
Em alusão ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, o curso online “Entendendo a Neurodiversidade sob o olhar da arteterapia” propõe ampliar a atuação de profissionais que trabalham com pessoas neurodivergentes, apresentando estratégias práticas de arteterapia no autismo.
O curso será realizado nos dias 13, 20 e 27 de abril e 4 e 11 de maio, das 19h30 às 21h30, tendo à frente as arteterapeutas Mônica Ruibal e Danielle Malavasi. A capacitação é voltada a profissionais com conhecimento em arte e em neurodiversidade, que trabalham com esse público e desejam aprofundar conhecimentos e estratégias de atendimento.


O curso será realizado nos dias 13, 20 e 27 de abril e 4 e 11 de maio, das 19h30 às 21h30, tendo à frente as arteterapeutas Mônica Ruibal e Danielle Malavasi. A capacitação é voltada a profissionais com conhecimento em arte e em neurodiversidade, que trabalham com esse público e desejam aprofundar conhecimentos e estratégias de atendimento.
O curso terá caráter prático e reflexivo, reunindo conhecimentos sobre neurodiversidade, materiais artísticos, estratégias terapêuticas e experiências reais de atendimento. A proposta é que os participantes possam compreender não apenas as técnicas, mas também os sentidos e possibilidades da arteterapia no trabalho com pessoas neurodivergentes.
Outro diferencial da capacitação é que uma das facilitadoras, Danielle Malavasi, é também autista com diagnóstico tardio. Essa vivência amplia o olhar do curso, trazendo contribuições que dialogam tanto com a prática profissional quanto com a experiência de quem vive a neurodivergência, enriquecendo as discussões e reflexões ao longo dos encontros. “A Dani traz um olhar muito importante, porque fala com propriedade sobre o que viveu e vive em relação ao autismo e sobre o que observa nos atendimentos com a arteterapia”, afirma Mônica.
Segundo a arteterapeuta, a arte pode ser um caminho potente de inclusão, desenvolvimento e autoconhecimento, especialmente quando utilizada de forma consciente e com intenção terapêutica. “Nesse sentido, iniciativas de capacitação como o curso ‘Entendendo a Neurodiversidade sob o olhar da arteterapia’, realizado neste período próximo ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, ajudam a ampliar o debate e fortalecer práticas mais sensíveis e qualificadas no atendimento a pessoas neurodivergentes”, ressalta.
Mônica explica ainda que a escolha das datas do curso foi pensada com cuidado e respeito ao calendário de mobilização da causa: “Sabemos que a semana do Dia Mundial de Conscientização do Autismo costuma concentrar muitas atividades e eventos importantes. Por isso, optamos por realizar o curso na semana seguinte, para que os profissionais possam participar dessas ações e, ao mesmo tempo, não deixem de vivenciar a proposta do nosso curso”.
Os interessados podem adquirir o curso pelo link: https://daniellemalavasi-arteterapia.hotmart.host/entendendo-a-neurodiversidade-sob-o-olhar-da-arteterapia-05dece61-024e-4ff3-87ec-db68cf4bd55a
Um caminho que começou pela arte e chegou ao cuidado com pessoas
A trajetória de Mônica Ruibal na arteterapia começou após uma longa história familiar ligada ao comércio e à arte: ela trabalhou por mais de quatro décadas em uma loja de papelaria e confecção de uniformes escolares fundada por seus pais, onde também aconteciam oficinas de artesanato e atividades criativas.
Como se fosse um encontro marcado pelo destino, ou até um pequeno empurrão da vida na direção certa, a arteterapia surgiu no caminho de Mônica de forma inesperada. Um dia, ao atender uma cliente na loja da família, que procurava uma cola específica para trabalhar com determinados materiais, ela mencionou a palavra arteterapia, que até então era desconhecida por Mônica. Curiosa, anotou o nome para pesquisar depois. “Quando cheguei em casa e comecei a ler sobre o que era, senti algo muito forte. Pensei na hora: é isso o que eu quero fazer. A arte sempre esteve presente na minha vida, mas faltava essa parte de cuidar das pessoas”, lembra.
Pouco tempo depois, com o falecimento de sua mãe, veio também a difícil decisão de encerrar um ciclo. Em 2018, ela fechou a loja da família, um espaço que marcou grande parte de sua história, e passou a buscar um novo caminho que tivesse mais sentido naquele momento da vida. Foi então que decidiu se formar em arteterapia e iniciar uma jornada que, desde então, transformou sua trajetória profissional e pessoal.
Após se formar, Mônica passou a atuar em uma clínica multidisciplinar que atendia principalmente pessoas neurodivergentes, especialmente autistas. A partir dessa experiência, seu coração foi sendo cada vez mais conquistado pelo tema – aprofundou-se em estudos em neurociência e fez especialização em arte-reabilitação, área que trabalha funções cognitivas e executivas por meio da arte. Hoje, ela soma cerca de oito anos de experiência clínica, atuando em clínicas, atendimentos domiciliares e também de forma online.
Com o passar do tempo e de maneira despretensiosa, Mônica criou um grupo no WhatsApp chamado Arte e Autismo, cujo objetivo é a troca de conhecimento com outros profissionais da área. Aos poucos, mais e mais pessoas foram se juntando ao grupo, que hoje reúne mais de 300 profissionais unidos pelo mesmo propósito: aprender, compartilhar experiências e encontrar caminhos mais humanos e eficientes no cuidado com pessoas neurodivergentes sob a ótica da arte.
Como surgiu a ideia do curso
Ao longo dessa trajetória, alguns encontros ao acaso com a arteterapeuta Danielle Malavasi foram acontecendo – quase como uma ‘mãozinha’ do destino: elas passaram a se cruzar em eventos e congressos voltados ao uso da arte no atendimento a pessoas neurodivergentes e, em alguns momentos, chegaram até a dividir a mesma mesa de debates. Para completar as coincidências, as duas ainda moram na mesma região de São Paulo, além do fato de Malavasi ser professora em uma escola onde os filhos de Mônica estudaram.
Entre encontros e reencontros, a parceria foi se fortalecendo naturalmente: Danielle ingressou no grupo de WhatsApp Arte e Autismo e, ao acompanhar as muitas dúvidas e inseguranças dos profissionais que desejavam atender pessoas autistas com mais sensibilidade e preparo, é que sugeriu à Mônica a construção do curso juntas, ainda mais sendo uma pessoa autista.
“Percebemos que havia muitas perguntas no grupo de WhatsApp, profissionais chegando ao mercado e se sentindo perdidos. O curso nasceu justamente para unir duas pontas: o conhecimento em arte e a compreensão sobre o público neurodivergente”, explica Mônica.
O diferencial da arteterapia no atendimento
A arteterapeuta ressalta que, embora muitos profissionais de diversas áreas utilizem recursos artísticos em sessões terapêuticas, a arteterapia tem um diferencial importante: o conhecimento sobre o uso de cada material de forma intencional e terapêutica. “Todo profissional pode usar um desenho, uma pintura ou música em atendimento. Mas o arteterapeuta conhece o material certo para cada objetivo e para cada criança”, explica Mônica.

Ela compara o trabalho a empinar uma pipa: “Tem momentos em que precisamos soltar a linha e permitir que a pessoa explore livremente. Em outros, precisamos puxar essa linha e oferecer atividades com mais estrutura, como o caso de uma criança muito ansiosa e muito agitada, que pode precisar de atividades mais organizadas. Já uma criança mais retraída pode precisar de movimentos amplos, de mais espaço para se expressar”, explica.
Entre os recursos utilizados estão argila, tinta, aquarela, colagens, esculturas e diferentes experiências sensoriais. De acordo com Mônica, cada material pode estimular aspectos como coordenação motora, flexibilidade cognitiva, memória, autoestima e expressão emocional.
Segundo a arteterapeuta, um dos princípios centrais da arteterapia é justamente mudar o olhar que temos sobre a criação: o processo importa mais do que o resultado final. “A sociedade valoriza muito o produto final, a estética, aquilo que é considerado bonito. Na arteterapia, o foco está no fazer, no caminho percorrido. Às vezes, a pessoa só precisa criar, experimentar, errar e, principalmente, se permitir”, explica.
Para ilustrar essa reflexão, Mônica costuma lembrar de uma obra muito conhecida da arte brasileira: “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. “É o quadro mais valioso do Brasil, mas eu sempre me pergunto: se a Tarsila fosse uma criança mostrando essa pintura para alguém, o que diriam a ela? Será que pediriam para refazer, dizendo que a cabeça está pequena, que o braço está desproporcional, que as medidas não estão certas? É justamente esse olhar de perfeição que precisamos desconstruir”.
Arte e desenvolvimento no atendimento a autistas
Mônica Ruibal destaca que a arteterapia não substitui outras terapias para pessoas neurodivergentes, mas se torna extremamente potente em uma abordagem multidisciplinar, com profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais trabalhando juntos.
Um dos casos que marcou sua trajetória foi o de um adolescente autista de 19 anos, onde atendia em uma clínica, que apresentava um comportamento bastante fechado e tinha medo de fitas demarcatórias e objetos pendurados. Inspirada nas obras geométricas do artista Piet Mondrian, ela propôs a criação de uma tela grande, utilizando fitas para delimitar espaços de pintura.
E o atendimento foi surpreendente: “O que mais me marcou foi que ele aceitou trabalhar justamente com as fitas que antes provocavam medo. Aos poucos, foi decidindo onde colocá-las, escolhendo também em que espaços aplicaria cada cor. O resultado foi uma obra de arte que acabou sendo exposta na clínica, com uma plaquinha identificando sua autoria e o reconhecimento de todos pelo trabalho que ele realizou. Isso teve um impacto muito forte em sua autoestima e confiança, uma vez que o jovem ainda era visto de forma muito infantilizada. A arteterapia também busca ampliar o repertório dessas pessoas e trazer propostas que dialoguem com a idade e com os interesses do participante, estimulando a autonomia e a descoberta de coisas novas”, salienta Mônica.
E a experiência foi tão significativa que se tornou tema de sua monografia, que foi apresentada em um congresso da área.
Arteterapia: um convite para criar e experimentar
Além do aspecto técnico, Mônica ressalta que a arteterapia também convida a uma reflexão profunda sobre criatividade e liberdade de expressão ao longo da vida. Para ela, muitas pessoas deixam de criar com o passar dos anos por medo de errar ou por acreditarem que o resultado precisa ser bonito ou perfeito.
Por isso, a arteterapeuta deixa um convite a todos: “Eu gosto de trazer a reflexão às pessoas sobre quando foi que deixaram de criar. Criar é algo inerente ao ser humano, não apenas às crianças, como muita gente imagina. É muito comum ouvir nos atendimentos: ‘faz anos que não desenho’. E eu sempre pergunto: em que momento a gente deixou isso para trás? Por isso, o meu convite é para que as pessoas se permitam voltar às tintas, às cores, às experiências. Se aventurar na arte é entrar em um espaço onde não existe certo ou errado, onde não há julgamento, e onde todos nós podemos simplesmente criar”, enfatiza.
Além dos atendimentos individuais ou em grupo e a todas as idades, Mônica também promove experiências voltadas à vivência da arte fora do contexto terapêutico. Um exemplo é o projeto Tinta & Vinho, destinado a mulheres a partir de 18 anos. A proposta é oferecer um momento de pausa na rotina, em que cada participante possa desacelerar, se reconectar consigo mesma e se permitir criar a própria tela em uma noite leve, acolhedora e inspiradora.


