Dia Nacional da Alfabetização: a importância do acesso ao aprendizado à escrita e leitura por meio de recursos de tecnologia assistiva

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professora trabalhando a alfabetização dos alunos

Dia 14/11 é o Dia Nacional da Alfabetização, que tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância da implantação de melhores condições de ensino e aprendizagem no país.

“Ler e escrever é uma das capacidades mais importantes no mundo moderno. Em última análise, é a escrita que pode levar a pessoa à plena autonomia para se comunicar”, diz Renata Bonotto, linguista com mestrado em Linguística Aplicada e doutorado em Informática na Educação com ênfase em Comunicação Aumentativa e Alternativa.

De acordo com ela, “historicamente, o letramento para pessoas com necessidades complexas de comunicação está cercado de mitos, sendo os dois mais frequentes: a crença ultrapassada de que é necessário falar para poder se alfabetizar e a crença de que há habilidades e pré-requisitos para uma pessoa aprender a ler, escrever e se comunicar. Sabemos, porém, que pessoas que não usam a fala se alfabetizam, como, por exemplo, as pessoas surdas. A consciência fonológica, uma das áreas importantes no processo de aprender a ler e a escrever, pode se desenvolver mesmo na ausência da fala. Aparentes limitações, ao invés de serem vistos como impossibilidades, devem nortear a busca por alternativas de acessibilidade à informação e comunicação como, por exemplo, conversores de texto em voz e de voz em escrita, assim como ferramentas de escrita variadas como teclados adaptados, com alto contraste, braile, teclas maiores e coloridas etc.”

A especialista ressalta que hoje são incontáveis os exemplos de pessoas com necessidades complexas de comunicação que, por meio da tecnologia de modo geral e da tecnologia assistiva, mais especificamente, estão conseguindo cada vez mais se expressar por meio da escrita e, também, aproveitar as possibilidades que a leitura oferece. Os recursos de CAA oferecem estímulos adicionais e podem colaborar grandemente para a alfabetização. Assim como as práticas de letramento abrem caminho para mais interações significativas e mais comunicação. “Por todos esses aspectos, qualquer sistema de CAA deve prover acesso ao alfabeto e a possibilidades de escrita por meio de recursos de baixa ou alta tecnologia”, defende a especialista.

Quanto aos fatores que contribuem para o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita de estudantes com necessidades complexas de comunicação, Renata cita uma lista de dez fatores preconizados por Karen Erickson e David Koppenhaver em sua publicação mais recente sobre o tema (Comprehensive Literacy for All [Letramento Abrangente para todos] (2019)):

1.   Parceiros de comunicação bem informados.

2.   Um meio de comunicação e interação à disposição – aqui entra a CAA e o acesso ao alfabeto.

3.   Repetição com variedade.

4.   Engajamento (nas atividades que envolvem leitura e escrita).

5.   Clareza (sobre o que precisa ser feito).

6.   Conexão pessoal com um currículo (materiais significativos e adequado à idade e interesses do aluno).

7.   Incentivo/encorajamento para assumir riscos (as pessoas com deficiência têm consciência de suas dificuldades e podem ter alguma lembrança negativa sobre tentativas passadas. Assim, é necessário criar um ambiente estimulante, acolhedor e seguro para todos os alunos).

8.   Ensino abrangente (por um lado, os alunos aprendem de formas diferentes, portanto, o ensino deve levar esses aspectos em conta enquanto também são estimuladas habilidades que levam ao crescimento e refinam habilidades. Não basta apenas saber ler e escrever as palavras isoladas e descontextualizadas, mas saber utilizá-las em contextos diversos).

9.   Alocação significativa de tempo para o ensino e vivências, envolvendo a leitura e a escrita.

10.   Altas expectativas (é preciso acreditar que todos podem aprender a ler e a escrever).

Uma pergunta recorrente, segundo ela, diz respeito à idade mais apropriada para iniciar o trabalho em alfabetização/letramento de uma pessoa com deficiência e/ou necessidades complexas de comunicação. Sobre isso, Renata comenta que a idade deve ser a mesma que a qualquer outra criança está aprendendo e quando se trata de adolescentes, jovens ou adultos, ela estimula: “Comece logo. A hora é já!”

A especialista ressalta ainda que quando se fala em alfabetização, escolas e professores devem estar comprometidos com programas que comtemplem a diversidade e incluam crianças com deficiência e necessidades complexas de comunicação. “É da responsabilidade da escola a alfabetização de todos os alunos, mesmo que profissionais especializados, como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, neuropsicopedagogos e outros possam contribuir no processo de letramento de estudantes com deficiência. Por exemplo, um fonoaudiólogo pode oferecer insights com respeito à integração da comunicação às atividades acadêmicas, enquanto um terapeuta ocupacional pode alertar para possibilidades e recursos se um aluno não consegue segurar o lápis, desenhar ou, no caso da escrita, escrever à mão. Há formas alternativas para esse aluno escrever, por exemplo, usando um teclado adaptado ou por meio de varredura em casos de alunos com mais dificuldade motora. Então, outros profissionais podem indicar subsídios para ajudar a escola a desempenhar o seu próprio papel, a saber, ensinar todos os alunos, sem exceção, a ler e escrever”, diz.

A especialista cita ainda uma passagem também da obra de Erickson & David Koppenhaver (2019) como exemplo de como deve ser pensada a alfabetização em relação às deficiências: “Os alunos com deficiências significativas precisam e merecem o melhor ensino e experiências de aprendizagem que as escolas e os lares têm a oferecer para que aprendam a ler, a escrever e a se comunicar. Se uma tentativa de ensino falhar, então, em vez de atribuir culpa à deficiência dos alunos, podemos fazer livros personalizados, encontrar mais tempo para incorporar a leitura em voz alta, ensinar os colegas a usar o sistema de CAA interativamente, avaliar a audição ou visão dos alunos, ou explorar novas possibilidades de tecnologia assistiva. Os professores bem-sucedidos de alunos com deficiências significativas não ignoram suas dificuldades. Eles simplesmente reconhecem que embora as deficiências afetem o letramento, não precisam comprometê-la”.

Alfabetização de pessoas cegas

Vale ressaltar que o Dia Nacional da Alfabetização nos faz lembrar do Braille, sistema de escrita e leitura tátil para as pessoas cegas, inventado pelo francês Louis Braille, que consiste em um código de escrita em relevo que oferece símbolos, pontuações e outros sinais que permitem, assim, a alfabetização daqueles que não conseguem enxergar.

O Braille possui uma estrutura formada por seis pontos verticais divididos em duas colunas de três pontos em cada. O sistema possibilita combinações que formam letras, números e símbolos. O conjunto possibilita a formação de 63 símbolos, no entanto, o espaço que não é ocupado pelos pontos também é considerado com um sinal e, por isso, muitos especialistas consideram que o sistema Braille possui 64 símbolos.

Apesar de ser considerado o alfabeto de inclusão dos deficientes visuais, há ainda barreiras que dificultam o seu aprendizado. “No caso das pessoas que perderam a visão, os maiores obstáculos no aprendizado do Braille que podemos mencionar é a busca pela aceitação, o que dificulta o processo de aprendizagem. Elas necessitam de um amparo mais amplo, como o apoio psicológico, pois a perda da visão, em muitos casos, causa um certo desequilíbrio emocional. Já a pessoa que nasceu cega já é habituada a ser assistida e a obter o amparo para o seu desenvolvimento social e educacional”, explica Sandra Regina de Souza Silva, professora de Braille do Lar das Moças Cegas, localizado em Santos/SP.

Mas, de acordo com ela, com o auxílio da reabilitação é possível adquirir subsídios para um desenvolvimento futuro. “O aprendizado do Braille não é um processo fácil, mas por meio de alguns exercícios pedagógicos, torna-se mais simples para que o deficiente visual consiga absorver da melhor forma possível o aprendizado”, diz.

De acordo com ela, o Braille é uma ferramenta importante de inclusão das pessoas cegas e com baixa visão na sociedade. “Até por isso que cardápios, exposições, entre outros locais públicos, têm, cada vez mais, disponibilizado recursos em Braille para proporcionar acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência visual. O país vem caminhando a passos lentos nesse processo da inclusão, é preciso avançarmos mais para uma verdadeira inclusão futuramente”, explica Sandra.

Para o aprendizado do Braille é utilizada a reglete, que pode ser positiva (utilizada para a aprendizagem da leitura Braille – o relevo já sai na posição certa), ou negativa (é preciso virar o papel para ler o relevo, mas que, segundo Sandra, é o recurso que ensina verdadeiramente a escrita e a leitura do sistema). Para a marcação dos símbolos do Braille com a reglete, independente do tipo, é utilizada a punção em folha sulfite de gramatura especial (40mg). “O aprendizado do Braille com a reglete é indicado para pessoas de qualquer idade, desde que tenha força de vontade e de superação”, incentiva Sandra. (Leia mais sobre a reglete nesta matéria: https://civiam.com.br/voce-sabe-o-que-e-reglete/)

As máquinas de escrever Braille, de acordo com ela, fazem parte do processo pedagógico dos assistidos no Lar das Moças Cegas. É uma das ferramentas essenciais de tecnologia avançada, mas é preciso cuidar do material e ouvir com atenção as orientações, bem como colocar a folha corretamente e digitar de maneira certa”, orienta a professora.

Veja também esta matéria sobre o Braille: https://civiam.com.br/dia-4-de-janeiro-dia-mundial-do-braille/

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