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Dia Internacional do Cão-Guia

Juliana e Quindim, uma parceria que transforma autonomia em liberdade, leveza e felicidade

Foto de Juliana abraçada ao labrador Quindim em frente a um bonito lado

Na última quarta-feira de abril, quando é celebrado o Dia Internacional do Cão-Guia, histórias como a de Juliana Gomide Amoroso, 42 anos, ajudam a traduzir, na prática, o impacto desses companheiros na vida de pessoas com deficiência visual. Pedagoga, casada há 18 anos e mãe de um adolescente de 16, Juliana encontrou em Quindim, seu cão-guia de três anos, muito mais do que apoio na mobilidade: encontrou independência, segurança e uma nova forma de viver – com mais leveza e alegria.

Juliana convive desde a infância com a doença de Stargardt, uma distrofia macular progressiva que afeta a visão central. O diagnóstico veio após anos de incertezas e dificuldades, ainda na infância, entre os 10 e 12 anos, quando os exames e o conhecimento sobre a condição eram mais limitados. Com o passar do tempo, a doença avançou gradualmente, um processo que, segundo ela, e apesar dos desafios, permitiu adaptação ao longo da adolescência. “Eu costumo dizer que, dentro do possível, a doença foi bastante generosa comigo, porque aconteceu aos poucos e, dessa forma, tive tempo para me adaptar à perda da visão”, conta.

Aos 16 anos, Juliana conheceu o homem com quem viria a se casar aos 25. Veio, então, o sonho da maternidade, realizado aos 27 anos com a chegada do filho Caio. “Na gestação, a perda visual se intensificou significativamente, e a minha visão que era de 20% foi reduzida para cerca de 5%. A minha oftalmologista especialista em doenças da mácula e da retina já tinha me alertado quanto ao progresso da doença durante a gestação. Mas, como eu e meu esposo estamos juntos há bastante tempo e era um sonho termos um filho, resolvemos arriscar e foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Se pudesse, faria tudo de novo, mesmo indo para a cegueira, praticamente, nessa época”. 

Juliana não se deixou estagnar e buscou formas criativas de adaptar sua rotina. “Como sou pedagoga, eu alfabetizei meu filho uma parte em casa e, por isso, com apenas dois anos ele já me ajudava a identificar embalagens quando íamos ao mercado, lendo os rótulos para mim. Ele era meu companheiro fiel em cada tarefa do dia a dia. Por isso, brinco que meu filho foi meu primeiro ‘cão-guia’”.

Do receio à decisão

Apesar de reconhecer a importância da bengala como ferramenta de mobilidade, Juliana nunca conseguiu se adaptar a ela. “Eu achava barulhenta, sentia que ela chegava antes de mim e me rotulava”, explica.

A ideia de ter um cão-guia surgiu em 2018, incentivada por uma amiga que comentou sobre a existência de um centro de treinamento que acabara de ser formado em Salto de Pirapora (SP), o Instituto Adimax. Juliana chegou a iniciar o processo seletivo para conseguir um cão-guia, mas interrompeu o curso de orientação e mobilidade – etapa obrigatória para a seleção.

A decisão definitiva veio anos depois, após um acidente na rua que a deixou ferida: por ter baixa visão, não notou a presença de um ferro envergado na calçada, que a atingiu com força: “O impacto foi no peito, me machucou, sangrou… e, naquele momento, não chorei pela deficiência, mas pelo medo. Pensei no meu filho, na minha família — e ali entendi que eu precisava de mais segurança”.

Determinada, retomou o processo de seleção do Instituto Adimax. Em 2023, fez um treinamento intensivo com bengala para cumprir os requisitos e enviou o vídeo solicitado para ser analisado se estava apta a receber um cão-guia. Foi aprovada e meses depois, em 2024, o tão sonhado encontro aconteceu: conheceu o Quindim.

O encontro que mudou tudo

O primeiro contato aconteceu durante um “teste-drive” no instituto de treinamento. Pouco tempo depois, Juliana foi chamada para a etapa final: um período de 15 dias de adaptação intensiva nas dependências do Adimax. “Quando Quindim entrou com o treinador, foi um sentimento indescritível. Ali começava a nossa história”, lembra.

Ela destaca a seriedade do trabalho realizado pelo instituto quanto ao treinamento: “É um processo rigoroso, com rotina diária intensa, e exige comprometimento tanto do cão quanto do tutor”, destaca. Para ela, o maior desafio foi confiar completamente no novo parceiro. “Como tenho baixa visão, meu cérebro ainda tenta tomar decisões. Mas com o cão-guia, é ele quem guia e eu tive dificuldade de me entregar a isso durante o treinamento”, admite.

Mais do que mobilidade

Desde a chegada de Quindim, a rotina de Juliana se transformou por inteiro – não só nos cuidados diários, como alimentação, higiene e horários, mas, sobretudo, na forma como ela voltou a viver o mundo. A autonomia de sair sozinha ganhou um novo significado, carregado de leveza e emoção. “Antes, só de pensar em sair de casa, meu coração já apertava, vinha a ansiedade, o medo… Hoje é diferente. Sair com ele é leve e prazeroso: eu converso e canto para ele, sinto que não estou sozinha. É uma companhia viva, que me acolhe e me dá coragem”.

No quesito segurança, também houve uma diminuição significativa na ocorrência dos acidentes nas ruas: “Antes, eu me acidentava muito. Depois dele, nunca mais. Ele desvia de obstáculos, encontra caminhos, me guia com precisão”.

E a conexão entre os dois é tão profunda, que ela ressalta: “Não existe Juliana sem Quindim, nem Quindim sem Juliana. Ele é como se fosse meus olhos, é uma dedicação e um amor que não dá para explicar”, diz emocionada.

Desafios que ainda persistem

Apesar dos avanços sobre a inclusão de pessoas com deficiência, Juliana relata que as barreiras sociais ainda são grandes para quem tem um cão-guia. Segundo ela, a desinformação é um dos maiores obstáculos – o que a motivou a criar o perfil no Instagram @quindimcaoguia para educar o público sobre o cão-guia e conscientizar a sociedade sobre a importância e o papel de um cão de serviço.

“Mesmo com a identificação de que é um cão de serviço e que as pessoas não podem chamá-lo ou fazer carinho, muitas ignoram os alertas e querem interagir com ele – o que atrapalha demais porque o distrai e qualquer distração pode colocar a minha segurança em risco e a dele também”, explica Juliana.

A pedagoga complementa: “Por isso, uso o Instagram como uma ferramenta de informação e conscientização sobre o papel do cão-guia. Muitas pessoas não sabem, mas até um olhar mais afetuoso ou uma voz mais suave dirigida a ele podem distraí-lo – e, quando isso acontece, colocam em risco a nossa segurança. Outro ponto importante é o descarte correto do lixo. Restos de comida ou sacos mal fechados podem desviar a atenção do cão pelo olfato e comprometer o percurso. E, se ele acabar ingerindo algo, eu não consigo ver o que foi. Isso pode afetar diretamente a saúde dele, causando vômitos ou mal-estar, além de dificultar até mesmo os cuidados básicos durante o passeio. Ou seja, pequenas atitudes do dia a dia fazem toda a diferença. A forma como a sociedade age impacta diretamente em nossa segurança, autonomia e qualidade de vida”.

Além disso, embora a Lei Federal nº 11.126/2005 assegure à pessoa com deficiência visual o direito de ingressar e permanecer acompanhada de cão-guia em locais públicos, privados de uso coletivo e nos meios de transporte, muitos estabelecimentos ainda proíbem a entrada de Quindim – uma prática que configura discriminação e pode resultar em multa e até na interdição do local. “Para ajudar as pessoas a compreenderem o papel do cão-guia, costumo fazer uma comparação: uma pessoa cadeirante precisaria deixar sua cadeira de rodas na calçada para entrar em um restaurante? Claro que não. O cão-guia é equivalente a isso, pois é ele quem me conduz até a mesa, ao caixa, ao banheiro. Ainda assim, por falta de informação, muita gente o enxerga como um animal comum, e não como um recurso essencial para a autonomia da pessoa com deficiência”, explica Juliana.

Ela menciona ainda a grande dificuldade quanto ao serviço de carro por aplicativo: “Já precisei chamar vários motoristas até um aceitar. Isso cansa, desgasta. E sem falar na  infraestrutura urbana, que também representa desafios: calçadas irregulares, obstáculos inesperados e falta de acessibilidade aumentam a tensão no dia a dia”.

Uma transformação de vida

Neste Dia Internacional do Cão-Guia, Juliana deixa uma mensagem especial para pessoas com deficiência visual que sonham, como ela um dia sonhou, em contar com esse recurso transformador:

“Costumo dizer que existe uma Juliana antes do Quindim e uma Juliana depois da chegada  dele. Eu me tornei uma mulher mais leve, mais confiante, mais livre: alguém que voltou a sentir prazer nas pequenas coisas, como simplesmente sair de casa sem medo.

Eu sei que ter um cão-guia é uma grande responsabilidade. Exige cuidado diário, atenção constante – ele precisa estar sempre limpo, saudável, com os pelos e dentes bem cuidados, vacinas em dia, pronto para me acompanhar em todos os lugares. Mas, diante do que ele me oferece, tudo isso se torna pequeno.

Porque o que eles nos entregam é imenso. Eles nos devolvem autonomia, dignidade, segurança… e, de certa forma, nos doam a própria vida para serem nossos olhos, nossos parceiros, nossa coragem todos os dias!”. 

Saiba mais:

https://www.instagram.com/quindimcaoguia

https://institutoadimax.org.br/

Redação Civiam

Entrevistas, histórias reais e conteúdo sobre diversos aspectos ligados às Tecnologias Assistivas e à educação na saúde.

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