Quando escrever é um direito e a tecnologia pode garantir voz a estudantes com paralisia cerebral

No Dia Nacional da Luta pela Educação Inclusiva (14/4), a reflexão vai além do acesso à escola. Estar matriculado não é o mesmo que participar: para muitos estudantes com deficiência, o principal desafio não está na capacidade de aprender, mas na possibilidade de se expressar, especialmente por meio da escrita, uma das bases da vida escolar.

Esse é o tema central da tese de Mestrado “Produção Textual Mediada por Tecnologia Assistiva: uma análise bibliográfica sobre Eye Tracking e Collabits na inclusão educacional de estudantes com paralisia cerebral na Educação Básica”, de Marcela Conceição da Silva Sena*, defendida no início de março no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Segundo ela, o objetivo é discutir como ferramentas tecnológicas podem transformar o acesso à escrita, à comunicação e à participação escolar de estudantes com paralisia cerebral.
“Minha vivência com Pedro foi o ponto de partida, mas não foi o único fator. O que realmente me mobilizou foi perceber que a inclusão, na prática, ainda é muito limitada. O estudante com deficiência está na escola, mas não necessariamente participa. No caso da paralisia cerebral, muitas vezes o problema não é cognitivo, é de acesso. E quando o estudante não consegue escrever, ele fica fora de uma das principais formas de participação na escola. Foi isso que me fez olhar para a produção textual como algo central, não secundário”, destaca Marcela, que é mãe de Pedro, 14 anos, que tem paralisia cerebral e utiliza o controle ocular com maestria para se comunicar, estudar, pesquisar e ser DJ – o DJ Peu! (https://www.instagram.com/djpeu.oficial/)
Quando o problema não é aprender, mas acessar
A pesquisa parte de uma constatação comum, mas ainda pouco enfrentada: muitos estudantes com deficiência estão fisicamente na escola, mas excluídos das práticas centrais de aprendizagem. No caso da paralisia cerebral, isso se torna ainda mais evidente.
“Eu quis entender como a literatura científica está tratando a relação entre tecnologia assistiva, escrita e inclusão escolar. Na prática, eu investiguei se essas tecnologias estão sendo usadas só para permitir acesso ao computador ou se estão realmente sendo pensadas dentro de práticas pedagógicas de escrita e aprendizagem”, destaca a pesquisadora.
Segundo ela, quando o estudante não consegue escrever, seja por limitações motoras severas, como as de Pedro, ou pela ausência de recursos adequados, ele acaba sendo afastado de atividades essenciais, como responder exercícios, produzir textos e desenvolver seu pensamento. Nesse cenário, a escrita deixa de ser apenas uma habilidade acadêmica e passa a ser um marcador de participação.
Marcela conta também como foi realizado o estudo: “A construção da pesquisa foi muito intencional. Antes de partir para uma investigação empírica, eu percebi que precisava fortalecer melhor a base teórica e entender como esse tema já vinha sendo tratado na literatura. Então, optei por organizar a dissertação em formato multipaper com dois artigos que cumprem funções diferentes, mas complementares. O primeiro artigo é uma revisão sistemática, onde eu fui mapear o que já existe sobre o uso do Eye Tracking (controle ocular) na produção textual. Isso me permitiu identificar tendências, limites e, principalmente, lacunas no campo. A partir disso, o segundo artigo assume um caráter teórico. Nele, eu amplio a discussão, trazendo referenciais como Science of Learning e abordagens mais contemporâneas da educação digital, para pensar em que condições essa tecnologia pode, de fato, contribuir para a aprendizagem e para a participação na escola. No fim, a articulação entre os dois artigos sustenta justamente essa ideia: a tecnologia já avançou, mas ainda falta um aprofundamento pedagógico mais consistente”.
Escrever com o olhar: tecnologia que abre caminhos
Entre as tecnologias analisadas, o Eye Tracking (controle ocular) se destaca por permitir que o estudante escreva utilizando apenas o movimento dos olhos. “Para pessoas com comprometimento motor severo, isso representa uma mudança radical. O estudante deixa de depender de outra pessoa para escrever e passa a produzir diretamente. E o ponto central não é só sobre digitar. É sobre poder participar da escola, responder atividades, construir ideias, se expressar”, salienta Marcela.

Por isso, mais do que viabilizar a digitação, a ferramenta devolve autonomia e protagonismo. De acordo com a pesquisa, as plataformas digitais colaborativas, juntamente com a tecnologia assistiva, são fundamentais, como o Collabits, uma plataforma educacional voltada para o ensino híbrido, focada em promover metodologias ativas, colaboração e avaliação formativa. Ele facilita a organização de conteúdos, a interação entre alunos e professores, e a coleta de dados de aprendizado em tempo real para tomada de decisões pedagógicas.
“Essas plataformas ampliam ainda mais as possibilidades de interação, permitindo que esses estudantes não apenas escrevam, mas também construam conhecimento em conjunto com colegas e professores”, explica a pesquisadora.
Avanços tecnológicos, desafios pedagógicos
A literatura científica já reconhece o potencial dessas tecnologias para ampliar a comunicação e o acesso ao computador. No entanto, Marcela ressalta que a pesquisa evidencia uma lacuna importante: o uso pedagógico ainda não acompanha o avanço técnico.
De acordo com a pesquisadora, em muitos casos, a tecnologia assistiva é tratada como um recurso isolado, voltado à funcionalidade (clicar, selecionar, digitar), mas desconectado das práticas reais de ensino e aprendizagem – o que revela um problema central: há uma distância significativa entre o que a tecnologia permite e o que, de fato, acontece na sala de aula. “A principal lacuna que identifiquei durante a pesquisa foi que a tecnologia está sendo pensada isoladamente. Fala-se muito de usabilidade, de interface, de acesso… mas pouco de escrita como prática social, de aprendizagem, de participação na escola. Existe uma distância grande entre o que a tecnologia permite e o que acontece dentro da sala de aula”, ressalta.
A mediação pedagógica como chave da inclusão
O estudo também dialoga com conceitos como Science of Learning, pedagogias pós-digitais e aprendizagem hiper-híbrida. “Essas abordagens ajudam porque deslocam o debate da tecnologia em si para a organização da aprendizagem. A Science of Learning, especialmente com os quatro pilares da aprendizagem, mostra que aprender envolve processos ativos, significativos, sociais e engajados. Já as pedagogias pós-digitais e a noção de aprendizagem hiper-híbrida ajudam a compreender que a educação de hoje não pode mais ser pensada em divisões rígidas entre presencial e digital, ou entre tecnologia e pedagogia. No contexto da inclusão, isso é decisivo. Essas perspectivas permitem entender que a inclusão não depende apenas da presença de um recurso assistivo, mas de como o ambiente é organizado para que o estudante participe, interaja, produza e circule socialmente no processo de aprendizagem. Essas abordagens mostram que a inclusão educacional hoje exige pensar aprendizagem como processo relacional, distribuído e sociomaterial. Não basta entregar a tecnologia. É preciso desenhar ambientes em que ela faça sentido pedagógico”, enfatiza Marcela.
Por isso, a pesquisadora destaca: “Entender que acesso não é sinônimo de aprendizagem é um dos argumentos centrais da dissertação. Um estudante pode até ter diante de si um dispositivo sofisticado, como o Eye Tracking, mas, se ele não estiver inserido em práticas pedagógicas intencionais, a tecnologia tende a ficar restrita ao campo da funcionalidade. A mediação pedagógica é o que transforma o uso técnico em experiência formativa. É ela que define objetivos, propõe atividades, organiza interações, cria contextos de produção textual e sustenta o estudante no processo de construir sentidos”.
Marcela sugere também que para os professores poderem integrar essas tecnologias em práticas de produção do conhecimento na escola é preciso que parem de pensar na tecnologia como adaptação e passem a incluí-la no planejamento desde o início. “Não é adaptar depois. É planejar já considerando diferentes formas de participação. Quando isso acontece, o estudante não fica à margem. Ele passa a fazer parte do processo”.

A pesquisadora aborda ainda as mudanças que precisam acontecer de forma prioritária nas escolas: “Primeiro, é preciso mudar a compreensão do que é inclusão. No caso de estudantes com paralisia cerebral, isso é especialmente grave, porque frequentemente suas limitações motoras são tomadas como se fossem limitações cognitivas, o que reduz expectativas pedagógicas e restringe oportunidades reais de aprendizagem. Segundo, as escolas precisam reorganizar ambientes, práticas e tempos. Precisam garantir recursos de acessibilidade, tecnologias adequadas, acessibilidade curricular, planejamento intencional e espaços de participação. Também precisam reconhecer a escrita como um direito e como eixo central da escolarização, não como privilégio de quem consegue responder nos formatos tradicionais. Em resumo, isso significa rever a organização pedagógica, investir em tecnologias assistivas, qualificar o trabalho docente e criar propostas em que esses estudantes possam produzir, interagir e circular com suas ideias”.
Além disso, Marcela cita a necessidade das políticas públicas enfrentarem o problema de forma estrutural. “Não basta distribuir equipamentos de forma pontual. É preciso garantir condições concretas de implementação. Isso inclui investimento em aquisição e manutenção de tecnologias assistivas, formação continuada de professores, suporte técnico, acessibilidade digital, adaptação curricular e acompanhamento pedagógico. Também é necessário que as políticas tratem a inclusão como direito à participação e à aprendizagem, e não apenas como matrícula. Isso significa criar condições para que a tecnologia esteja efetivamente integrada ao cotidiano das escolas, e não fique restrita a salas específicas, projetos isolados ou ações eventuais”.
Direito à escrita é direito à participação
A pesquisa parte do princípio de algo fundamental: escrever não é um privilégio, é um direito. “Espero que a pesquisa contribua, primeiro, ao deslocar o debate sobre Tecnologia Assistiva de uma perspectiva estritamente técnica para uma perspectiva pedagógica e sociomaterial. Esse deslocamento é importante porque ajuda a recolocar a inclusão no terreno da aprendizagem, da participação e da produção de conhecimento. Também espero contribuir ao mostrar que a produção textual precisa ser tratada como dimensão central da inclusão educacional. Muitas vezes, o debate sobre deficiência e tecnologia fica restrito à comunicação funcional ou ao acesso instrumental. Minha pesquisa tenta mostrar que escrever, produzir sentidos e participar de práticas de linguagem também são direitos fundamentais. Além disso, minha dissertação sistematiza literatura, identifica lacunas e oferece base conceitual para pesquisas futuras, inclusive investigações empíricas”, enfatiza.
Neste Dia Nacional da Luta pela Educação Inclusiva, a pesquisadora Marcela Sena deixa a seguinte mensagem: “Não reduzam esses estudantes ao que o corpo não faz. Existe pensamento, intenção, desejo de participar, mesmo quando isso não aparece nos formatos tradicionais da escola. Como pesquisadora, o que eu encontrei foi um campo que já avançou na tecnologia, mas que ainda precisa avançar na forma como organiza a aprendizagem. E como mãe, tenho o privilégio de ver meu filho se comunicar, de expressar o que ele pensa. Mas sei que essa não é a realidade de muitas famílias. E isso não significa ausência de capacidade, mas, sim, falta de condições. Não é sobre esforço individual ou superação e sim sobre estrutura. A escola precisa parar de esperar adaptação e começar a garantir participação real. Porque quando existem condições, o que aparece não é limitação. É potência”.

Neste Dia Nacional da Luta pela Educação Inclusiva, a pesquisadora Marcela Sena deixa a seguinte mensagem: “Não reduzam esses estudantes ao que o corpo não faz. Existe pensamento, intenção, desejo de participar, mesmo quando isso não aparece nos formatos tradicionais da escola. Como pesquisadora, o que eu encontrei foi um campo que já avançou na tecnologia, mas que ainda precisa avançar na forma como organiza a aprendizagem. E como mãe, tenho o privilégio de ver meu filho se comunicar, de expressar o que ele pensa. Mas sei que essa não é a realidade de muitas famílias. E isso não significa ausência de capacidade, mas, sim, falta de condições. Não é sobre esforço individual ou superação e sim sobre estrutura. A escola precisa parar de esperar adaptação e começar a garantir participação real. Porque quando existem condições, o que aparece não é limitação. É potência”.
* Marcela Conceição da Silva Sena é graduada em Letras (Português e Espanhol) e servidora pública da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Possui especialização em Gestão Pública pela UFPE e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática da mesma instituição. Ela integra também o Grupo de Pesquisa em Educação, Políticas Públicas, Inovação e Tecnologias da UFPE.


