
“Enquanto houver razões, eu não vou desistir.” É essa a frase que Italo Fernandes escolheu como lema de vida, traduzindo a força, a determinação e a resiliência que conduzem sua trajetória. Inspirada na música da dupla Jorge & Mateus, um dos seus ídolos, ela sintetiza uma jornada inteira repleta de desafios superados e a convicção de que nenhuma previsão sobre o futuro é mais forte do que a determinação de quem decidiu seguir em frente, rumo à conquista de seus sonhos.
Natural de Barreiras, no oeste da Bahia, Italo cresceu ouvindo que provavelmente nunca teria uma vida independente, por ser uma pessoa com deficiência. Em 2023, tornou-se o primeiro homem com paralisia cerebral graduado em Fisioterapia no Brasil, título que ganhou repercussão nacional. Hoje, aos 29 anos, é palestrante, influenciador digital e defensor da inclusão nas redes sociais (@italofernandesofc/), onde reúne mais de 10 mil seguidores. Ele conversa principalmente com pais e mães de crianças com deficiência e seu propósito é mostrar que a autonomia não nasce da superproteção, mas das oportunidades, do incentivo e da confiança nas capacidades de cada pessoa.

Recentemente, apresentou o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – “A evolução fisioterápica de um paciente com encefalopatia crônica não progressiva da infância – relato de caso” – no III Congresso Internacional de Paralisia Cerebral, realizado em Campinas (SP) de 30 de julho a 1 de agosto, transformando sua história de paciente em conhecimento científico. Mas, para isso, viajou sozinho para São Paulo, pela quarta vez, onde ficou por alguns dias, e depois seguiu para Campinas (SP).
Com um brilho nos olhos capaz de contagiar qualquer pessoa, Italo deixa claro que a deficiência nunca foi – e jamais será – um obstáculo para seguir em frente. “Quando eu era criança, minha expectativa de vida era cercada de incertezas por causa da paralisia cerebral. Hoje, saio do oeste da Bahia para buscar conhecimento, compartilhar experiências e representar milhares de pessoas como fisioterapeuta, influenciador e ativista da causa da pessoa com deficiência. Poder aprender e, ao mesmo tempo, contribuir com a vida de outras pessoas é um privilégio que não tem preço. Mais do que apresentar um Trabalho de Conclusão de Curso, tenho a honra de compartilhar uma parte da minha própria história. Este trabalho reúne a minha trajetória na fisioterapia, não apenas como profissional, mas também como paciente”, emociona-se.
Além de participar dos três dias do Congresso, Italo também ministrou a palestra “Quando a capacidade fala mais alto: superando barreiras e transformando vidas pela inclusão” no dia 3 de agosto, no Salão Vermelho da Prefeitura Municipal de Campinas (SP).
Mas antes de chegar até aqui, houve dor, preconceito e uma luta que começou antes mesmo do seu nascimento.
Uma vida marcada pela violência obstétrica
A gravidez da mãe de Italo transcorreu normalmente, o problema surgiu na hora do parto. “Mesmo sentindo fortes dores, ela foi mandada diversas vezes de volta para casa. Os profissionais de saúde insistiam que ainda não era o momento do meu nascimento. Assim, as horas passaram sem atendimento adequado”, conta o fisioterapeuta.
Quando novamente examinada pela mesma médica, ouviu uma das frases mais devastadoras de sua vida: disseram que o bebê já estava morto. Desesperada, acreditou que perderia o filho e talvez também a própria vida. “O parto foi realizado de forma traumática, com manobras que hoje são reconhecidas como violência obstétrica”, destaca Italo.
Não bastasse todo o sofrimento do parto, ele relata que nas primeiras consultas pediátricas, médicos disseram à família que não havia perspectiva para o seu futuro. “Ou leva para outras cidades com mais estrutura ou ele não terá perspectiva nenhuma de vida”.
Os pais, de pouca escolaridade e vida simples, nunca desistiram. A mãe enfrentou uma depressão pós-parto, enquanto toda a família – Italo é o caçula de três filhos – reorganizou a rotina para cuidar daquele menino considerado extremamente frágil.
A infância entre a superproteção e a exclusão
Italo cresceu cercado de amor, mas também de limites. Qualquer queda assustava a família. Brincar na rua, jogar bola ou correr com outras crianças eram atividades proibidas. Na escola, o preconceito veio cedo. Bolsista em uma instituição particular, era frequentemente excluído pelos colegas e, segundo ele, também pela própria escola. Como sua família dependia daquela bolsa, acreditava que precisava suportar tudo em silêncio: “Eu tinha que aguentar calado”.
A revolta acabou se transformando em rebeldia. Vieram as advertências, os castigos e as constantes convocações da mãe à escola. Para muitos, Italo era o “problema”. Mas, por trás daquele comportamento, havia apenas um garoto que sonhava com o que parecia tão simples para os outros: brincar, correr, fazer amigos, participar dos eventos da escola e experimentar a liberdade própria da infância. No fundo, ele não queria privilégios, queria apenas a oportunidade de ser criança.
“Os únicos rolês que minha mãe permitia eram as atividades da igreja católica e os campeonatos de xadrez na escola. Foram eles que se tornaram minha válvula de escape. No xadrez, conquistei oito medalhas. Fora isso, ela dificilmente deixava eu participar de outras atividades pela superproteção”, relembra.
Ainda criança, quando tinha em torno de 9 anos, passou a ser atendido em um centro de reabilitação inaugurado em sua cidade, Barreiras (BA). Embora percebesse os avanços proporcionados pelo tratamento, não compreendia por que precisava estar ali. “Eu não sabia que tinha paralisia cerebral, acreditava apenas que havia nascido com falta de oxigênio no cérebro durante o parto. Na época, eu não entendia por que precisava frequentar aquele lugar. Só sabia que a fisioterapia me fazia bem e, por isso, nunca deixei de ir”.
A escola pública mudou sua vida
Na adolescência, quando tinha 13 anos, foi transferido para uma escola pública e descobriu, pela primeira vez, o verdadeiro significado da inclusão: foi acolhido pelos colegas, tornou-se líder do grêmio estudantil, participou de concursos de dança, era disputado para fazer trabalhos em grupo e passou a frequentar o Atendimento Educacional Especializado (AEE), recurso que considera decisivo para seu desenvolvimento. “Se eu tivesse ido para lá antes, minha vida teria sido outra”.
Para ele, a experiência desconstruiu um dos maiores mitos da educação brasileira. “Todos achavam que eu estaria melhor na escola particular, mas foi na pública que eu realmente me formei como pessoa”.
Desde os 14 anos, Italo passou a contribuir para o sustento da família. Para isso, aceitava trabalhos temporários em festas infantis e atuava como fotógrafo, profissão que aprendeu de forma autodidata. A experiência de conciliar trabalho e estudos fortaleceu ainda mais sua determinação em construir um futuro diferente.
Ao olhar para a própria trajetória e reconhecer o impacto transformador que a fisioterapia teve em sua vida desde a infância, encontrou o propósito que guiaria sua carreira: tornar-se fisioterapeuta para ajudar outras pessoas a superar desafios, conquistar mais autonomia e descobrir, assim como ele, novas possibilidades para a própria vida.
Aprovado em uma faculdade particular, Italo enfrentou dificuldades financeiras para custear as despesas da graduação. Decidida a não permitir que o sonho do filho fosse interrompido, sua mãe passou a vender salgados nas ruas para complementar a renda da família e garantir sua permanência na universidade.
A realidade começou a mudar quando, com a ajuda de uma amiga, Italo conseguiu o financiamento estudantil por meio do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil). A conquista trouxe alívio para a família e permitiu que sua mãe deixasse o trabalho nas ruas, encerrando a venda de salgados que havia sido fundamental para que ele continuasse perseguindo seu objetivo de se tornar fisioterapeuta.
No entanto, naquele novo cenário acadêmico, experiências dolorosas que pareciam ter ficado no passado voltaram a se manifestar, trazendo novamente à tona as feridas deixadas pela infância: Italo voltou a enfrentar o capacitismo e a exclusão ao ser frequentemente ignorado pelos colegas, depender dos professores para ser incluído nos trabalhos em grupo e raramente ser lembrado para as confraternizações da turma. Com o tempo, compreendeu que aquele preconceito não definia quem ele era, mas revelava as limitações de quem o praticava. Em vez de permitir que isso abalasse seus planos, encontrou força nas amizades construídas na escola pública e manteve o foco no que realmente importava: concluir a graduação e tornar-se o fisioterapeuta que sonhava ser.

Foi nesse período que decidiu transformar a própria história em ciência. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) analisou a evolução do tratamento fisioterapêutico de um paciente com encefalopatia crônica não progressiva da infância. O paciente era ele mesmo.
A apresentação da banca, no entanto, se transformou em um dos capítulos mais frustrantes de sua graduação. Apesar dos inúmeros elogios que havia recebido ao longo da orientação, foi surpreendido por críticas severas durante a avaliação final, mesmo sendo aprovado. O impacto foi tão profundo que ele se isolou por dias. “Eu fiquei quatro dias trancado no quarto. Não queria ver ninguém”.
Porém, o episódio tornou-se apenas mais um obstáculo vencido em sua trajetória: anos depois, a apresentação de seu TCC no III Congresso Internacional de Paralisia Cerebral, que reuniu especialistas e pesquisadores de diversos países em Campinas, representou um importante reconhecimento de sua trajetória acadêmica e profissional. O estudo que um dia lhe trouxe frustração na conclusão da graduação ganhou espaço em um dos mais relevantes eventos dedicados à paralisia cerebral, transformando uma experiência dolorosa em motivo de orgulho. “Cada página carrega vivências, desafios, superações e a certeza de que a ciência ganha ainda mais força quando encontra a experiência de quem vive aquilo que pesquisa”, afirma.
Muito além da deficiência
Hoje, Italo concilia a rotina como fisioterapeuta nas Obras Sociais Irmã Dulce com palestras, a produção de conteúdo sobre inclusão nas redes sociais e uma lista de sonhos que, segundo ele, parece crescer a cada nova conquista. “Se a vida não tiver propósito, não tem graça!”, diz, entre risos.
E propósito é algo que transborda em seus gestos, até nos mais simples: durante sua estadia em Campinas, por exemplo, aproveitou um intervalo entre os compromissos para ir ao cabeleireiro. Não era apenas uma mudança de visual. Depois de meses deixando os fios crescerem, havia chegado a hora de doá-los para uma instituição que confecciona perucas para pacientes em tratamento contra o câncer, na Bahia.
“Como não posso doar sangue por causa da paralisia cerebral, encontrei outra forma de ajudar o próximo com a doação do meu cabelo”, explica o influencer. A ação se repete de tempos em tempos: assim que os fios atingem o comprimento necessário, Italo os corta e faz uma nova doação. É mais uma maneira que encontrou de colocar em prática a filosofia que guia sua vida: transformar cada oportunidade para tornar o mundo um pouco melhor.
E mesmo com tantas conquistas, ele destaca que o capacitismo ainda faz parte do seu cotidiano. Afinal, as barreiras mais difíceis que enfrenta nem sempre são físicas, mas aquelas impostas pelos preconceitos da sociedade. “Já sofri exclusão no ambiente de trabalho. Chegava em casa e chorava sozinho para não preocupar meus pais, que já são idosos. Mas sei que sem Deus eu não estaria aqui”, afirma. Para Italo, a fé é o alicerce que sustenta sua caminhada e lhe dá forças para enfrentar o capacitismo, superar as adversidades e seguir adiante.
Fora das pautas sobre inclusão, o influencer também revela uma grande paixão pela música. Além dos cantores sertanejos, ele é fã de Justin Timberlake e da banda Coldplay. Em 2023, viveu uma experiência que considera um verdadeiro presente. “Participei de um sorteio de engajamento no Instagram e ganhei um ingresso para o show do Coldplay”, conta, com o entusiasmo de quem enxerga nessa conquista muito mais do que um golpe de sorte. Para ele, foi mais uma demonstração de que Deus conduz sua caminhada e abre caminhos que, muitas vezes, parecem improváveis.

Dois anos depois, outro ideal se concretizou. No Lollapalooza Brasil 2025, Italo assistiu, pela primeira vez, ao show de Justin Timberlake, um dos artistas que mais admira. Na mesma ocasião, também acompanhou a apresentação de Teddy Swims, transformando o festival em uma experiência inesquecível e na realização de mais um dos seus grandes sonhos.
Talvez seja essa fé, aliada à determinação que o acompanha desde a infância, que explique por que desistir jamais fez parte dos seus planos. Diante de tudo o que já construiu, uma certeza permanece: razões para seguir em frente nunca lhe faltarão. E elas se refletem nos objetivos que continuam impulsionando sua caminhada.
Entre os muitos projetos para o futuro estão cursar mestrado na Universidade de São Paulo (USP), desfilar na São Paulo Fashion Week – reflexo de sua paixão pela moda, evidenciada nos looks cheios de personalidade que costuma vestir -, criar uma marca de calçados inclusivos que una conforto, funcionalidade e estilo, conquistar a casa própria e alcançar a independência financeira. Acima de tudo, porém, ele deseja continuar transformando vidas por meio da informação e da defesa de uma sociedade mais inclusiva.
O modo como Italo enxerga a própria história – sintetizado em sua frase “a minha deficiência é apenas um atrativo a mais em mim” – revela a essência do legado que deseja construir no mundo. O menino que um dia ouviu que não teria futuro tornou-se fisioterapeuta, transformou sua trajetória em pesquisa científica e, com cada conquista, demonstra que nenhum diagnóstico é maior do que a força de quem escolhe ressignificar desafios e transformá-los em propósito. Hoje, sua caminhada se torna uma fonte de inspiração e esperança para que outras pessoas também reconheçam seus potenciais e acreditem que seus sonhos são possíveis.


