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Tecnologia Assistiva amplia possibilidade de comunicação e assegura a acessibilidade curricular para a aprendizagem

Crianças exploram pranchas de comunicação alternativa com símbolos de cores, ações e objetos durante uma atividade coletiva de aprendizagem.

Comunicar-se é mais do que transmitir uma mensagem: é expressar vontades, fazer escolhas, estabelecer relações e participar do mundo ao redor. Em outubro, mês de conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), essa discussão ganha ainda mais espaço, chamando atenção para a importância de reconhecer e garantir diferentes formas de comunicação. 

Para pessoas que não utilizam a fala como principal meio de expressão, a CAA reúne recursos, estratégias e ferramentas que podem ampliar as possibilidades de comunicação e participação em diferentes contextos. Na educação, isso significa ir além do acesso à escola: é preciso eliminar barreiras, ampliar a autonomia e assegurar condições efetivas para que cada estudante possa participar, se comunicar e aprender. 

É nesse contexto que os investimentos em Tecnologia Assistiva e em recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) vêm ganhando relevância na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, contribuindo para tornar o ambiente escolar mais acessível e inclusivo. 

Um dos principais marcos dessa trajetória ocorreu em 2022, quando a Secretaria Municipal de Educação adquiriu o software Boardmaker 7 para todas as Unidades Educacionais da Rede Municipal. “A aquisição do Boardmaker 7, sendo um software de CAA potente e robusto, representou um avanço em relação à inclusão na Rede, pois disponibilizou às escolas uma ferramenta amplamente reconhecida para a elaboração de materiais acessíveis e para o apoio à crianças e estudantes com necessidades complexas de comunicação, reafirmando o compromisso da Rede Municipal de Educação com a acessibilidade para todos”, ressalta Camila Ramos Franco de Souza, Diretora da Divisão de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo. 

De acordo com a gestora, o investimento em recursos como o Boardmaker 7 e em práticas de Comunicação Aumentativa e Alternativa está alinhado aos princípios da Lei Brasileira de Inclusão, aos avanços trazidos pela legislação que reconhece a CAA como um direito (Lei nº 15.249/2025) e à implementação e à consolidação da política paulistana de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. “Essas normativas reforçam que a inclusão não se limita ao acesso à escola, mas envolve assegurar condições para que todos os bebês, crianças e estudantes possam se comunicar, participar e aprender com autonomia”, salienta. 

Atualmente, a Rede Municipal de Ensino de São Paulo é formada por 4,1 mil Unidades Educacionais e conta com 41,9 mil estudantes com deficiência matriculados, segundo dados com base em agosto de 2026. Esse cenário reforça a importância de políticas públicas capazes de responder à diversidade de necessidades presentes no cotidiano escolar. 

“O quantitativo de bebês, crianças e estudantes com deficiência matriculados na Rede Municipal orienta o planejamento e a organização das ações de inclusão, possibilitando a identificação das demandas de acessibilidade e apoio pedagógico nas Unidades Educacionais. Esse planejamento inicia-se com a atuação itinerante dos Professores de Apoio e Acompanhamento à Inclusão (PAAIs) nas Unidades Educacionais, por meio de avaliações pedagógicas, encaminhamentos e construção coletiva do estudo de caso. A partir desse processo, são definidas as estratégias e os recursos necessários para assegurar o acesso ao currículo e a elaboração coletiva e acompanhamento do Plano de Atendimento Educacional Especializado (Plano do AEE)”, explica a gestora. 

Acessibilidade começa pela eliminação de barreiras 

Camila salienta que entre os principais desafios está a identificação e a minimização e/ou eliminação das barreiras comunicacionais e atitudinais que podem limitar a participação de bebês, crianças e estudantes com deficiência no ambiente escolar.  

“Para enfrentá-las, a formação contínua de gestores, professores, profissionais de apoio e famílias é considerada fundamental para que atuem como parceiros de comunicação potentes, especialmente por meio do uso de recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Essas ações são essenciais para promover a participação efetiva, a autonomia e a aprendizagem de bebês, crianças e estudantes em uma perspectiva inclusiva”, destaca a gestora. 

É nesse contexto que a Comunicação Aumentativa e Alternativa vem sendo incorporada à rotina escolar principalmente por meio do Atendimento Educacional Especializado (AEE), com participação dos professores do Atendimento Educacional Especializado (PAEEs). 

Além da atuação na Sala de Recursos Multifuncionais, esses profissionais desenvolvem um trabalho colaborativo com as crianças e estudantes da Educação Especial elegíveis para o atendimento, junto aos professores da sala comum. “Sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), os recursos de CAA não beneficiam apenas estudantes que apresentam necessidades complexas de comunicação. Eles podem oferecer diferentes formas de representação, expressão e engajamento, permitindo que os estudantes se expressem por diferentes meios e tenham acesso ao currículo com o apoio de recursos visuais. A estratégia também favorece a ampliação das interações e pode qualificar o processo de aprendizagem de toda a turma”, ressalta Camila. 

Boardmaker 7: de uma ferramenta à acessibilidade 

Para Gislaine Batista da Silva Rodrigues, Coordenadora do CEFAI Guaianases, que também participou da implantação do Boardmaker 7 desde o início, o processo foi conduzido de forma cuidadosa, com o acompanhamento dos Coordenadores dos CEFAIs e dos PAAIs, que tiveram papel fundamental no monitoramento da iniciativa nos territórios e na aproximação da proposta às diferentes realidades das Unidades Educacionais. Ao longo desse percurso, percebeu-se também a necessidade de ir além da formação inicial, aproximando o recurso das práticas pedagógicas, das necessidades e das experiências vivenciadas nas Unidades Educacionais. “Foi nesse momento que a chegada da PAAI Jessica Carla Braga Antunes à equipe trouxe uma nova potência para esse processo. A partir de sua experiência como PAEE, ela trouxe para nossas formações conhecimentos e práticas muito significativas relacionadas à utilização do recurso, contribuindo para que pudéssemos ampliar as possibilidades de exploração do Boardmaker 7 e aproximá-lo ainda mais do fazer pedagógico. E assim, nosso percurso foi ganhando novos caminhos”, salienta. 

Profissionais da educação utilizam o software Boardmaker 7 em um notebook para criar materiais visuais de apoio à comunicação alternativa e à educação inclusiva.

Segundo Jessica, a experiência com o Boardmaker 7 também revelou que a tecnologia, sozinha, não é suficiente para assegurar uma comunicação efetiva. “No início, como eu ainda tinha pouca vivência prática com a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), percebi rápido que só confeccionar o material não gerava o resultado que eu esperava. Foi essa percepção que me motivou a estudar mais e entendi que a CAA vai muito além de imprimir pranchas: ela exige intencionalidade, planejamento, modelagem e, acima de tudo, oportunidades reais para a criança ou estudante usar no dia a dia. Em 2024, passei a atuar como PAAI no CEFAI. Quando cheguei, vi que o Boardmaker ainda era pouco usado nas escolas. Entendemos que o nosso desafio não era só liberar a ferramenta, mas apoiar os professores para que a CAA fosse aplicada de forma consistente”, ressalta Jessica, que incorporou a ferramenta de forma consistente à sua prática pedagógica. 

A partir daí, a profissional salienta que a equipe do CEFAI passou a focar na formação e no acompanhamento das Unidades Educacionais. “A ideia não era ensinar a fazer pranchas estáticas, mas mostrar como tornar a escola comunicativamente acessível. Hoje, orientamos o uso do software para criar de tudo: rotinas visuais, checklists, histórias sociais, antecipação de mudanças e apoios para momentos como refeições, passeios e uso do banheiro. Para mim, o ponto-chave é não deixar esses materiais restritos à sala de recursos multifuncionais (SRM), pois, quando eles circulam pela escola e são usados por professores, funcionários e colegas, a acessibilidade realmente acontece na prática”, enfatiza. 

Criança utilizando prancha de comunicação alternativa com símbolos visuais para identificar atividades da rotina escolar, como lanche, descanso e desenhar.

Ela destaca ainda: “nas nossas formações, fazemos questão de reforçar que a CAA não é um teste. A gente não deve exigir que o estudante monte frases perfeitas ou acerte símbolos específicos para levar em conta o que ele quer dizer. O segredo é utilizar a ferramenta no dia a dia — durante as brincadeiras, no almoço, nas leituras e nas conversas da turma. Quanto mais sentido o recurso faz na rotina real, mais a autonomia e a participação do estudante crescem”, explica a professora. 

Um exemplo na prática de inclusão e acessibilidade 

Entre os avanços observados a partir do uso da CAA, Jessica destaca uma experiência vivenciada em um Centro de Educação Infantil (CEI), que, segundo ela, ilustra de forma significativa o impacto desse recurso. A unidade atende duas crianças, de 3 e 4 anos, com necessidades complexas de comunicação. 

“Em vez de criar materiais isolados só para as duas, conversamos com a equipe sobre tornar o ambiente todo acessível para a turma inteira. A professora usou o Boardmaker 7 nas situações cotidianas utilizando pranchas de comunicação temáticas com as músicas que as crianças mais gostavam. O resultado foi incrível: todas as crianças da sala de referência começaram a cantar super empolgadas, apontando para os símbolos e montando pequenas sequências de imagens. Mesmo sem saberem ler, elas identificavam os significados, combinavam figuras e entendiam o poder daquela forma de se comunicar. A rotina diária também ganhou um novo uso. A imagem do “banheiro” foi utilizada com a turma como apoio visual: quem quisesse ir ao banheiro poderia apontar para a figura e falar a palavra. Com isso, os colegas se tornaram parceiros ativos de comunicação. Ao apontarem para a imagem e falarem “banheiro”, eles reforçavam o uso do recurso para a criança que mais precisava dele, oferecendo a informação de forma visual e auditiva ao mesmo tempo. A CAA deixou de ser um recurso utilizado individualmente e passou a fazer parte da linguagem do grupo inteiro. É essa transformação que buscamos com o Boardmaker: criar espaços onde todas as formas de se comunicar sejam acolhidas e façam sentido no cotidiano”, emociona-se. 

Planejamento mais acessível e comunicação para além dos pedidos 

Na avaliação da professora, o Boardmaker também facilita a transformação das situações observadas no cotidiano em estratégias pedagógicas concretas: “Ao identificar uma barreira enfrentada por uma criança, a equipe pode analisar o que está dificultando sua participação: ela precisa compreender melhor a sequência de uma atividade? Necessita de antecipação? Precisa de uma forma acessível para fazer escolhas ou pedir ajuda? A partir dessa análise, é possível dividir atividades longas em etapas menores, criar checklists visuais e oferecer alternativas de resposta que vão além da fala e da escrita tradicional”, explica. 

Na comunicação, o impacto também é amplo. Segundo Jessica, a CAA não deve ser utilizada apenas para que a criança peça um brinquedo ou um lanche. Ela precisa possibilitar que o usuário dê sua opinião, recuse algo, faça comentários e perguntas, peça uma pausa ou avise que não entendeu determinada situação. 

Para a professora, os materiais estruturados também contribuem para o acompanhamento pedagógico, pois permitem observar quais apoios estão funcionando, o que precisa ser ajustado e em quais momentos o estudante está conquistando maior autonomia. 

“Por isso, a prancha ou outro recurso de comunicação não deve ser encarado como algo definitivo. Ela se transforma junto com o desenvolvimento da criança”, salienta. 

Quando o comportamento também é uma forma de comunicação 

Um dos efeitos observados pela professora com o uso da CAA por meio do Boardmaker 7 está relacionado à redução de comportamentos que a escola costuma classificar como “desafiadores”. Para Jessica, muitas dessas manifestações podem representar, na realidade, tentativas de comunicação diante da ausência de recursos acessíveis para expressar necessidades, desejos ou desconfortos. Gritos, choros, empurrões ou recusas podem estar relacionados a mudanças repentinas na rotina, tarefas muito longas ou à impossibilidade de dizer “não quero”, “preciso de ajuda” ou “quero parar”. 

“Quando oferecemos uma alternativa acessível de comunicação e estruturação visual, a dinâmica muda por completo — e essas têm sido algumas das transformações mais bonitas que estamos vendo com a CAA. Afinal, uma sequência visual mostra exatamente quanto tempo falta para a tarefa acabar; um cartão de pausa permite que a criança indique quando sente necessidade de interromper a atividade; um checklist traz previsibilidade. O objetivo nunca é usar a CAA para controlar o comportamento da criança, mas sim compreender o que ela está tentando nos dizer e oferecer uma ferramenta eficiente para que possa se expressar”, ressalta. 

“Além disso, quando a informação passa a contar também com um apoio visual, ela se torna mais concreta e pode ser consultada de maneira independente”. É justamente a redução progressiva da dependência do adulto que Jessica considera um dos principais indicadores de que a Tecnologia Assistiva está cumprindo seu papel. “Uma rotina visual pode permitir que a criança consulte sozinha o que acontecerá em seguida. Um checklist pode ajudá-la a acompanhar uma atividade. Uma prancha de comunicação pode possibilitar que participe de uma conversa ou faça uma escolha sem depender de alguém para interpretar suas intenções”, afirma. 

Para ela, é justamente essa transformação que representa o potencial do Boardmaker 7: criar espaços em que diferentes formas de comunicação sejam reconhecidas, utilizadas e façam sentido no cotidiano escolar. 

Por isso, nas formações realizadas pela equipe, a orientação é que os parceiros de comunicação utilizem a CAA como formas de linguagem em situações reais — durante brincadeiras, refeições, leituras e conversas — e que ela não seja tratada como um teste no qual o estudante precisa acertar símbolos ou construir frases perfeitas para ter sua comunicação considerada. 

Tecnologia Assistiva para além da ferramenta 

Passados quatro anos da aquisição do Boardmaker 7, a Diretora da Divisão de Educação Especial da SME considera positivo o resultado, mas reconhece que fazer com que a ferramenta seja incorporada de fato à rotina das escolas continua em pauta. “A implementação do software trouxe alguns desafios quanto à tecnologia, como a instalação, o acesso às licenças, a infraestrutura tecnológica e, principalmente, a formação das equipes. Mesmo após as capacitações das PAEEs e outros profissionais, percebemos a importância de um acompanhamento mais próximo. Nesse processo, a equipe do CEFAI (Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão) teve um papel importante para que os profissionais ganhassem mais segurança e pudessem incorporar os recursos do Boardmaker às suas práticas pedagógicas”, explica Camila. 

Vale salientar que o investimento da Rede Municipal de São Paulo não se restringe ao Boardmaker 7. Nos tablets disponibilizados aos estudantes nas Unidades Educacionais, foi instalado também o aplicativo Matraquinha, ampliando as possibilidades de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) disponíveis no ambiente escolar. 

Mais do que oferecer ferramentas, porém, a proposta passa por incorporar a Tecnologia Assistiva à prática pedagógica. Para isso, a Secretaria Municipal de Educação mantém ações de formação continuada para PAEEs, PAAIs e demais profissionais da educação, aproximando conhecimento e prática e fortalecendo o uso desses recursos no processo de aprendizagem. 

Nesse sentido, as ações da Rede Municipal de São Paulo reforçam que a inclusão educacional não acontece apenas pela presença de equipamentos e aplicativos. Ela é construída a partir da combinação entre políticas públicas, recursos acessíveis, formação profissional e trabalho colaborativo. 

Dessa forma, a Tecnologia Assistiva deixa de ser apenas um recurso complementar e passa a ocupar um papel estratégico na construção de ambientes educacionais mais acessíveis. Quando associada à formação dos profissionais e ao planejamento pedagógico, ela pode transformar a maneira como estudantes com diferentes necessidades acessam o currículo, se comunicam e participam da vida escolar. 

Afinal, uma escola inclusiva não é aquela que apenas recebe todos os bebês, as crianças e estudantes, mas aquela que oferece condições para que todos tenham voz, participação e oportunidades reais de aprendizagem.