
“Sem comunicação não existe a relação com o outro”. A frase de Matheus Pinheiro resume um princípio que atravessa diferentes áreas de sua vida: comunicar-se é poder expressar vontades, fazer escolhas e participar ativamente da vida em sociedade. Com o apoio de recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e de Tecnologia Assistiva, o jovem, que tem paralisia cerebral, amplia sua autonomia e encontra suporte para conduzir uma rotina repleta de compromissos e treinos: aos 24 anos, ele é atleta paralímpico de bocha, palestrante, embaixador do Instituto Kaimbe e integrante do grupo Vamos Papear, da ISAAC-Brasil (capítulo brasileiro da International Society for Augmentative and Alternative Communication – ISAAC).
São esses recursos tecnológicos que dão caminho a uma mente ágil, movida pela gana de realizar sonhos, experimentar o mundo e viver as próprias possibilidades de sua idade. “Além de tornar minha comunicação muito mais rápida e eficiente, a Tecnologia Assistiva se tornou a minha voz. O rastreador ocular TD Pilot e a IA me permitem transformar pensamentos em conversas fluidas, organizar meus treinos e palestras e gerenciar minha própria vida. Com esses recursos, consigo fazer com que minha velocidade, minha liberdade e minha vontade sejam expressas exatamente como eu quero, sem depender de intermediários”, destaca.
É essa perspectiva que ganha ainda mais destaque no Dia Mundial da Paralisia Cerebral, celebrado em 6 de outubro. Para Matheus, a data representa uma oportunidade de ampliar a visibilidade sobre a paralisia cerebral e combater preconceitos. Entre as questões que ainda precisam de mais atenção, ele destaca a acessibilidade nas cidades, nos transportes e nos espaços públicos; o acesso universal à Tecnologia Assistiva e à CAA, fundamentais para a autonomia; e a inclusão no mercado de trabalho, com respeito ao tempo e ao potencial de cada um. Para a data, sua mensagem é direta: “Que a inclusão seja diária e não apenas em datas comemorativas, respeitando a individualidade e o espaço de cada pessoa”.
É justamente essa reflexão que Matheus leva aos palcos como embaixador do Instituto Kaimbe, função que exerce desde 2025. Foi no lançamento da instituição que realizou sua primeira palestra, abrindo espaço para uma atuação cada vez mais presente na defesa da comunicação, da autonomia e da participação. “Foi muito especial para mim, porque marcou o começo da minha jornada como palestrante. Também guardo com muito carinho o feedback de outros jovens que se identificaram e se sentiram representados pela minha história”, salienta.
É essa experiência de estar no palco e dialogar com diferentes públicos que também reforça, para Matheus, o papel central da comunicação – uma reflexão que ganha ainda mais força em outubro, mês dedicado à conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Para ele, falar sobre o tema é também ampliar a compreensão de que existem diferentes formas de se comunicar e de fazer com que cada pessoa seja ouvida. “Gostaria que as pessoas entendessem que ela é o pilar de tudo, seja na escola, na terapia ou em qualquer outro momento. Não há uma forma certa ou errada de se comunicar; existem diferentes maneiras, e a Comunicação Aumentativa e Alternativa é uma delas, garantindo que a nossa voz seja ouvida”.
A bocha como espaço de autonomia, convivência e participação
Além da comunicação e das palestras, o esporte ocupa um espaço importante na rotina de Matheus. “A bocha representa uma das minhas maiores paixões e um espaço de constante superação. É onde testo a minha disciplina, foco e estratégia, além de ser uma ferramenta incrível de inclusão e representatividade no desporto de alto rendimento”.
Segundo ele, a bocha também trouxe mudanças em outras áreas da sua vida: “O esporte ampliou minha rede de amizades, trouxe mais autonomia e confiança em mim mesmo para buscar meus objetivos. E ainda me deu a chance de conhecer novas cidades e viver novas experiências”.
Para quem ainda não conhece a modalidade, Matheus salienta: “Gostaria que soubessem que é um esporte de altíssimo nível técnico e tático, que exige muita precisão, foco mental e dedicação dos atletas. É uma modalidade extremamente inclusiva, demonstrando a capacidade, a força e a competitividade de pessoas com severas limitações motoras, e que transforma vidas ao oferecer oportunidades de profissionalização, viagens e reconhecimento no desporto”.
Com a agenda movimentada, Matheus já se prepara para os próximos desafios. Entre 14 e 18 de outubro, o atleta disputa o Campeonato Regional de Bocha, em São José dos Campos. Na sequência, no dia 27, participa de uma palestra em uma escola, com apoio do Instituto Kaimbe. Em novembro, no dia 20, segue para Uberlândia (MG), onde participa do Congresso Viva Íris.
Planos que seguem em movimento
Além dos treinos, palestras e compromissos, Matheus já projeta os próximos passos da sua trajetória. Um deles é começar a faculdade no ano que vem. No esporte, quer conquistar medalhas em grandes competições e, nos palcos, levar sua voz cada vez mais longe.
“Sou um jovem como tantos outros: gosto de mexer nas redes sociais, assistir a séries e acompanhar os jogos do meu time, o Palmeiras”, conta Matheus. Entre seus gêneros preferidos estão ação, ficção científica e documentários. Atualmente, entre as produções que fazem parte da sua rotina estão Sacrifícios de Sangue, Mistérios sem Solução e Einstein e a Bomba. Já entre os títulos de que mais gosta estão O Diplomata e Designated Survivor.
Fora das telas, o paratleta curte sertanejo e funk — Hungria Hip Hop está entre os artistas que mais ouve —, sai com os amigos para barzinhos e não perde os jogos do Verdão. Nos momentos de descanso, também faz questão de estar perto da família.
Dessa forma, entre a comunicação, a bocha, os palcos, os encontros com os amigos, a torcida pelo futebol palmeirense e os planos para o futuro, Matheus segue construindo uma trajetória que não cabe em uma única definição. Em cada espaço que ocupa, leva consigo a possibilidade de comunicar, escolher, participar e ser reconhecido por aquilo que é: um jovem com interesses, sonhos, talentos e muitos caminhos ainda pela frente.
E talvez seja justamente aí que esteja a força de sua mensagem: não se trata apenas de abrir portas, mas de garantir que cada pessoa tenha liberdade para atravessá-las à sua maneira. Com sua comunicação, seu esporte e sua presença nos diferentes espaços da sociedade, Matheus mostra a importância de ter voz e poder decidir os próprios caminhos — onde estar, o que fazer e até onde deseja chegar. Mais do que ser ouvido, ele quer ter o direito de conduzir a própria história.
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