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“Somos pessoas e temos voz”: como o livro Autistando ajuda a ampliar a compreensão sobre o autismo

Foto de Carol sorrindo dentro de casa usando um abafador de ruídos

No Dia Mundial do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, ganha ainda mais relevância a valorização das vozes autistas e das narrativas construídas por quem vivencia o autismo diariamente. É justamente essa a proposta de Autistando, livro escrito por Carol Souza, 33 anos, autista nível 2 de suporte e TDAH, que reúne reflexões, experiências e aprendizados compartilhados ao longo dos anos com mais de 120 mil seguidores em seu Instagram https://www.instagram.com/carolsouza_autistando/.

Mais do que uma obra autobiográfica, o livro nasceu da necessidade de comunicação e da busca por compreensão. “Tenho dificuldade em me expressar de forma oral. Então escrevia na minha página pessoal do Facebook para que minha família e meus amigos me entendessem. Com o tempo, os textos foram chegando a mais pessoas e resolvi criar a página. A partir daí, os seguidores começaram a pedir para reunir os textos em um livro, e amigos também deram essa ideia – resultando na publicação da obra de mesmo nome da minha página nas redes sociais, Autistando”, explica a escritora.

Segundo ela, o processo de publicação levou vários anos até ser concluído e foi marcado por desafios que acabaram se transformando em importantes aprendizados. “Tive dificuldade em colocar minhas ideias em palavras. Aprendi muitas coisas ao longo desse caminho, desde me expressar melhor até compreender melhor as pessoas e lidar com críticas”, relata.

A trajetória do livro também exigiu persistência. Ao longo dos anos, o projeto passou pelas mãos de diferentes pessoas que chegaram a iniciá-lo, mas não conseguiram dar continuidade ao trabalho. A concretização da obra só aconteceu posteriormente: “Quem concluiu foi a Cami, através da editora Neurodiversidade”, conta Carol. Após um processo de construção e amadurecimento, Autistando foi finalmente lançado em abril de 2025. Na obra, Carol compartilha sua trajetória desde a infância até a vida adulta, abordando os desafios dessa jornada: “Viver o autismo de maior nível de suporte no interior do Brasil, sem recursos financeiros e sem acesso à inclusão escolar e a um acompanhamento terapêutico adequado e suficiente, é a realidade da maioria das famílias de autistas brasileiros”, afirma.

Assim, ao transformar suas vivências em narrativa, Carol não apenas conta sua própria história, mas também dá visibilidade às experiências de inúmeras famílias que enfrentam desafios semelhantes em diferentes regiões do país. Essa representatividade, segundo ela, contribui diretamente para que famílias e sociedade compreendam melhor as necessidades, os desafios e as potencialidades das pessoas autistas.

Além disso, entre os mitos que Carol pretende desconstruir com Autistando, o principal é o julgamento de que “autista é completamente incapaz”. “Podemos ter muitas limitações e temos, mas não significa que somos totalmente incapazes. E não falo aqui de altas habilidades, superdotação, de autistas que têm habilidades geniais, mas das pequenas coisas que pra nós são grandes. Todos têm capacidades a serem desenvolvidas de acordo com suas realidades. Aprender a colocar comida no prato é uma, aprender a comer sozinho, a segurar a colher, colocar e tirar o casaco. Todas são capacidades grandes que podem ser treinadas. Nós temos gostos, temos vontades. Autistas não são como amebas, como bonecos, que você faz o que quiser com eles. Somos pessoas e cada uma delas tem capacidades a serem desenvolvidas”.

Entre os diversos retornos recebidos desde o lançamento, são as mensagens de mães que mais emocionam a autora: “Elas me escrevem agradecendo a ajuda recebida pela leitura do meu livro”.

Quanto ao significado do Dia Mundial do Orgulho Autista, Carol faz uma reflexão importante sobre o verdadeiro propósito da data: “Orgulho autista, para mim, não significa dizer que o autismo é bom ou que eu gosto de ser autista. Significa lembrar que, apesar de a sociedade muitas vezes nos dizer o contrário, nós temos o direito de existir, de viver com dignidade e de não sentir vergonha de quem somos”, afirma.

Às famílias e às pessoas autistas, a escritora deixa a seguinte mensagem: “Independente de como você, pai ou mãe se sente sobre o autismo, ensinem seus filhos que eles são maravilhosos sendo autistas. Eu sei, vocês podem até desejar que eles não fossem, mas eles são e serão pelo resto de suas vidas. Vocês podem detestar e odiar o autismo, e isso é compreensível, mas ódio ao autismo e ao que somos já recebemos de toda a sociedade a partir do momento em que colocamos os pés para fora de casa. Então, dentro de casa, não deixem transparecer o que vocês sentem sobre isso. Ensinem seus filhos a se orgulharem de quem são. E para os autistas, eu sei que é difícil sentir isso quando todo mundo diz o contrário, mas nós somos suficientes e merecemos coisas boas. Precisamos acreditar nisso também”. 

O livro Autistando está disponível em formato para Kindle e pode ser adquirido pelo link:

https://www.amazon.com.br/Autistando-Carol-Souza-ebook/dp/B0F3PHN2BM

Mais vozes no Dia do Orgulho Autista

Nesta data, a Civiam também publicou a reflexão de Fernando Murilo Bonato, jovem autista e estudante de Filosofia, sobre o significado do orgulho, das expectativas e da construção da própria identidade.

➡ Leia também: a reflexão de Fernando Murilo Bonato para o Dia do Orgulho Autista.