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Matheus Pinheiro transforma desafios em conquistas dentro e fora das quadras da bocha paralímpica

"Matheus Pinheiro em sua cadeira de rodas durante participação em programa esportivo da AACD. Ele está posicionado em frente a um painel temático de esportes, representando sua atuação como atleta da bocha paralímpica."

Aos 23 anos, Matheus Pinheiro, paratleta de bocha adaptada, constrói uma trajetória marcada pela superação, autonomia e representatividade. Sua história vai muito além do esporte: ele vem se destacando não apenas nas quadras, mas também na defesa da inclusão e do acesso à tecnologia assistiva. “Eu sou um adulto como qualquer outro, tenho opiniões, vontades e sonhos”, salienta. 

Ele é também palestrante motivacional, desenvolvedor de aplicativos e embaixador do Instituto Kaimbe, que se dedica ao cuidado, desenvolvimento e inclusão de bebês e crianças com deficiência, e suas famílias.

Da descoberta ao alto rendimento na bocha paralímpica

O primeiro contato de Matheus com a bocha adaptada aconteceu em junho de 2023, após indicação de sua terapeuta ocupacional para realizar uma avaliação na AACD. Na época, ele já havia concluído o ensino médio há dois anos e buscava novas possibilidades para ampliar sua independência: “Resolvi que o esporte poderia preencher o tempo que eu estava sem fazer nada”, relembra.

A adaptação foi rápida. Em 2024, Matheus passou pela classificação funcional da ANDE (Associação Nacional de Desportos para Deficientes), etapa obrigatória para participação em campeonatos oficiais. Classificado na categoria BC1 (destinada apenas para atletas com paralisia cerebral, que podem jogar com as mãos ou com os pés e podem ter um auxiliar para entregar a bola), ele compete utilizando o pé.

No mesmo ano, disputou o Campeonato Paulista da segunda divisão e conquistou o acesso imediato à elite estadual. A ascensão foi o momento em que percebeu que o esporte poderia se tornar parte definitiva da sua vida: “Foi no meu primeiro ano de competição. Subi para a primeira divisão e meu professor disse que agora eu teria que treinar mais. Foi aí que a ficha caiu e percebi que estava me tornando um atleta paralímpico”. Atualmente, Matheus treina duas vezes por semana, durante três horas, além de realizar treinos complementares em casa sempre que possível. Segundo ele, a dedicação e a disciplina se intensificaram desde que passou a competir em alto nível.

O paratleta destaca o impacto transformador que o esporte teve e tem em sua vida: “Na bocha eu me encontrei e fiz novos amigos com deficiências parecidas com a minha. Isso foi o mais importante para mim”. 

Campeonatos e metas para o futuro

Em pouco mais de dois anos no esporte, Matheus já soma participações em quatro Campeonatos Paulistas e dois Campeonatos Regionais. Entre as experiências mais marcantes, destaca justamente sua estreia em um regional: “Eu tinha 20 anos e fui para as oitavas de final contra um atleta que jogava bocha há 20 anos e consegui vencer!”, relembra.

No último sábado (24/5), ele participou de mais uma etapa do Campeonato Paulista da primeira divisão, realizada no SESI Suzano pela classe BC1. Apesar de não ter alcançado o desempenho esperado nesta temporada, Matheus segue focado nos próximos desafios: “Ganhei um jogo e perdi dois na fase de grupos, e apenas os dois primeiros avançavam para a próxima etapa. Mas, sigo focado para o próximo desafio, o Campeonato Regional Sudeste, em outubro, em São José dos Campos, onde vou lutar por uma vaga no Campeonato Brasileiro”, afirma determinado o paratleta.

O jovem destaca que a competição regional reúne alguns dos principais atletas da modalidade e exige alto nível técnico, já que apenas os três melhores colocados garantem classificação para o campeonato nacional.

Na visão do atleta, o esporte paralímpico ainda enfrenta barreiras importantes no Brasil: “A sociedade ainda é muito capacitista e faltam patrocínios e investimentos reais no esporte paralímpico. As pessoas precisam entender que nós somos atletas de alto nível”.

Inclusão, tecnologia e autonomia

"Matheus Pinheiro sentado em sua cadeira de rodas, utilizando um dispositivo de comunicação com controle ocular acoplado à frente. A foto foi registrada em um ambiente interno iluminado, destacando o uso da tecnologia assistiva para comunicação e autonomia."

Matheus conta que utiliza a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) desde a infância, quando se comunicava por meio de pranchas de símbolos feitas em papelão. Em 2020, deu um passo importante rumo à alta tecnologia ao passar a utilizar o controle ocular da Tobii Dynavox no notebook. “A adaptação exige bastante treino, mas hoje uso o TD Pilot e o controle ocular se tornou a minha voz oficial, garantindo autonomia no dia a dia. São ferramentas que me dão voz ativa e me permitem estudar, trabalhar e ser compreendido”, destaca. Para ele, a CAA vai muito além da comunicação: representa liberdade, independência e participação ativa na sociedade. 

A relação com a tecnologia também despertou em Matheus um novo propósito profissional: inspirado em suas próprias vivências e aprendendo programação de forma autodidata com o apoio da inteligência artificial, ele passou a desenvolver um aplicativo voltado à comunicação acessível. A proposta é criar uma ferramenta mais intuitiva e personalizada, capaz de ampliar a autonomia de pessoas com deficiência e facilitar a expressão de suas necessidades, pensamentos e emoções no dia a dia. 

“O aplicativo vai ter um teclado com símbolos e uma inteligência com memória para entender e prever o que o usuário quer falar, ajudando na comunicação de forma parecida com o que a IA faz comigo hoje”, explica o paratleta, que pretende lançar o aplicativo em breve.

Embaixador da inclusão

O convite para se tornar embaixador do Instituto Kaimbe surgiu após uma palestra ministrada para famílias atendidas pelo projeto. A indicação veio da fisioterapeuta Luciana, da clínica Espaço Sete, que apresentou Matheus à equipe do instituto.

“Como embaixador do Kaimbe, quero incentivar crianças, adolescentes e adultos com deficiência e mostrar que, mesmo com limitações, nós podemos realizar os nossos desejos e sonhos”, destaca, ao relembrar também os desafios enfrentados pela família em sua jornada escolar: “Eu estudei na escola para pessoas com deficiência na AACD quando criança. Depois fui para a escola regular, onde minha mãe precisou lutar muito na justiça pelos meus direitos e assim ter o apoio necessário nas escolas públicas municipais e estaduais”.

Fora das competições, Matheus leva uma vida ativa e cheia de interesses. “Eu sou fã de adrenalina e curto esportes radicais. Já pratiquei rapel, surf e skate adaptado, andei de jet ski e ainda quero saltar de paraquedas”, enfatiza.

"Matheus Pinheiro participa de uma atividade de surf adaptado no mar, acompanhado por instrutores. Ele aparece sorrindo e comemorando sobre uma prancha adaptada, demonstrando inclusão e participação em esportes radicais."

Como todo jovem de sua idade, ele também gosta de sair com amigos para barzinhos, viajar com a família, assistir séries de ação e ficção científica e ouvir música, especialmente pagode, sertanejo, funk e hip hop: “Inclusive, sou muito fã do Hungria Hip Hop, destaca.Ao olhar para sua trajetória, Matheus deixa uma mensagem direta para jovens com deficiência e para a sociedade: “Os desafios não definem quem a gente é — nós é que escolhemos como enfrentar cada um deles. Não deixem que os limites digam o que vocês podem ou não fazer. Com coragem e o apoio certo, vale muito a pena lutar pelos nossos sonhos e ir atrás do que a gente quer!”.