Empreendedorismo e inclusão: “Transformar é Incluir” cria caminhos de autonomia e renda para pessoas com deficiência intelectual

Em alusão ao Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado no dia 21/3, iniciativas que ampliam oportunidades de autonomia e protagonismo ganham ainda mais visibilidade. Entre elas está o projeto Transformar é Incluir, criado pela consultoria Conecta Diversidade, que apoia empresas na construção de ambientes mais inclusivos, com foco na empregabilidade de pessoas com deficiência, desenvolvimento de lideranças e cultura organizacional e na promoção da inclusão produtiva com geração de renda.
À frente da iniciativa está a empresária Carla Schultz, fundadora e CEO da Conecta Diversidade e cuja trajetória profissional inclui passagens por grandes empresas, como Disney e CNN. Mas, foi na maternidade atípica que a executiva redirecionou sua carreira e hoje atua conectando estratégia de negócio com impacto social, além de ser palestrante e criadora de conteúdo. “Eu venho do mundo corporativo e trabalhei muitos anos com grandes marcas, mas tudo muda quando me torno mãe da Manu, que tem Síndrome de Down e apraxia da fala. A partir daí, comecei a olhar para a inclusão de forma muito mais profunda, não só como discurso, mas como futuro, autonomia e dignidade”, explica.
Segundo ela, a Conecta Diversidade surgiu há quatro anos com o propósito de apoiar empresas na criação de ambientes mais inclusivos, especialmente na empregabilidade de pessoas com deficiência. “Com o tempo, porém, ficou evidente que o mercado formal ainda não consegue absorver todos, principalmente as pessoas com deficiência intelectual e, por isso, amadureci ainda mais a ideia inicial e criei o projeto de impacto social Transformar é Incluir. Trabalho é sobre dignidade – isso está na Lei Brasileira de Inclusão -, mas para muitas dessas pessoas essa ainda é uma realidade distante. Por isso, o projeto nasceu como uma resposta prática: se o mercado não absorve, como criar caminhos reais de geração de renda e protagonismo?”, ressalta.
Empreender como caminho para autonomia
Carla destaca que, além da falta de oportunidades, ainda há expectativas muito baixas sobre o potencial dessas pessoas. “O empreendedorismo surge como uma possibilidade concreta de autonomia, de construção de identidade, de renda e de pertencimento. E, como mãe da Manu, eu precisava atuar nesse lugar, ajudando quem está buscando oportunidades agora e também construindo um futuro para a minha filha e para tantos outros jovens”.
De acordo com a fundadora, o objetivo central do Transformar é Incluir vai além de gerar renda: “É sobre desenvolver habilidades, fortalecer autoestima, criar repertório e abrir caminhos reais para que essas pessoas sejam protagonistas da própria história”, salienta.
Ela destaca também: “O empreendedorismo tem um papel muito potente porque ele parte da pessoa, do interesse dela, daquilo que ela gosta de fazer. Isso muda completamente a lógica. A gente deixa de encaixar a pessoa num modelo e passa a construir um modelo a partir dela. Isso gera autonomia, senso de responsabilidade, reconhecimento social e pertencimento. Mas, para isso acontecer com a pessoa empreendedora que tem deficiência intelectual é necessário acessibilidade na comunicação e nossa sociedade nem sempre está preparada ou olhando sob essa ótica”.
Por isso, a empreendedora cita outro ponto importante: “Quais cursos você conhece para empreendedores que o fazem uso de linguagem simples? Pessoas com deficiência intelectual precisam de recursos de acessibilidade comunicacional, e faz parte dos nossos objetivos que elas tenham acessibilidade para então desenvolverem autonomia, dignidade, pertencimento e geração de renda”, salienta.
Como o projeto funciona na prática
Atualmente, o projeto reúne 16 empreendedores, a maioria com Síndrome de Down, além de participantes autistas com deficiência intelectual. O apoio começa desde as primeiras etapas do negócio. “Na prática, ajudamos a estruturar o produto, pensar preço, embalagem, comunicação e também ensinamos sobre finanças, vendas e até temas ligados ao impacto ambiental. Além disso, conectamos os empreendedores a oportunidades reais de venda, como feiras e eventos corporativos”, afirma Carla.
As famílias também têm um papel importante nesse processo. Segundo ela: “A grande maioria é acompanhada pelas famílias, muitas vezes mães solos e já em idades mais avançadas, que acabam empreendendo junto”.
A capacitação é outro pilar essencial do projeto. As formações são adaptadas e focadas na prática: “Usamos linguagem simples, repetição, apoio visual e aprendizagem fazendo. Não é só teoria, é mão na massa de verdade”, salienta.
As inscrições para novos participantes costumam ser divulgadas nas redes sociais do projeto (@conectadiversidade e também no perfil @caminhoscommanu) e são destinadas a pessoas com deficiência intelectual que tenham uma ideia de negócio ou produto. A expectativa é que, ainda este ano, seja aberto um novo período de inscrições para a entrada de novos empreendedores.
Histórias que desafiam estereótipos
Ao longo do projeto, muitas histórias têm mostrado como o empreendedorismo pode transformar realidades. Carla conta que alguns jovens empreendedores já contribuem financeiramente em casa, algo que ainda surpreende muitas pessoas.
“As famílias começam a enxergar essas pessoas de outra forma, com mais expectativa de futuro. E, principalmente, são pessoas que se veem pertencentes a uma sociedade que as exclui historicamente. Temos participantes que ajudam a pagar contas importantes da família, como mercado ou impostos. Outros são responsáveis financeiros diretos dentro de casa. Algo que, no imaginário da sociedade, muitas vezes parece impossível, mas é real!”. Além do impacto financeiro, ela destaca que um dos principais ganhos para essas pessoas com deficiência intelectual está na mudança comportamental e na melhora da autoestima.
“Vemos jovens mais empoderados, comemorando vendas e fazendo planos, desde coisas simples, como ir ao salão fazer as unhas, até planejar uma viagem ou investir no próprio negócio”, emociona-se a fundadora.
Desafios ainda presentes
Apesar dos avanços, Carla aponta que o principal desafio ainda é o capacitismo, quando a sociedade subestima ou duvida da capacidade das pessoas com deficiência. “A barreira atitudinal é um dos principais desafios, uma vez que muita gente ainda não acredita no potencial dessas pessoas. Além disso, falta acesso a formação acessível, apoio estruturado e oportunidades reais de comercialização”.
Ela complementa: “Muitas pessoas ainda pensam que acessibilidade é só rampa ou banheiro adaptado. Mas pessoas com deficiência intelectual precisam também de uma linguagem simples e de uma sociedade que as enxergue como capazes.”
Para Carla, projetos como o Transformar é Incluir têm um papel fundamental na mudança de percepção social. “Eles mostram, na prática, que é possível. Quebram estereótipos, geram renda e colocam essas pessoas em um lugar de protagonismo. Quando a sociedade encontra essas pessoas nesse lugar produtivo, ela repensa seus conceitos”.
Ela também acredita que as novas gerações de pessoas com Síndrome de Down terão trajetórias diferentes, especialmente por conta de mudanças recentes nas políticas de inclusão educacional: “Muita gente pergunta sobre ‘nível’ de pessoas com Trissomia 21, e eu sempre explico que não existem níveis, existem oportunidades. A geração da minha filha, que hoje tem 8 anos, provavelmente terá uma realidade diferente, porque hoje há mais acesso à escola regular e a oportunidades. Um exemplo, é que a LBI é de 2015, e somente após essa data as escolas públicas e privadas foram obrigadas a receber pessoas com deficiência em salas de aula regular, ou seja, boa parte dos empreendedores que estão conosco não estudaram em escolas regulares com pessoas com e sem deficiência. Falta muito para avançarmos e é tudo muito recente, mas eu acredito que o que precisamos para que pessoas com T21 ou outras deficiências intelectuais possam se desenvolver são as oportunidades. E eu acredito que o melhor caminho para isso é através do empreendedorismo”.
O próximo passo do projeto é ampliar sua atuação para outras regiões do país e fortalecer parcerias com empresas e organizações. “A ideia agora é escalar o projeto, sair de São Paulo e avançar pelo Brasil, criando mais oportunidades de comercialização e estruturando melhor a jornada formativa dos empreendedores. Também temos planos de incluir outros públicos, como a comunidade surda”.
Carla destaca ainda: “As pessoas podem apoiar o Transformar é Incluir de várias formas: contratando o projeto dentro das empresas, comprando dos empreendedores, abrindo espaços em eventos e também divulgando. Visibilidade é muito importante. Aliás, estamos buscando patrocínio, se alguém quiser conversar, estou à disposição”.
Inclusão também é combater a solidão
Quanto à data de conscientização da Trissomia 21, Carla Schultz deixa a seguinte mensagem: “Neste Dia Internacional da Síndrome de Down, o tema escolhido pela Down Syndrome Internacional para 2026 foi “Together Against Loneliness” (Juntos contra a solidão) e no Brasil ele foi traduzido e adaptado como: “Amizade, acolhimento, inclusão… Xô solidão!” – o que chama atenção para algo muito real: muitas pessoas com deficiência intelectual vivem uma solidão que não é sobre estar sozinho, mas sobre não ter espaço de participação na sociedade. E o trabalho tem um papel fundamental nisso. Porque o trabalho traz dignidade, traz reconhecimento, traz troca, traz pertencimento. Ele coloca a pessoa em movimento, em relação com outras pessoas, com clientes, com o mundo.
Quando uma pessoa com Síndrome de Down tem a oportunidade de produzir, de vender, de ser reconhecida pelo que faz, ela deixa de ocupar um lugar de invisibilidade e passa a ocupar um lugar de valor.
Então combater a solidão também passa por garantir dignidade no trabalho. Por abrir caminhos reais para que essas pessoas participem, contribuam e sejam vistas como parte ativa da sociedade. Porque inclusão de verdade é isso: é conexão, é autonomia e é dignidade”.
Saiba mais:
https://www.instagram.com/caminhoscommanu/


