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ELA e tecnologia assistiva: como Gisele Flach mantém sua autonomia, paixão pela música e qualidade de vida

Foto de Gisele tocando piano quando mais nova

No dia 21 de junho, quando o mundo se mobiliza para ampliar a conscientização sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a professora de música Gisele Andrea Flach celebra também mais um ano de vida: ela completa 46 anos na mesma data que simboliza a luta, a informação e a visibilidade sobre uma condição que faz parte de sua história desde 2013, quando recebeu o diagnóstico de ELA aos 32 anos.

Ao longo de mais de uma década convivendo com a doença, Gisele construiu uma trajetória marcada pela resiliência, pela paixão pela música e pela capacidade de se reinventar diante dos desafios impostos pela ELA. Sua jornada ganhou um novo capítulo após o surgimento da diabetes, diagnosticada 12 anos depois da Esclerose Lateral Amiotrófica e associada a complicações decorrentes de uma pancreatite e outros problemas de saúde. Mesmo diante de mais esse desafio, Gisele segue encarando a vida com determinação, adaptando-se às mudanças sem abrir mão de sua autonomia, de seus interesses e de tudo o que lhe traz felicidade: com o apoio da tecnologia assistiva, ela produz conteúdos relacionados à música, mantém contato próximo com amigos e familiares e se dedica a atividades que transformam sua rotina em uma experiência mais leve, prazerosa e significativa. Afinal, como ela mesma afirma: “a ELA faz parte de minha história, mas não define quem eu sou”.

Tecnologia assistiva: comunicação e autonomia

A relação de Gisele com a tecnologia assistiva por meio do controle ocular começou antes mesmo da perda da fala. Em 2018, sua psicóloga a incentivou a conhecer e se familiarizar com os recursos existentes  no mercado que pudessem ajudá-la quando os sintomas da progressão da doença estivessem mais evidentes.

“Eu ainda falava razoavelmente bem quando minha psicóloga me perguntou o que eu faria quando perdesse a fala. Comentei sobre a existência do rastreador ocular e ela sugeriu que eu começasse a utilizá-lo antes que ele se tornasse uma necessidade. Concordei imediatamente e passei a utilizar o rastreador ocular da Tobii Dynavox, juntamente com um software que funciona como teclado e mouse virtuais. Como uso computador desde os 18 anos, percebi rapidamente que, com dedicação e treino – algo muito familiar para quem se dedicou ao piano a vida toda -, eu conseguiria aprender. Foi praticando diariamente que desenvolvi estratégias próprias e ganhei velocidade. Sempre gostei de informática, e um bom desafio acaba sendo um incentivo a mais para continuar aprendendo”, enfatiza Gisele.

Além das tarefas práticas, o sistema também permite que Gisele converse com visitas, participe de decisões do dia a dia e mantenha sua presença ativa nas relações sociais, ainda que a comunicação aconteça em um ritmo diferente. “Essa tecnologia faz toda a diferença na minha vida”, resume. Para ela, mais do que uma ferramenta, o rastreador ocular representa uma ponte para a autonomia, a participação social e a manutenção de sua voz no mundo.

Atualmente, além do rastreador ocular, Gisele utiliza uma ampla variedade de recursos tecnológicos que lhe permitem continuar exercendo sua criatividade, sua paixão pela música e sua autonomia. Entre eles estão os editores de partituras, que possibilitam a criação e a edição de composições utilizando apenas o movimento dos olhos: https://www.instagram.com/p/DTbhKuijpM_/ . Ela também recorre a softwares de edição de vídeo, programas de processamento de texto, ferramentas de captura de tela e aplicativos de design gráfico para ilustrar conceitos musicais que antes demonstrava diretamente ao piano. 

“Hoje estou aposentada e utilizo esses programas principalmente como hobby. Na verdade, todas essas ferramentas já faziam parte da minha rotina antes do rastreador ocular. O grande desafio foi aprender a utilizá-las por meio do software que funciona como teclado e mouse virtuais, já que eu recorria a muitos atalhos de teclado que não funcionam da mesma forma nesse sistema. Isso significa que hoje realizo as mesmas atividades, apenas com mais tempo e adaptação”, explica Gisele. 

Ela destaca, porém, que a acessibilidade digital ainda apresenta barreiras que impactam diretamente a autonomia de pessoas que utilizam tecnologias assistivas. Um exemplo é a impossibilidade de espelhar a tela do aplicativo da instituição financeira Nubank no notebook — funcionalidade que, segundo Gisele, está disponível no aplicativo do banco Itaú e facilita significativamente o acesso de usuários que dependem do controle ocular para navegar e realizar operações financeiras. Em suas redes sociais, ela compartilha essa experiência para chamar a atenção para a importância de soluções digitais mais inclusivas e acessíveis, demonstrando como pequenas decisões de desenvolvimento podem fazer uma grande diferença na vida de pessoas com deficiência: https://www.instagram.com/p/DUBCcxkDquy/

Quem conversa com ela, logo percebe que sua vida não gira em torno da doença. Apaixonada pela cultura asiática, ela acompanha regularmente séries coreanas, chinesas e japonesas. Entre as recomendações estão títulos como Alquimia das Almas, Meu Demônio Favorito, Rei de Porcelana, Sorriso Real e Love O2O. “Gosto muito de obras de época e da forma respeitosa como os asiáticos se tratam. Você passa a série inteira torcendo para o casal se beijar, e isso só acontece no último episódio”, diverte-se.

Ela também é admiradora de dança dos grupos de K-pop, especialmente por conta das coreografias bem sincronizadas. “O grupo BTS usa muito playback e corretores de afinação, mas os integrantes dançam muito bem e, como eu fui bailarina dos meus 8 até os 21 anos de idade, eu adoro observar e olhar várias vezes essas coreografias muito bem elaboradas e bem executadas do BTS”, destaca.

Foto de Gisele em apresentação do balé, interpretando Nhanderuvuçu, Deus dos índios
Gisele em apresentação do balé, interpretando Nhanderuvuçu, Deus dos índios

Vale destacar que, em sua trajetória no balé, Gisele deu vida a diversos personagens marcantes, entre eles Nhanderuvuçu, a divindade suprema e criadora da mitologia tupi-guarani. Sem uma forma antropomórfica definida, Nhanderuvuçu é compreendido como uma força espiritual invisível que representa o próprio universo.
Em uma performance tão desafiadora quanto emocionante, Gisele executou toda a coreografia dentro de um saco, transformando uma aparente limitação em potente recurso de expressão artística. Entre luz, movimento e simbolismo, sua interpretação traduziu a força espiritual, a ancestralidade e a profunda conexão com a natureza presentes na cultura indígena.

O significado de um aniversário especial

“Quando descobri que o meu aniversário coincidia com o Dia Mundial de Conscientização sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica, chorei muito. Naquele momento, compreendi que a ELA fazia parte do meu destino: os três anos que se seguiram ao diagnóstico transformaram profundamente a forma como passei a enxergar essa história. Continuei dando aulas de piano e, nesse período, os pais dos meus alunos frequentemente vinham me agradecer por eu ser um exemplo de força, coragem e alegria para os seus filhos. Foi então que percebi que, mesmo diante da doença, eu ainda podia tocar a vida de muitas pessoas. Fazer a diferença na vida daqueles adolescentes me mostrou que eu estava cumprindo o meu propósito. Foram anos maravilhosos, repletos de momentos inesquecíveis. Eles me empurravam na cadeira de rodas pelos corredores em alta velocidade, e nós nos divertíamos muito juntos. As aulas eram leves, cheias de risadas, aprendizado e cumplicidade. As turmas de piano em grupo tinham aquela bagunça gostosa, cheia de energia e alegria, mas que sempre resultava em música de excelente qualidade. Quando olho para trás, vejo o quanto aquela fase foi especial e o quanto sou grata por tudo o que vivemos. Tenho certeza de que essas lembranças permanecem vivas não apenas no meu coração, mas também no de cada aluno e família que compartilhou comigo aqueles anos tão marcantes”, relembra emocionada.

Foto de Gisele com seus alunos

Gisele relembra também outra importante conquista em sua trajetória: a conclusão do mestrado em 2013, após o diagnóstico de ELA. Com a dissertação intitulada “Arranjos para piano em grupo: um estudo sobre as decisões, escolhas e alternativas pedagógico-musicais”, ela precisou encontrar uma forma alternativa de realizar a defesa devido a alguns reflexos da doença, como a labilidade emocional.

Foto do tema de sua dissertação arranjos de piano em grupo
Foto de Gisele após a defesa da dissertação

A solução foi transformar a apresentação em um vídeo cuidadosamente produzido, reunindo duas de suas grandes paixões: a música e a educação. “Concluir o mestrado foi uma grande vitória. Poder produzir aquele filme para a defesa me encheu de orgulho, porque consegui usar a música de forma intencional, inserindo trilhas em momentos específicos para reforçar a mensagem que eu queria transmitir. Foi uma experiência muito especial”, recorda.

O resultado emocionou a banca examinadora e os colegas. “Eles diziam que aquela defesa não poderia ter sido feita de outra forma, que o vídeo ficou perfeito. E eu concordo: ficou muito bom!”, diz com entusiasmo. Confira:  https://www.youtube.com/watch?v=Sg8mnJevpww

Dessa forma, ao olhar para a sua jornada, Gisele reconhece que a convivência com a ELA transformou profundamente sua forma de enxergar também a própria vida. Acostumada a um ritmo acelerado, ela precisou aprender a desacelerar, respeitar seus limites e abandonar a busca constante pela perfeição. “Eu sempre fui uma pessoa muito rápida, me cobrava demais e falava muito. Quando recebi o diagnóstico, aprendi a me cobrar menos, a aceitar que não precisava ser perfeita e a me permitir levar mais tempo para fazer as coisas. Como a fala e a respiração ficaram mais difíceis, comecei a falar menos e a ouvir mais. Esse último aprendizado continua até hoje. Com o rastreador ocular, é muito fácil escrever e falar, então algumas (muitas) vezes ainda me arrependo de algo que disse. Mas a vida é um eterno aprendizado, e eu já me conformei com isso”, salienta.

Ao deixar uma mensagem para outras pessoas que convivem com a ELA, seus familiares e toda a sociedade, Gisele propõe a reflexão: “A vida é um presente, assim como o agora. O passado não podemos mudar e o futuro pertence a Deus; o que nos resta é viver da melhor forma possível o presente que nos foi dado. Procuro não pensar em um futuro marcado pela pergunta ‘como vou morrer?’ e só olho para o passado quando é para sorrir. Escolho viver o presente com bom humor e fazendo aquilo que me traz alegria. Adoro receber visitas e perguntar sobre as novidades — ou as fofocas, como costumo brincar — para me distrair ouvindo as histórias das pessoas. Também mantenho uma esperança, talvez até ingênua, de que um dia vou me curar. Não sei se isso vai acontecer e nem pergunto aos médicos sobre essa possibilidade, porque a esperança acalma e aquece o meu coração.
Enquanto isso, preencho meus dias com tudo o que gosto: assisto aos meus doramas, acompanho vídeos de dança, edito gravações dos meus alunos tocando piano e exploro as infinitas recomendações do YouTube, até aqueles vídeos intermináveis de pessoas removendo cravos e espinhas, que me divertem bastante”, conta, entre risos.

Ela complementa: “É assim que sou feliz. Faço o que gosto sem ficar pensando que sou doente. Eu sou Gisele, e nada me impede de fazer aquilo que me faz bem. A ELA me deixou mais imobilizada, mas isso não me abala e, principalmente, não define quem eu sou. Por isso, vivam o presente intensamente, com leveza e bom humor como um presente que nos foi dado sem nenhuma cobrança!”.

Saiba mais:

https://www.instagram.com/giflach

https://www.youtube.com/channel/UCO_xcXGqX5otwbg2atGxA0w