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Michel Sallouti: um artista inquieto e determinado, mesmo depois do diagnóstico de ELA

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Suas invenções para facilitar a rotina

O diagnóstico da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é desafiador para quem o recebe, porém, para o artista plástico Michel Sallouti, renomado diretor de filmes publicitários e premiado nas décadas de 70 e 80, ao invés de se abater, decidiu se antecipar às etapas da doença e, com sua criatividade ímpar, passou a adaptar tudo o que podia em sua rotina para facilitar os seus movimentos que começavam a ser prejudicados. “Ele passou a se organizar para enfrentar a ELA e a criar peças em madeira para facilitar seu dia a dia, como acoplar às torneiras para conseguir abri-las sem precisar das mãos, à chave do carro para poder dar partida no veículo e assim por diante. Como ele tinha uma mente muito criativa, ele fazia invenções mirabolantes, como o banheiro, que ele adaptou para que a cadeira de rodas entrasse por um lado e saísse por outro”, relembra a viúva Inês Sallouti. “Até um guindaste ele comprou, já pensando para quando tivesse que ser transportado na pior fase da doença, quando ele já não tivesse mais o movimento do corpo, além de diversas outras coisas que ele se antecipava ou criava para adaptar. E assim, tais apetrechos o permitiram continuar fazendo as coisas que gostava, como pintar”, complementa.

A pintura que Inês cita foi uma das grandes realizações do artista, mesmo com os desafios impostos pela ELA, mas que não eram fator limitante, não para um artista criativo e inquieto como era Michel. Aposentado havia mais de 10 anos do mercado da publicidade, do qual era reconhecido – na década de 70 ele era sócio da Interteam Film Production, acumulava ainda premiações e títulos, que o consagraram como um dos principais nomes como diretor de filmes publicitários na época: em 1978, ele foi o único Ouro do Brasil em Cannes, e tinha também o título de diretor mais premiado do Festival Ibero Americano de Publicidade. Além disso, em 1982, conquistara o 1ª Ouro do Brasil no Festival de New York.

Logo que se aposentou, a família decidiu comprar uma fazenda no Rio Grande do Norte, local onde revezava com São Paulo e Ibiúna, onde Michel também gostava de passar os finais de semana. Porém, por conta de uma cirurgia cardíaca a qual teve que se submeter, Michel preferiu ficar apenas em São Paulo, em 2004. “Quando compramos a fazenda, ela estava totalmente acabada. Mas o Michel, sendo inquieto, determinado e perfeccionista como era, a reconstruiu inteira ao longo dos dez anos que estivemos lá, transformando-a em um paraíso e deixando-a totalmente produtiva. Resultado: quando a vendemos para voltar para a capital paulista, ela estava exportando manga”, diz Inês, que explica que a decisão de vendê-la e ficarem somente em São Paulo se deu por conta da localização da fazenda, que era longe dos familiares e também dos centros médicos, caso tivessem alguma emergência pela condição delicada de saúde de Michel.

Michel e sua esposa Inês

Os primeiros sintomas da ELA

“A cirurgia cardíaca fez Michel refletir sobre o que faltava realizar em sua vida. E então, ele decidiu fazer um curso na Escola Panamericana de Artes, que incluía pintura e diversas outras modalidades. Logo após, decidiu ainda fazer um curso de escultura e se apaixonou por esculpir em argila e em mármore, sendo que passou a ser um dos seus grandes sonhos fazer uma escultura em mármore. Por conta disso, fomos até Carrara, na Itália, para que ele pudesse comprar mármore para então concretizar mais esse objetivo”, explica Inês. Segundo ela, era final do ano de 2007 para 2008, quando, ao voltar ao Brasil, em uma situação corriqueira de cortar a unha, Michel notou algo estranho: ele não tinha força para apertar o cortador. “Fomos primeiro no ortopedista, que não encontrava o problema. Até que fomos direcionados ao neurologista e foram seis meses de uma série de exames até recebermos o diagnóstico da Esclerose Lateral Amiotrófica”, relembra Inês, que diz que Michel decidiu comunicar para toda a família sobre a doença durante sua festa de 70 anos.

Apesar da tristeza inicial por um difícil diagnóstico como o da ELA, Michel não se deu por vencido e não deixou de continuar as suas invenções, que nem mesmo a doença o impedia de criar. Além dos recursos do dia a dia que ele adaptava para facilitar as suas atividades que fazia questão de manter, como ir todos os finais de semana à casa da família em Ibiúna – que era considerada o retiro do artista, onde se entretinha em afazeres de marcenaria com o caseiro Eduardo José de Oliveira – o “Santo Eduardo”, como carinhosamente é chamado por Inês, Michel decidiu, então, mais uma vez, começar a colocar em ação os sonhos que ainda queria realizar, mesmo com a ELA. 

Um deles foi uma exposição individual de pintura, que aconteceu na Galeria Oeste, em São Paulo, em 2008, chamada “De Alma Branca”. A mostra, composta por 25 obras, fortalezas em quatro séries de pinturas da mesma cor que, ao serem observadas mais detalhadamente, exibiam o branco em todas as suas tonalidades, teve estreia no dia 1º de outubro, que é a data de aniversário da Inês – uma forma de Michel homenageá-la. “Para essa mostra, Michel e o Eduardo passaram horas no ateliê em Ibiúna peneirando uma areia bem fina, que dava textura às obras. E essa foi uma grande realização para o Michel, porque ele já tinha participado de exposições, mas de forma coletiva e ele sonhava com uma mostra individual”, conta Inês.

E não pararam por aí os seus feitos. Em meados de 2010, Michel decidiu pesquisar a árvore genealógica da família, cujas origens são de Israel (antiga Palestina), e que veio ao Brasil em 1959. “Ele começou a ficar intrigado para descobrir onde estavam os parentes e, com a ajuda da internet, começou a procurar por pessoas com o mesmo sobrenome. Encontrou um primo em Londres que o ajudou a encontrar diversos familiares no exterior, que se dispuseram a colocá-lo em contato com mais outras pessoas e, assim, ele foi descobrindo toda a família dele”, relembra Inês.

Já na cadeira de rodas e com a doença avançando, que impactavam cada vez mais sua mobilidade e independência, Michel, ainda assim, decidiu fazer sua pesquisa in loco, e, então, juntamente com Inês, o irmão John, a irmã Violette e os filhos Roberto e Alexandre, embarcou para Israel, em 2010, em uma jornada de buscas por informações sobre a família Sallouti. 

Após a primeira viagem e com os contatos realizados, seu irmão John seguiu a pesquisa e viajou para Adelaide, na Austrália, onde encontrou mais outro braço da família. A terceira viagem aconteceu novamente para Israel, quando Michel embarcou com Inês, os irmãos Violette, Rosette e John e o sobrinho Mauricio. Logo depois, John seguiu sozinho para a quarta viagem, rumo a mais descobertas da árvore genealógica da família, novamente para Israel, onde encontrou registros de batismo de membros da família desde 1841. Na quinta e última viagem, Michel, Inês, a irmã Violette com seu marido Miguel, a irmã Rosette e o filho Alexandre seguiram para o Líbano. “Nessa época, na cadeira de rodas, ele já cansava bastante e utilizava o BiPAP (um aparelho utilizado para a respiração) e nem assim desistiu até a última viagem e realizou seu objetivo, que era o de finalizar toda a sua pesquisa familiar. Além do que, ele dizia que sua história tinha começado no Líbano, que era seu país de coração, e agora ele voltava, como último local que conseguiria visitar, já que sabia que não teria mais condições de viajar”. De acordo com ela, o livro levou dois anos para ser elaborado e contou com a ajuda do irmão John, que mora no Rio Grande do Norte. 

Após a publicação do livro “Family Forever”, em 2012, Michel enviou um exemplar para cada familiar com quem conversou em Israel, no Líbano e demais países e também para todos da família no Brasil. “Foram caixas e caixas de livros que ele enviou para o exterior”, diz Inês. Ainda assim, Michel mantinha-se ativo todos os finais de semana, entretido em suas pinturas no ateliê que havia montado em Ibiúna.

Eduardo e Michel no ateliê em Ibiúna

“Foi muito triste quando o Michel nos contou que tinha sido diagnosticado com ELA e detalhou como seriam todas as fases da doença, que perderia todos os movimentos do corpo, que teria que utilizar uma cadeira de rodas, que perderia a fala. Mas, como ele se antecipava sempre, começamos a montar os recursos de adaptação para ele em Ibiúna: para que conseguisse segurar os pincéis, passamos a criar em MDF gabaritos numerados das ondas e curvas para que ele soubesse qual tipo de efeito dos movimentos dos desenhos ele ia querer na tela quando não conseguisse mais usar as mãos e braços e também quando a fala já estivesse comprometida. Então foi um processo de adaptação de tudo o que era possível sob sua orientação, enquanto ele ainda se comunicava. Quando ele passou a usar a cadeira de rodas e já tinha perdido o movimento das mãos, mas ainda conseguia falar, já sabíamos quais recursos utilizar e testar: passamos a adotar formas de pintura que já tínhamos combinado, como por exemplo: ele segurava o pincel com a boca e eu corria a tela para ele para a direita ou para a esquerda, dependendo da sua orientação e ele mesmo se posicionava para a altura que achasse melhor na tela”, explica o caseiro Eduardo que, até a chegada do diagnóstico, trabalhava há 20 anos na casa de Michel.

Porém, com o avanço da doença e a fala comprometida, Eduardo passou a entender pelo seu olhar, que depois foi substituído pelo controle ocular – Michel utilizava o rastreador ocular da Tobii Dynavox, importado pela Civiam. Por meio do recurso de tecnologia assistiva, Michel passava ao Eduardo as coordenadas e orientações sobre as nuances do mundo das cores, quais tonalidades deveriam ser misturadas e se o efeito desejado era satisfatório. E, dessa forma, até mesmo os desenhos e as pinceladas eram orientados pelo artista ao Eduardo. “Ele era rigoroso e como eu o entendia pela convivência de 20 anos de muito respeito que tínhamos um com o outro, conseguimos desenvolver bastante o trabalho que ele orientava nas pinturas pelo controle ocular, desde a mistura das cores até o desenho e as pinceladas na tela. Era como se ele pintasse por meio das minhas mãos, a partir da sua criatividade e do seu talento”, explica Eduardo. E, assim, ambos pintaram muitas telas, porque Michel decidiu deixar uma pintura para cada neto e sobrinho. “Era admirável a sua força de vontade, porque, com o avanço da doença, ele vinha pra Ibiúna cada vez com mais dificuldade no transporte e, ainda assim, trabalhávamos o sábado e o domingo durante o dia inteiro. Posso dizer que foram muitas telas que pintamos, porque a família era grande e ele teve o carinho e cuidado de deixar a sua lembrança a cada um da família. E quando começou a ficar difícil para ele assinar as telas, criamos um carimbo com o seu nome. Quando passou a não ser mais possível carimbá-las, ele colocava a sua digital nos quadros como sua assinatura”, conta Eduardo. 

Michel com uma de suas obras
Michel e o neto Michelzinho

“E os netos e sobrinhos adoravam ficar perto dele, pintando junto ou brincando com as coisas dele de marcenaria que ele tinha em Ibiúna. Acredito que esse contato próximo com a criançada o rodeando o fazia muito bem, era o que o motivava a ter energia para continuar pintando. E ele pintou até onde conseguiu, porque chegou um momento em que ele realmente não conseguia mais”, diz Inês.

Michel acabou tendo complicações pulmonares e faleceu em 2016. De acordo com Inês, o ateliê e todos os apetrechos criados pelo publicitário foram doados para o Eduardo, que ainda está tímido em relação às pinturas. “Como eu pintava com a mente e a criação do Michel, acabei não dando continuidade, apesar de eu gostar muito de pintura, mas preciso me aprimorar ainda nessa parte do desenho. Levo toda a experiência que tive com o Michel com muito carinho, porque aprendi muito com ele antes e depois da doença. Ele era uma pessoa que sempre estava pensando no amanhã, se antecipando às coisas. E conviver por 28 anos com alguém como o Michel me trouxe a grande lição de vida que é ter força de vontade de viver – mesmo com o diagnóstico que ele recebeu, ele teve imensa vontade de aproveitar a vida da melhor forma, nos mostrando que não devemos nos chatear com coisas pequenas que acontecem no dia a dia”, diz Eduardo. Aos familiares de pessoas com ELA, o caseiro deixa a seguinte mensagem: ”A vida continua, pois a vida é esperança. É necessário lutar com todas as forças, sentindo muito amor à pessoa com ELA, porque o futuro pertence a Deus”.

Amor esse que Inês diz ser o que dá forças e motivação para apoiar um familiar que esteja enfrentando a doença: “O amor vence e também nos dá forças para lutar e estar ali, cuidando da pessoa com ELA. Se eu pudesse, eu faria tudo de novo. E que todos tenham também gratidão pela vida e valorizem pequenos detalhes que normalmente não valorizamos, como os movimentos que o nosso corpo faz e nem prestamos atenção, como conseguir coçar as nossas costas, por exemplo. Parece bobo, mas agradeçam por tudo, por todas as coisas simples que conseguimos fazer!”, enfatiza Inês.

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