouvir, aprender e planejar. Fabiana compartilha dessa visão. Para ela, a experiência prática é fundamental para identificar barreiras que muitas vezes não são percebidas por quem não vivencia a deficiência. Segundo a produtora cultural, a trajetória também foi impulsionada por políticas públicas de incentivo à cultura: ela cita a Lei Paulo Gustavo como um momento importante para que o festival pudesse desenvolver sua primeira ação remunerada envolvendo Luck: “A experiência possibilitou que ele tivesse, pela primeira vez na vida, um trabalho remunerado relacionado à própria participação cultural”, salienta.
Segundo ela, uma das propostas para os próximos anos é ampliar a participação de pessoas com deficiência também na própria produção dos eventos. “Porque é só assim, na prática, que a gente aprende”, afirma Fabiana.
A experiência que pode inspirar outros eventos
A transformação promovida pelo ABC Pró HC não se limita à própria festa. Fabiana acredita que experiências concretas podem estimular outros produtores e espaços culturais a reverem suas práticas.
A organização já começa a receber convites para levar vivências e ações sobre acessibilidade para centros culturais e outros espaços. A intenção é mostrar que a inclusão é possível e precisa urgente sair do papel. “Não adianta ficar só na teoria”, destaca Fabiana. Para ela, a própria experiência do festival pode abrir caminhos para outras iniciativas e linguagens culturais.
Para Luck, a construção de uma cena inclusiva não depende apenas de produtores e casas de shows, mas grande parte da atitude do público em respeitar espaços reservados, não bloquear passagens, utilizar corretamente banheiros acessíveis e, principalmente, perguntar antes de oferecer ajuda são atitudes simples que podem fazer diferença. Ele chama atenção para um comportamento bastante comum: pessoas que, com a intenção de ajudar, empurram ou movimentam sua cadeira sem perguntar. “Ajuda boa é a que respeita a autonomia. A inclusão, portanto, também acontece nas relações humanas”, ressalta.
Para Fabiana, o papel de um festival independente vai muito além da programação musical. Ao longo de duas décadas, o ABC Pró HC se tornou também um espaço de formação e conscientização – ela acredita que festivais independentes têm liberdade para questionar padrões, apresentar novos talentos e estimular comportamentos diferentes daqueles impostos por uma sociedade que ainda reproduz preconceitos.
No ano passado, o ABC Pró HC foi reconhecido como coletivo cultural e certificado pelo Ministério da Cultura como ponto de cultura, com a missão de salvaguardar a memória do rock brasileiro, além de formar público, manter viva a cultura do rock, envolvendo grafite, skate, tatuagem e piercings – todas consideradas manifestações da cultura urbana.
Um caminho sem volta
Fabiana define a ampliação das ações de acessibilidade como um “caminho sem volta”. A intenção é alcançar mais pessoas com deficiência, divulgar os eventos em espaços onde esse público está e ampliar gradualmente as iniciativas.
O sonho, segundo ela, é que um dia seja possível realizar uma edição do ABC Pró HC voltada integralmente às pessoas com deficiência, contemplando diferentes necessidades e ampliando também a contratação de profissionais com deficiência.
Para Luck, a mudança passa por uma pergunta simples que todo produtor deveria fazer antes de organizar um evento: uma pessoa com deficiência conseguirá realmente viver aquele show ou apenas conseguirá entrar? Segundo ele, a resposta revela a diferença entre acessibilidade e inclusão.
A presença de Luck na Galeria do Rock carrega um simbolismo especial. Frequentador do local há mais de 15 anos, ele não estará ali apenas como convidado para falar sobre deficiência, mas como alguém que também faz parte daquela cultura e vivencia o rock em sua essência.
Na celebração dos 22 anos do festival, Luck terá um espaço para expor HQs autorais de sua marca @luckrockmarca – por meio dos quadrinhos, ele encontrou uma forma lúdica, direta e sem filtros de abordar temas como capacitismo, acessibilidade, inclusão, comunicação, autonomia e as situações que fazem parte da vida de uma pessoa com deficiência no cotidiano.“Sem romantizar e sem papo bonito só para inglês ver”, destaca o jovem, que complementa: “Pessoa com deficiência não precisa estar restrita a eventos temáticos ou espaços considerados ‘adaptados’. Pode gostar de rock, acompanhar bandas, frequentar bares, trabalhar, produzir cultura, encontrar amigos, consumir e simplesmente aproveitar uma noite de música. Esse espaço também é nosso”.
É essa mensagem que o ABC Pró HC leva para seus 22 anos: uma cena cultural verdadeiramente inclusiva não é aquela que apenas abre suas portas para pessoas com deficiência, mas aquela que reconhece que elas sempre tiveram o direito de estar ali.
E, para os próximos anos, Fabiana faz um chamado à própria cena do rock: “Precisamos nos unir mais e deixar de lado a segregação. O rock é uma filosofia de vida, uma forma de expressão, questionamento e transformação, capaz de impactar vidas e contribuir para a formação de uma sociedade mais consciente. A cultura vai muito além da música e o rock também faz parte da nossa identidade. Precisamos reconhecer sua força, valorizar toda a cadeia da economia criativa que movimenta e lutar pelo seu reconhecimento como cultura urbana brasileira. E, acima de tudo, ampliar o acolhimento, o protagonismo feminino e a acessibilidade. Existe uma riqueza enorme dentro do rock nacional, e precisamos usar a liberdade que ele nos proporciona para dar as mãos e impactar cada vez mais vidas”, defende a produtora cultural.
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