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Autonomia possível: a experiência de Alice Casimiro ao construir sua vida fora da casa dos pais

Foto de Alice sorrindo, fazendo o sinal de paz & amor em uma paisagem de um skyline de natureza

No dia 2 de abril, quando o mundo se mobiliza para o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, histórias reais ajudam a transformar estatísticas em rostos, sentimentos e trajetórias. A de Alice Casimiro, 27 anos, escritora e redatora, autista nível 2 de suporte e moradora do Rio de Janeiro, é uma delas. Sua caminhada mostra que autonomia não significa caminhar sozinha, mas encontrar, ao longo do caminho, mãos que apoiam, escutam e ajudam a sustentar cada passo.

Em 2023, Alice deixou a casa dos pais. A decisão veio depois de conquistar o primeiro emprego e iniciar um processo mais estruturado de acompanhamento profissional. Ao seu redor, havia uma rede de cuidado formada por terapeuta ocupacional, psicólogas, profissionais de integração sensorial e amigas que ajudaram a tornar possível esse momento de mudança.

Segundo ela, ter um espaço próprio representou muito mais do que uma mudança de endereço: “Apesar dos desafios, minha saúde mental ficou bem melhor depois que saí da casa dos meus pais”, conta.

Dividir a casa, dividir a vida

Para dar início a essa nova fase, que representava a realização de um sonho muito esperado, a jovem alugou um quarto no apartamento de outra moça, onde viveu por cerca de dois anos. Mais tarde, ao se mudar novamente, chegou a dividir o espaço com a mãe por um período, em um momento de transição.

Com a perda do emprego, surgiram novas incertezas. Ainda assim, Alice não abriu mão do desejo de continuar construindo sua vida fora da casa dos pais. Para tornar isso possível enquanto estava desempregada, ela percebeu que precisaria dividir o apartamento e compartilhar as despesas. Foi nesse contexto que Clarissa apareceu em sua vida: interessada na vaga para dividir o lar, ela foi conhecer o apartamento e, aos poucos, as duas começaram a construir uma convivência baseada em apoio e parceria.

E, então, decidiram morar juntas e o que sustenta a convivência é algo simples e humano: cuidado mútuo. “A Clarissa e eu ajudamos uma à outra dentro do limite de cada uma”, diz Alice.

Mesmo com a conquista de uma vida mais independente, Alice nunca precisou abrir mão da sua rede de apoio, pelo contrário. Profissionais, amigas, cuidadora e familiares seguem presentes, ajudando nas tarefas do dia a dia: da organização da casa ao controle financeiro, das idas à rua às decisões mais desafiadoras.

Entre desafios e acolhimento

Sair da casa dos pais também trouxe momentos delicados. As crises e períodos de maior vulnerabilidade emocional fazem parte da realidade que Alice enfrenta. Ainda assim, ela lembra com gratidão das pessoas que estiveram ao seu lado. “Muitas vezes, o suporte veio de profissionais que ofereceram atendimentos gratuitos ou com valores sociais. Na primeira moradia fora da casa dos meus pais, tive o apoio de uma acompanhante terapêutica e de uma amiga que morava na mesma rua – presenças que ajudaram a tornar o processo menos solitário”, destaca.

Hoje, sua cuidadora Donana faz parte da rotina duas vezes por semana. Antes eram três dias, mas Alice explica que foi preciso reduzir após a mudança de casa. Atualmente, a escritora mantém acompanhamento semanal em psicoterapia na abordagem cognitivo-comportamental.

A família segue por perto

Mesmo depois de sair de casa, Alice fez questão de morar perto dos pais. A escolha foi pensada com cuidado e, claro, com muito diálogo entre eles.

A ideia inicial era que ela morasse sozinha e recebesse apoio pontual da mãe, mas a realidade foi pedindo ajustes ao longo do caminho. “E tudo bem: autonomia também é isso, encontrar novas formas de seguir”, salienta Alice.

Os pais continuam presentes em momentos importantes: acompanhando consultas, ajudando em situações de emergência, comprando algo no mercado ou participando de eventos ao lado dela. Pequenos gestos que, para a escritora, fazem toda a diferença.

Trabalho, rotina e afeto em casa

Hoje, Alice trabalha de forma remota, o que ajuda a equilibrar melhor sua rotina. Parte das tarefas domésticas conta com a ajuda da cuidadora Donana, enquanto ela mesma cuida de atividades do cotidiano e de um ser muito especial: sua gatinha Claire.

“Alimentar, trocar água, limpar a caixa de areia e acompanhar o bem-estar dela fazem parte da rotina que eu consigo conciliar com o trabalho em casa”, conta. São gestos simples, mas que também representam responsabilidade, carinho e companhia.

Três gatinhas, um processo de adaptação

Com o tempo, a casa ganhou novas moradoras: Marie e Chiquinha, gatinhas da Clarissa. A chegada delas trouxe um novo desafio e também um aprendizado sobre convivência: no começo, Claire estranhou. Afinal, por muito tempo ela havia sido a única gata da casa. A adaptação precisou acontecer com calma: separação de ambientes, troca de cheiros, encontros supervisionados.

Até hoje, Marie e Chiquinha circulam perto de Claire com supervisão. A experiência foi facilitada pelo olhar atento de Clarissa, que trabalha em um abrigo de gatos e conhece bem os caminhos delicados da adaptação entre animais.

Autonomia também é construir rede

A história de Alice revela algo essencial sobre autismo na vida adulta: a autonomia não é um modelo único. Ela pode ser construída de maneiras diferentes, em ritmos próprios e com o apoio de muitas pessoas. Entre tentativas, ajustes e conquistas, Alice segue construindo seu espaço no mundo com coragem, sensibilidade e apoio ao redor.

Em uma data dedicada à conscientização, histórias como a dela ajudam a ampliar o olhar sobre o espectro autista. Porque, mais do que independência absoluta, o que aparece em sua trajetória é algo profundamente humano: o desejo de viver com dignidade, fazer escolhas, ser respeitada em suas necessidades e, acima de tudo, ter seu espaço para florescer. 

Por isso, neste Dia Mundial de Conscientização do Autismo, Alice deixa uma mensagem sincera e cheia de esperança para quem também sonha em sair da casa dos pais e construir o próprio caminho:

“É tudo uma questão de conseguir acesso ao suporte adequado. Infelizmente, esse suporte muitas vezes depende de dinheiro — às vezes bastante — ou da generosidade de pessoas que ajudam por um valor menor ou até sem custo. Por isso, não desistam. Mesmo com tanta coisa difícil no mundo, ainda existem pessoas boas dispostas a ajudar na conquista dos nossos sonhos”, ressalta.

Para Alice, mais do que falar sobre independência, é importante lembrar que ninguém precisa caminhar sozinho e que, com apoio e persistência, caminhos que parecem distantes podem, sim, se tornar possíveis. 

E é esse apoio às pessoas autistas que ela também destaca em seu Instagram, @alicenopaisdoautismo, que reúne mais de 47 mil seguidores, com quem compartilha textos, reflexões e vivências que dialogam com a comunidade: “Você pode acessar meus textos gratuitamente. É por meio deles que me expresso e tento apoiar a comunidade da forma que consigo”, explica. Alice conta que quem quiser fortalecer seu trabalho também pode fazê-lo de diferentes maneiras: encomendando textos, contribuindo com qualquer valor via Pix (alicinha_casimiro@msn.com) ou simplesmente ajudando a divulgar meus conteúdos e minha página. Se não puder doar, compartilhar já ajuda muito”, destaca.

Redação Civiam

Entrevistas, histórias reais e conteúdo sobre diversos aspectos ligados às Tecnologias Assistivas e à educação na saúde.

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