
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é um campo da Tecnologia Assistiva que garante o direito à comunicação de pessoas com necessidades complexas de comunicação – aquelas que apresentam dificuldades significativas ou impossibilidade de se comunicar de forma eficiente pela fala. Por meio de recursos, estratégias e tecnologias acessíveis, a CAA tem o intuito de ampliar ou substituir a comunicação oral para que crianças, jovens, adultos e idosos expressem desejos, sentimentos, opiniões e participem ativamente da vida em sociedade.
Vale ressaltar que a CAA, fundamentada nos direitos humanos, mais do que possibilitar a comunicação, tem como objetivo central promover inclusão social, acessibilidade, autonomia e, portanto, qualidade de vida.
Entendendo a Comunicação Aumentativa e Alternativa
Segundo o ISAAC-Brasil (capítulo brasileiro do International Society for Augmentative and Alternative Communication), o princípio da CAA é conceber que a comunicação possa ser realizada de outras formas além da fala, como por meio de um olhar expressivo, expressões faciais, sons emitidos, piscar de olhos, movimentos de cabeça, língua de sinais, gestos, toque, escrita, apontar de símbolos, imagens ou por meio de recursos, como pranchas de comunicação com letras, palavras ou símbolos e sistemas computadorizados, como softwares de CAA e rastreadores oculares (que captam movimentos dos olhos para possibilitar a comunicação por meio da escrita ou por voz sintetizada).
Esses recursos permitem que pessoas com NCC se comuniquem, expressem opiniões, vontades, sentimentos, necessidades e ideias, mesmo quando a fala não é possível ou suficiente.
A origem do termo e suas variações no Brasil
O termo Comunicação Alternativa tem origem na expressão internacional Augmentative and Alternative Communication (AAC). Ao longo do tempo, diferentes traduções foram adotadas no Brasil, como:
- Comunicação Alternativa (CA)
- Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA)
- Comunicação Ampliada e Alternativa
- Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)
Atualmente, o termo Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é o mais utilizado, pois expressa com clareza que esses recursos podem aumentar a comunicação existente ou atuar como alternativa à fala.
Os termos “aumentativa”, “ampliada” ou “suplementar” referem-se ao apoio adicional às formas de comunicação que a pessoa já utiliza — inclusive a fala, quando esta é insuficiente. Já o termo “alternativa” indica que os recursos podem substituir a fala quando necessário.
Para quem a CAA é indicada?
A Comunicação Aumentativa e Alternativa pode ser utilizada por crianças, jovens, adultos e idosos com dificuldades temporárias ou permanentes de comunicação, como pessoas com:
- Transtorno do Espectro Autista (TEA)
- Paralisia cerebral
- Deficiência intelectual
- Doenças neuromusculares
- Acidente Vascular Cerebral (AVC)
- Traumatismo cranioencefálico
- Condições degenerativas ou síndromes raras (como Esclerose Lateral Amiotrófica, Síndrome de Rett, de Angelman, entre outros).
É fundamental destacar que a CAA não impede o desenvolvimento da fala. Pelo contrário: inúmeros estudos demonstram que seu uso pode favorecer e estimular a linguagem oral, quando esta for possível.
Um olhar histórico: o surgimento da CAA
Um marco importante na história da Comunicação Alternativa foi o surgimento dos símbolos pictográficos, criados inicialmente para pessoas não alfabetizadas. Nesse sentido é que surgiu o Sistema Bliss, desenvolvido pelo austríaco Charles K. Bliss (originalmente Karl Blitz) entre 1942 e 1965, sendo um dos primeiros sistemas gráficos de símbolos. Embora não tenha sido criado originalmente com a finalidade de comunicação alternativa, uma vez que Bliss buscava uma linguagem universal baseada em conceitos e não em sons, inspirada na escrita chinesa, acabou tornando-se um marco na Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) para pessoas com dificuldades de comunicação, usando símbolos combináveis para expressar ideias complexas. Somente a partir de 1971 é que a invenção de Charles passou a ser utilizado com esse objetivo, quando Shirley McNaughton, no Canadá, adaptou o sistema para pessoas com dificuldades severas de comunicação.
O Bliss é um sistema dinâmico, capaz de representar conceitos abstratos. Seu vocabulário é organizado por categorias, cada uma identificada por cores específicas, permitindo a construção de frases simples ou complexas.
No Brasil, o sistema de comunicação chegou em 1978, quando a Associação Educacional Quero-Quero de Reabilitação Motora e Educação Especial implantou o Bliss. (Confira aqui a matéria que fizemos com Eduardo Montans de Sá, primeiro usuário no Brasil a utilizar o sistema Bliss, aos 7 anos de idade). Em 1980, o sistema também passou a ser utilizado na Sociedade Pestalozzi do Rio de Janeiro, por iniciativa da terapeuta ocupacional Nadia Browning.
A partir daí, outros sistemas gráficos foram desenvolvidos em todo o mundo, considerando as diferentes necessidades das pessoas com NCC:
PIC (Pictogram Ideogram Communication) – criado em 1980, no Canadá, por Subhas Maharaj, com símbolos simples voltados principalmente para pessoas com deficiência intelectual.
PCS (Picture Communication Symbols) – desenvolvido em 1981, nos Estados Unidos, por Roxana Mayer Johnson, amplamente utilizado até hoje com crianças, adolescentes e adultos com fala não funcional.
PECS (Picture Exchange Communication System) – criado em 1985 por Andy Bondy e Lori Frost, baseado na troca de figuras, inicialmente aplicado em crianças com autismo.
PODD (Pragmatic Organisation Dynamic Display) – desenvolvido nos anos 1990 por Gayle Porter, organiza o vocabulário de forma pragmática em livros ou dispositivos adaptados.
Core Words – método mais recente, que prioriza palavras essenciais usadas com alta frequência, permitindo a construção de frases próprias e favorecendo também o processo de alfabetização.
Os benefícios da CAA
Ainda existem crenças equivocadas de que a Comunicação Aumentativa e Alternativa desestimula o uso da fala. No entanto, segundo a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), diversos estudos comprovam que a CAA pode favorecer o desenvolvimento da linguagem.
Além disso, a CAA impacta também a participação social, a aprendizagem e a qualidade de vida ao ampliar as possibilidades de:
Comunicação – A CAA permite que a pessoa expresse desejos, necessidades, sentimentos, opiniões e escolhas, mesmo quando a fala é inexistente ou limitada. Isso reduz frustrações, comportamentos desafiadores e situações de isolamento, promovendo comunicação funcional no dia a dia.
Desenvolvimento cognitivo e linguístico – Ao oferecer modelos de linguagem acessíveis, a CAA estimula o desenvolvimento da linguagem, da organização do pensamento e da construção de frases. Estudos mostram que o uso da CAA não impede o desenvolvimento da fala, ao contrário: pode favorecê-lo quando houver potencial.
Apoio à alfabetização e à aprendizagem – Sistemas de CAA contribuem para o processo de alfabetização, leitura e escrita. A pessoa passa a participar mais ativamente das atividades escolares e educacionais.
Inclusão social e participação – A CAA promove inclusão social, possibilitando maior participação em contextos familiares, escolares, profissionais e comunitários. A comunicação deixa de ser uma barreira e passa a ser uma ponte para relações mais significativas.
Autonomia e tomada de decisões – Com acesso à comunicação, a pessoa ganha maior autonomia, podendo fazer escolhas, tomar decisões e defender seus direitos. Isso fortalece a autoestima, a autoconfiança e o senso de pertencimento.
Redução de comportamentos desafiadores – Muitos comportamentos considerados inadequados estão ligados à dificuldade de se comunicar. A CAA oferece uma via funcional de expressão, reduzindo frustrações e favorecendo interações mais positivas.
Benefícios para a família e cuidadores – A comunicação mais clara melhora o vínculo entre a pessoa e seus familiares ou cuidadores, facilitando a compreensão mútua e reduzindo o estresse nas interações cotidianas.
Aplicação em diferentes contextos – A CAA pode ser utilizada em contextos educacionais, clínicos, hospitalares e domiciliares, adaptando-se às necessidades de crianças, adolescentes, adultos e idosos, de forma flexível e personalizada.
Sistemas e tecnologias da CAA
Os sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa fazem parte da Tecnologia Assistiva e podem ser classificados em baixa, média e alta tecnologia:
Baixa tecnologia – Inclui recursos simples, que não dependem de dispositivos eletrônicos, como pranchas de comunicação, cartões com símbolos, fotos ou palavras, materiais confeccionados manualmente. Muitas famílias produzem esses recursos em casa, mas é essencial contar com a orientação de profissionais especializados.
Média tecnologia – São recursos com a presença de alguma tecnologia e que necessitam de alguma fonte de alimentação da bateria, mas, ainda assim, são simples de serem configurados. Exemplos: vocalizadores, que gravam mensagens de comunicação rápida.
Alta tecnologia – São recursos com tecnologia avançada e envolvem o uso de softwares de CAA, como o Boardmaker 7, e aplicativos em tablets, computadores e dispositivos; e apresentam maior grau de complexidade, como os rastreadores oculares.
Algumas dessas tecnologias permitem, inclusive, o controle de ambientes e equipamentos, ampliando ainda mais a autonomia de pessoas com mobilidade reduzida.
Como escolher o melhor sistema de Comunicação Alternativa?
A escolha do sistema ideal deve ser feita a partir de uma avaliação criteriosa, realizada por terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, considerando fatores como:
- Idade, diagnóstico e contexto social e cultural
- Habilidades motoras
- Habilidades comunicativas
- Habilidades perceptivas e cognitivas
- Ambientes em que o recurso será utilizado
- Características físicas do recurso
- Materiais utilizados
- Pessoas com quem a comunicação ocorrerá
- Desejos, potencialidades e necessidades do usuário
CAA na jornada escolar e no mercado de trabalho
Na sala de aula inclusiva e no mercado de trabalho, a Comunicação Aumentativa e Alternativa deixa de ser um recurso pontual e passa a ser parte integrante do processo educativo e de trabalho. Ao garantir que estudantes e profissionais com necessidades complexas de comunicação possam se expressar, interagir e demonstrar o que sabem, a CAA assegura o acesso real ao currículo, à aprendizagem e ao trabalho, fortalecendo a participação ativa e o protagonismo da pessoa com deficiência.
Além disso, quando incorporada na rotina escolar ou no ambiente corporativo, a CAA beneficia não apenas quem a utiliza diretamente, mas toda a comunidade ao entorno, promovendo múltiplas formas de comunicação, respeito às diferenças e práticas mais acessíveis. Assim, a sala de aula e as empresas se transformam em um espaço onde todos têm voz, aprendem juntos e constroem conhecimento de forma colaborativa.
Dessa maneira, a Comunicação Aumentativa e Alternativa reafirma seu papel como instrumento de equidade, inclusão e garantia de direitos, contribuindo para uma sociedade verdadeiramente inclusiva, em que comunicar-se é condição fundamental para aprender, conviver e participar plenamente da vida em sociedade.
Quer saber mais sobre a Tecnologia Assistiva? Veja aqui:
https://civiam.com.br/o-que-e-tecnologia-assistiva/
Fontes:
https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-aumentativa-e-alternativa.html


