
Para muitos estudantes com necessidades complexas de comunicação (NCC), voltar às aulas significa reencontrar uma barreira que vai muito além do conteúdo pedagógico: a dificuldade de se comunicar. Sem recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), esses alunos podem ter dificuldade para fazer escolhas, pedir ajuda, participar das atividades, interagir com colegas e demonstrar o que sabem.
Embora a Lei Federal nº 15.249/2025, sancionada em novembro de 2025, tenha estabelecido medidas para ampliar a acessibilidade de pessoas com necessidades complexas de comunicação, incluindo a previsão de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) de baixa tecnologia no atendimento educacional especializado, sua implementação ainda caminha lentamente nas escolas brasileiras. Na prática, estudantes que dependem da CAA continuam enfrentando barreiras para aprender, interagir e exercer autonomia.
Segundo a fonoaudióloga Adriana Araújo, com título de Especialista em Fonoaudiologia Educacional, atuando nas áreas de linguagem, voz e fala na APAE Sobral, além de ser ativista da Comunicação Aumentativa e Alternativa no nordeste do Brasil, o primeiro desafio começa logo na chegada à escola. “Quando uma escola não oferece acessibilidade comunicacional, ela impede que o estudante participe, faça escolhas, demonstre conhecimentos, peça ajuda, socialize e exerça autonomia – sendo que esse aluno compreende muito mais do que consegue expressar. Só uma escola pronta, bem adaptada irá oferecer oportunidades para o desenvolvimento das habilidades acadêmicas na idade certa”, ressalta.
A lei existe, mas a inclusão ainda não acontece
Para Adriana, a aprovação da legislação foi um marco importante para o Brasil, mas sua efetivação ainda enfrenta inúmeros obstáculos. A especialista diz ainda que um dos grandes entraves é que a inclusão ainda não é considerada em todo o planejamento da escola, sendo vista como etapa final de um projeto:
“A verdadeira acessibilidade é transversal: nasce no planejamento e permeia todas as decisões. Está na linguagem utilizada, nas legendas, na interpretação de conteúdos, na sinalização com CAA, na organização dos ambientes, na tecnologia, nos recursos audiovisuais e na forma como cada pessoa vivencia um espaço. Quando a acessibilidade é pensada apenas no final, ela é vista como um detalhe; mas quando faz parte da estrutura, ela promove inclusão. Por isso, a Comunicação Aumentativa e Alternativa não pode ser um detalhe isolado em projetos terapêuticos, psicopedagógicos ou socioeducativos. Ela deve ser incorporada de forma estratégica e qualificada, de forma a permear por todos eles para que a inclusão aconteça com consistência, autonomia e no ritmo que cada pessoa necessita”, salienta.
Além disso, ela explica que muitas instituições acreditam que basta instalar uma prancha de comunicação na parede para cumprir a legislação. “A Comunicação Aumentativa e Alternativa vai muito além da disponibilização de pictogramas: ela destaca que a modelagem — estratégia em que familiares, professores e profissionais utilizam continuamente os símbolos da CAA durante a comunicação — é uma das formas mais eficazes da implementação da Comunicação Aumentativa e Alternativa, permitindo que a criança desenvolva sua linguagem e compreenda como utilizar o sistema. Por isso, não basta comprar uma prancha de CAA e fixá-la na parede. É preciso ensinar professores, alunos e toda a comunidade escolar a utilizarem esses recursos no cotidiano”, explica a especialista.
Falta formação e experiência prática
Outro desafio apontado por Adriana é a escassez de profissionais preparados para implementar a CAA nas escolas. Segundo ela, apesar do crescente interesse pelo tema após a aprovação da lei, a formação prática ainda é limitada.
“Hoje muitos profissionais fazem cursos, mas poucos os colocam em prática. Se a implantação acontece de forma inadequada, pais, professores e até os próprios profissionais acabam desmotivados porque não percebem resultados e o maior prejudicado é quem precisa da CAA”.

Ela ressalta que a implementação da Comunicação Aumentativa e Alternativa exige planejamento, adaptação dos ambientes escolares, envolvimento coletivo e, principalmente, força de vontade. “Sabemos que não é um caminho simples: exige estudo, prática, muito trabalho e muita dedicação. Ainda assim, cada avanço de cada criança mostra que todo o investimento em conhecimento vale a pena”, destaca a fonoaudióloga.
Inclusão beneficia todos os estudantes

Segundo a especialista, ao contrário do que muitos imaginam, a Comunicação Aumentativa e Alternativa não beneficia apenas estudantes com deficiência. Quando incorporada ao ambiente escolar, ela contribui para melhorar a organização das rotinas, ampliar a compreensão das atividades e favorecer a comunicação entre todos os alunos.
Adriana relata que já presenciou situações em que crianças típicas passaram a interagir naturalmente com colegas neurodivergentes utilizando os recursos de comunicação presentes na escola.
“Quando uma criança finalmente consegue expressar seus desejos, necessidades e sentimentos, comportamentos desafiadores costumam amenizar. A CAA organiza a rotina, favorece a comunicação, fortalece a autonomia e faz com que a criança se sinta, de fato, pertencente aos ambientes que frequenta”, ressalta.
O ambiente também comunica
Na avaliação da fonoaudióloga, a inclusão não deve se limitar à sala de aula: “Corredores, banheiros, refeitórios, bibliotecas, parques e demais espaços da escola também precisam oferecer acessibilidade comunicacional. Por isso, os pictogramas devem ser distribuídos em todos os ambientes, permitindo que qualquer pessoa consiga compreender informações e se comunicar com mais autonomia”, diz Adriana, que complementa:
“Com a Lei Federal nº 15.249/2025, esse conceito precisa, agora, alcançar os espaços públicos, como parques, aeroportos, hotéis, restaurantes e centros comerciais, para que a inclusão aconteça de forma efetiva. O caso recente de Araucária (PR), em que o menino João Gabriel Ferreira dos Santos, de cinco anos, autista nível 2 de suporte e não verbal, foi encontrado morto em uma propriedade rural após permanecer três dias desaparecido, evidencia a urgência de colocar essa legislação em prática. Se houvesse pranchas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) com símbolos voltados a situações de emergência distribuídas pelos locais por onde a criança passou, esses recursos poderiam ter favorecido o reconhecimento dos símbolos — caso João Gabriel já fosse usuário de CAA — e ampliado suas possibilidades de comunicar que precisava de ajuda. Da mesma forma, é fundamental que equipes de resgate, como o Corpo de Bombeiros, também disponham de pranchas de CAA, para que possam estabelecer uma comunicação mais acessível com pessoas com necessidades complexas de comunicação durante os atendimentos de emergência”, destaca a especialista.
Ao longo dos últimos anos, Adriana tem desenvolvido projetos para implantação de pranchas de comunicação em espaços turísticos e instituições, buscando ampliar o acesso da população à Comunicação Aumentativa e Alternativa junto às iniciativas públicas e privadas no Ceará.
Como saber que a escola é inclusiva?
Para os pais que estão buscando uma escola inclusiva para matricular o filho com NCC para o ano letivo de 2027, Adriana recomenda observar alguns aspectos que fazem diferença na inclusão. Entre eles estão:
- presença de pranchas de comunicação distribuídas pela escola;
- existência de Sala de Recursos Multifuncionais;
- profissionais capacitados em Comunicação Aumentativa e Alternativa;
- materiais adaptados disponíveis para diferentes disciplinas;
- parceria entre professores, famílias e equipe multiprofissional.

“Vale lembrar que a participação da família é essencial para o sucesso da CAA, mas a responsabilidade pela inclusão precisa ser compartilhada entre escola, profissionais e toda a sociedade”, destaca.
Por isso, a fonoaudióloga educacional deixa a seguinte mensagem:
“A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) chegou para transformar a inclusão em uma realidade concreta. Mais do que dar voz a quem não utiliza a fala, ela cria pontes entre as pessoas, promove conexões e garante o direito de todos à comunicação. Para que esse potencial se concretize, é fundamental contar com profissionais qualificados, capazes de compreender as necessidades de cada indivíduo e conduzir uma implementação planejada, contínua e significativa.
Quando a CAA passa a fazer parte do cotidiano — na sala de aula, nos corredores da escola, na padaria do bairro, no cinema, nos parques, nos restaurantes ou nos centros comerciais — ela amplia a autonomia, fortalece a participação, favorece a convivência e cria oportunidades para que pessoas típicas e atípicas compartilhem os mesmos espaços com respeito e pertencimento.
A inclusão acontece quando escolas, famílias, profissionais, gestores e sociedade caminham na mesma direção, reconhecendo que a comunicação é um direito de todos. Investir em ambientes comunicativamente acessíveis é construir uma sociedade mais humana e preparada para acolher e valorizar todas as formas de expressão e garantir que ninguém seja privado de participar plenamente da vida em comunidade”.
Adriana também é mãe atípica e, ao vivenciar os desafios da inclusão e da acessibilidade comunicacional dos próprios filhos, ela encontrou sua missão de vida: levar a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) a cada vez mais pessoas e transformar ambientes em espaços verdadeiramente inclusivos.

Nos últimos quatro anos, a fonoaudióloga tem dedicado sua trajetória à Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e à formação de profissionais, ministrando cursos, palestras, workshops e consultorias para escolas e instituições em diversas regiões do Brasil. Entre as iniciativas de destaque está o projeto “Inclusão Cognitiva por meio da Comunicação Aumentativa e Alternativa nos Espaços da Escola”, desenvolvido pela especialista, por meio da APAE Sobral, para o Centro de Educação Infantil (CEI) Dinorah Gondim. A proposta surgiu a partir da identificação das necessidades comunicativas de crianças atendidas pela instituição, especialmente daquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não verbais ou com comunicação oral limitada. O objetivo foi transformar os diferentes espaços da escola em ambientes comunicativamente acessíveis, promovendo mais autonomia, participação e inclusão no cotidiano escolar de todos os estudantes.
A especialista é também CEO do Instituto Rede Viva Colaborativa Intermediação de Negócios e diretora do Sindicato dos Fonoaudiólogos do Ceará e da FORTUR-CE.
Saiba mais sobre a fonoaudióloga Adriana Araújo (CRFa 8-11519):


