Dia Global de Conscientização sobre Acessibilidade: um dia de reflexão sobre o acesso e a inclusão de todos

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Foto com uma luz de final de tarde de um senhor atravessando uma avenida pela faixa de pedestre, empurrando uma cadeira de rodas reclinada onde vemos um rapaz

O Dia Global de Conscientização sobre Acessibilidade é celebrado toda terceira quinta-feira do mês de maio. Por isso, neste ano, em sua 11ª edição, o dia 19 de maio propõe falar, pensar e aprender sobre o acesso e a inclusão digital, principalmente às pessoas com deficiência. 

Lançado em 2012, trata-se de um movimento mundial (Global Accessibility Awareness Day, GAAD), cujo propósito é envolver a indústria de design, tecnologia e suas comunidades para que pensem no desenvolvimento de soluções para melhorar a acessibilidade dos usuários. De acordo com a página oficial do GAAD, são mais de 1 bilhão de pessoas com deficiência em todo o mundo e, por isso, é fundamental chamar a atenção para a data e as necessidades das pessoas. O site da organização cita, por exemplo, as deficiências mais comuns e suas necessidades, como os cegos, que precisam de descrições de texto alternativas para imagens significativas e usam o teclado e não o mouse para interagir com elementos interativos; as surdas ou com deficiência auditiva, que precisam de legendas para apresentações de vídeo e indicadores visuais no lugar de dicas de áudio; aquelas com com deficiências motoras podem precisar de teclados alternativos, controle visual ou algum outro hardware adaptável para ajudá-los a digitar e navegar em seus dispositivos; ou com deficiência cognitiva, que precisam de uma tela organizada, navegação consistente e o uso de linguagem simples.

“Desde 2011 eu trabalho e me comunico por meio de um leitor óptico que interpreta os movimentos da pupila e funciona como um mouse. Por meio do leitor óptico, consigo acessar a internet, abrir os e-mails, escrever, fazer planilhas e apresentações, ou seja, praticamente tudo que fazia antes, porém mais devagar. A tecnologia assistiva é fundamental na minha vida, certamente a ferramenta mais importante que tenho para trabalhar, socializar e me comunicar. Eu tenho o leitor óptico desde antes de perder todos os movimentos da mão, então foi uma transição tranquila. Além desse recurso óptico, uso um teclado virtual para escrever, chamado vkeyboard, que baixei gratuitamente no site do Ministério das Comunicações em 2011, e um programa que transforma texto em voz, o Text Aloud, que é uma licença paga que adquiri há uns anos”, explica Ricky Ribeiro, diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) há 14 anos, quando tinha 28 anos e acabava de voltar de Barcelona, onde fez mestrado em sustentabilidade. A partir da nova realidade e com a expertise adquirida no exterior, Ricky criou o Mobilize Brasil, maior portal sobre mobilidade urbana sustentável (de calçadas acessíveis a um transporte público de qualidade).

Surgimento do Mobilize Brasil

E falar do Dia Global de Conscientização de Acessibilidade também traz reflexões em relação à acessibilidade e mobilidade urbana, propostas por Ricky Ribeiro por meio do Mobilize Brasil. 

Foto de um rapaz jovem sorridente com mochila nas costas andando de bicicleta por uma rua de Barcelona

Formado em administração pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricky revela que na época da faculdade, ele não conhecia muito sobre mobilidade urbana sustentável e seus principais interesses eram meio ambiente, educação, cultura, e cidadania. “Esses temas tiveram papel importante na criação da Associação Abaporu, OSCIP que eu e dois amigos da faculdade fundamos aos 22 anos. Mas desde que morei em Barcelona para cursar o mestrado em sustentabilidade, urbanismo e mobilidade urbana se tornaram uma grande paixão, porque minha vida mudou radicalmente para melhor na Europa, muito por causa da disposição urbana da cidade e da grande oferta de mobilidade. No Brasil, eu morava afastado de São Paulo, mas fazia faculdade na região da Paulista. Eu acabava dirigindo, em média, 70 quilômetros por dia. Em Barcelona eu também estudava em outra cidade, mas lá eu ia pedalando até a estação, colocava a bicicleta dentro do trem, e continuava pedalando numa região proibida para carros, com diversos pedestres e uma praça repleta de crianças correndo. Para quem antes passava horas dirigindo, fiquei meses sem entrar em um carro nem uma única vez. E não sentia nenhuma falta. Ao contrário, estava mais saudável, com muita disposição e, principalmente, mais feliz. Eu queria que todos tivessem a oportunidade de vivenciar os mesmos benefícios e estilo de vida que eu tinha experimentado durante dois anos e meio. Por isso, quando voltei de Barcelona, sempre que andava pelas ruas do Brasil, fosse em São Paulo, Recife, Rio, ou em outra cidade, de bicicleta, ônibus ou a pé, eu ia projetando mentalmente ciclovias, estruturas para o transporte coletivo e, é claro, as calçadas. Então, ao escolher um tema para me dedicar quando me vi mais perto da morte por conta do diagnóstico da ELA, não tive dúvidas que seria mobilidade urbana sustentável”, explica Ricky sobre a ideia que deu origem ao premiado Mobilize Brasil.

“Passei a usar a bicicleta direto mesmo depois de voltar ao Brasil, em uma época que praticamente não existiam ciclovias nas cidades do país. De lá pra cá, a extensão da estrutura cicloviária de várias cidades brasileiras aumentou bastante, trazendo mais segurança viária para os ciclistas. Ainda precisa melhorar muito, mas é uma das poucas áreas da mobilidade urbana que vêm evoluindo constantemente na última década. As ciclovias também beneficiam as pessoas com deficiência. Eu mesmo já circulei diversas vezes com a cadeira de rodas motorizada”, diz. E é por conta dela, que pesa 200 quilos, que Ricky relata que enfrentou e enfrenta muitos desafios em relação à acessibilidade e mobilidade.

Foto de um rapaz de óculos escuros andando por uma ciclovia com sua cadeira de rodas motorizada e um pouco reclinada para trás.

“Com isso, qualquer degrau ou calçada sem rampa pode ser um impeditivo pra mim. São raríssimos os lugares que eu posso circular pela calçada, sem precisar andar na rua. Antes de ir a qualquer local, preciso que alguém filme o acesso com antecedência para verificar se eu posso ir. No mês passado, fui convidado para a festa de 15 anos da filha de um amigo, mas não pude ir porque o buffet tinha escada. Eu também não consigo visitar um outro grande amigo porque o elevador do prédio dele é pequeno. Nos primeiros anos da doença, eu usava uma cadeira de rodas comum e enfrentei inúmeros outros obstáculos. Uma vez, andando na região da Avenida Faria Lima, uma das mais nobres de São Paulo, a cadeira de rodas empacou em um buraco e eu voei pra frente, caindo no chão. Nessa época, também tive problemas usando transporte público. Quando o ônibus tinha estrutura adequada, muitas vezes o motorista não estava bem treinado: acelerava e freava bruscamente, tornando a viagem desagradável e perigosa. Já no metrô e, principalmente nos trens, o desafio era atravessar o grande vão que separa a plataforma dos vagões. Eu relato esses e outros exemplos no meu livro “Movido pela Mente – Sem se mover, ele criou o maior portal de mobilidade urbana do Brasil” (escrito em conjunto com a escritora Gisele Mirabai)”, diz. (O livro está à venda no link: https://www.amazon.com.br/Movido-pela-Mente-portal-mobilidade-ebook/dp/B078D7KCK5).

Mas, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a ideia do portal não surgiu logo após o diagnóstico. “Primeiro, eu e minha família fomos atrás de diversos tratamentos e também fiz muitas viagens enquanto podia. Depois de dois anos, na virada do ano de 2010 para 2011, parei para refletir e me questionar sobre o que desejava fazer com a minha vida. Os tratamentos não tinham surtido efeito e já estava bem difícil sair de casa ou viajar. Eu queria fazer algo que me fizesse sentido, queria me sentir útil para a sociedade novamente, quem sabe deixar um legado. Passei a pesquisar bastante sobre mobilidade urbana, tema que me fascinava pela experiência que tive em Barcelona. Com a dificuldade motora nas mãos, fazia um esforço enorme para buscar conteúdo espalhado pela internet. Ao me deparar com muitas informações dispersas, me veio a ideia de criar um portal para agregar, produzir e disseminar conteúdo relacionado à mobilidade urbana sustentável. Na hora, também tive a ideia do nome: seria Mobilize, palavra que juntava mobilidade e mobilização, dois conceitos muito importantes na minha proposta. Eu tive a ideia no início de janeiro e o portal foi ao ar em setembro, na Semana da Mobilidade. Foram quase nove meses, praticamente uma gestação”, brinca.

Foto de um palco onde vemos uma mulher com microfone na mão, e mais quatro rapazes, um deles cadeirante. Todos estão vestidos com roupas sociais.

Além de ser o maior portal de informações sobre a mobilidade urbana sustentável, realizar palestras, oficinas, estudos e avaliações sobre mobilidade sustentável para órgãos públicos e empresas, o Mobilize Brasil realizou duas edições da campanha Calçadas do Brasil (em 2012/13 e 2018/19). Com grande repercussão na mídia, chegaram a impactar até mesmo algumas prefeituras que reformaram calçadas mal avaliadas nas campanhas. “No momento, o Mobilize está realizando o Estudo Mobilize 2022, um levantamento da mobilidade urbana nas 27 capitais brasileiras que também contempla acessibilidade. Entre os pontos avaliados estão: calçadas acessíveis, faixas de pedestres, semáforos sonoros, gratuidades no transporte público, ônibus acessíveis, táxis adaptados, segurança viária, entre outros. Trata-se de um trabalho bem completo, que envolve diversas ações, desde a busca de dados em fontes nacionais e por meio de formulários enviados às prefeituras, até um trabalho de campo com colaboradores locais vivenciando e relatando deslocamentos na prática. Além disso, há um profundo e caprichoso trabalho jornalístico, com matérias e entrevistas, que já estão sendo publicadas no portal”, explica Ricky.

Em relação à luta da pessoa com deficiência por mais acessibilidade, além das campanhas mencionadas sobre calçadas e estudos abordando temas envolvendo acessibilidade, o portal publica matérias e conta com colunistas cadeirantes – como Mara Gabrilli, Mila Guedes e Raquel Paoliello –, além de realizar palestras e diversas outras ações. 

“No segundo semestre, como em todas as eleições, iremos fazer uma avaliação das propostas de mobilidade urbana e acessibilidade dos principais candidatos. E no ano passado, para comemorar os 10 anos do portal, realizamos o II Concurso Mobilize de Ilustrações que apresentou lindos trabalhos. Vale a pena conferir!”, explica o fundador. 

Para Ricky, o dia de hoje é uma oportunidade importante de reflexão e ele deixa a seguinte mensagem: “A acessibilidade deve ser pensada contemplando todos, não só cadeirantes, mas também idosos, crianças, pessoas com malas, carrinho de bebê ou carrinho de feira, e mesmo adultos saudáveis. Entretanto, se o planejamento for feito pensando em alguém de cadeira de rodas ou com andador, muito provavelmente também servirá para todos os demais. Como diz o Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá: “uma cadeira de rodas é a máquina do planejamento urbano”.

@ribeiro_ricky

https://www.mobilize.org.br/

Posts Relacionados

Michel Sallouti

Michel Sallouti: um artista inquieto e determinado, mesmo depois do diagnóstico de ELA

O diagnóstico da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é desafiador para quem o recebe, porém, para o artista plástico Michel Sallouti, renomado diretor de filme publicitário e premiado na década de 70, ao invés de se abater, decidiu se antecipar às etapas da doença e, com sua criatividade ímpar, passou a adaptar tudo o que podia em sua rotina para facilitar os seus movimentos que começavam a ser prejudicados.

Leia mais »
Foto em close de um olho castanho de uma criança

Como a cegueira realmente é: raramente é absoluta, é um espectro

Quando a maioria das pessoas com visão pensa em “cegueira”, elas pensam em um mundo em total escuridão. Mas, isso está longe de ser verdade. Uma variedade de doenças oculares, distúrbios genéticos e defeitos congênitos, bem como o envelhecimento ou quando há uma lesão, podem interferir na visão saudável.
E essas deficiências visuais causam impactos diferentes no campo de visão.

Leia mais »

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *