João Jorge Raupp

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O Professor e Escritor João Jorge Raupp conversou com a Civiam de sua casa, em Fortaleza (CE). Na entrevista a seguir, ele nos fala sobre seu trabalho, sobre o papel da música em sua vida; a luta contra a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e mais. 
por: Mirna Della Rosa

João Jorge Raupp

Mestre em Psicologia e escritor, João Jorge Raupp, 54, está para lançar um livro e já tem planos para o próximo. Por força da especialização, centrou seus registros nesta mesma área, com foco em assuntos que surgiram pela própria experiência de vida. ‘A Homofobia nas Famílias de Minha Terra’ é uma derivação da tese de mestrado de João Jorge: “Quando decidi fazer mestrado, queria colaborar com os direitos humanos dos homeróticos por ser mais um deles.

Quando li o relatório da Anistia Internacional, fiquei espantado com a estatística de assassinatos de homeróticos no Brasil: segundo este relatório, a cada 4 dias um era assassinado. Mas há também números fora desta estatística, pois há casos em que a família esconde o real motivo da morte.

Desejei então saber como era a relação destes sujeitos com seus familiares. Na dissertação estão a figura, o sujeito e, ao fundo, a família. Mas o conteúdo estava muito acadêmico e, após receber o diagnóstico (de ELA) e passado o sofrimento inicial, encontrei resiliência na escrita. Decidi escrever o livro desta vez colocando a família como figura mais presente e enxugar o academismo para, assim, atingir um público maior”.

Professor que lecionou por muitos anos na Universidade de Fortaleza, é bastante querido por seus ex-alunos, que sempre o visitaram e mantiveram contato depois que João Jorge parou de frequentar a instituição. Recebeu o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica em 2007 e, recentemente, adquiriu, por meio de uma campanha lançada no Facebook e divulgada por seus amigos, um PCEye – dispositivo para uso de computador que é controlado pelos movimentos dos olhos. Pelo qual, inclusive, nos respondeu para este texto.

“A experiência de ensinar é ímpar, e (…) permite com que se tenha outras lentes para se ver o mesmo fenômeno. Mas também é uma via de mão dupla, pois aprendemos com os alunos. Ser professor é nunca envelhecer.”

A campanha que, na internet, foi comandada por Solange, irmã do professor, mobilizou quase 1000 pessoas. Com o bom resultado, a compra do PCEye se concretizou. Alunos e seus familiares formaram uma grande parte dos colaboradores.

Com a mãe, Yeda

Jorge, desde pequeno, vive a vida com trilha sonora. Aqui ele nos conta como a música se faz presente em seu cotidiano: “Posso dizer que nasci em uma casa de bambas. Em nossa casa havia muitas festas regadas a música, piano, violões, flautas e bandolins. Aos 7 comecei a aprender piano e acordeon e, na adolescência, fui aprender violino e canto. Foi quando passei a escutar Chico, Caetano, Gil, Vinicius. Eles mudaram muito minha visão de mundo; sou filhote do Tropicalismo. Bethânia, com sua voz grave, e Gal com voz de cristal, interpretam muito bem os compositores citados. Mas gosto também de ouvir Caymmi, Nana, Marisa Monte, Zizi, Ney e a Velha Guarda da Portela e da Mangueira.

Mais tarde, quando fui lecionar, eu utilizava a música como instrumento de aprendizagem, pois, plagiando Bethânia: “música e perfume vão direto nos pensamentos e na emoção”. Minhas aulas ficavam mais atraentes, alegres e os conceitos, melhor aprendidos.

Hoje faço os tratamentos e trabalho ouvindo música. Há um ditado popular que diz: “Quem canta seus males espanta”.”

Não por acaso, o próximo livro (mencionado no início deste texto), falará sobre um assunto que muitos de seus alunos tiveram o privilégio de vivenciar: “Desejo escrever junto com meus colegas um livro que discuta o papel da música como instrumento de ensino. Já tenho artigo publicado”. Ele, sem dúvidas, entende muito bem do assunto!

Este projeto ainda não tem data para publicação mas o outro livro de Jorge: ‘A Homofobia nas Famílias de Minha Terra’, já está saindo do forno e será lançado em agosto, pela Universidade de Fortaleza.

O exemplo positivo que os mais velhos registraram na memória do professor não foi só o de amor pela música, mas também o de atitude positiva e alegria perante à vida. Médico anestesiologista, João Alberto Gurgel, o pai – já falecido, fundou a Associação dos Deficientes Motores de Ceará após ter ficado paraplégico devido a um hemagioma na coluna lombar, aos 40 anos: “Rapidamente ele trocou o luto pela luta política em prol dos deficientes físicos; e a associação tinha 2 objetivos: a reabilitação física e a inclusão social.” Ele foi também presidente do Centro Médico Cearense e Diretor Clínico do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas). Doutor João Alberto morreu em 1995 mas sua Associação faz a diferença ainda nos dias de hoje.

A Esclerose Lateral Amiotrófica, diagnóstico que João Jorge recebeu há cerca de cinco anos, é uma doença degenerativa de neurônios que causa a perda progressiva dos movimentos e da fala.

Requer tratamento multidisciplinar e diário e ainda não tem origem conhecida.

“A luta contra a ELA passará a ser efetiva quando houver um plano político para o paciente e seus familiares, para que possamos ser atendidos pelo SUS. Somente assim conseguiremos uma vida mais digna. E assim poderemos pressionar por mais pesquisas na área.”

Não sei o que estava rolando nos alto-falantes quando o professor nos respondeu a esta entrevista mas, de qualquer maneira, partilho da opinião de que a vida, sem trilha sonora, não tem a mesma graça!

Jorge finalizou com um recado: “Gostaria de deixar registrado o apoio da Universidade de Fortaleza, que me dá suporte financeiro, terapêutico e intelectual”.

E nós agradecemos a João Jorge e Solange!

Vamos que vamos!

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