Especialista em Educação Especial Inclusiva utiliza robótica para ensinar autistas

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menino autista aprendendo com robótica


Físico de Formação, Paulo Victor de Paula Loureiro* é professor efetivo da Secretaria de Educação do Estado do Ceará e atua especificamente no Atendimento Educacional Especializado, ensinando jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a desenvolverem aplicativos para celular, animações, games e modelagem 3D. E tudo isso com a ajuda das novas tecnologias: kits de robótica, sensores de movimento e de toque, óculos de realidade virtual ou aumentada, mouses oculares, sensores de eletroencefalografia móvel e softwares. 

“Desde o início dos meus atendimentos com autistas, por volta de 2012, eu reparava o quanto os fascinava as atividades que eu realizava com materiais recicláveis ou de baixo custo para desenvolver habilidades acadêmicas de ciências. Construir maquetes, fazer experiências no laboratório de ciências e usar o computador para fazer pesquisas eram atividades que conseguiam atrair a atenção deles e aumentar o seu rendimento na aprendizagem. A partir dessas observações pensei na possibilidade, naquele tempo, de aplicar a robótica como recurso pedagógico, pois via que seria possível desenvolver as mesmas habilidades que separadamente trabalhava em outras atividades. Durante o meu mestrado em ensino de física, fiz a proposta ao meu orientador de aprofundar essa análise e identificar quais os ganhos que os alunos autistas teriam com a aprendizagem da robótica educacional e me surpreendi ao perceber que os alunos, após as atividades de intervenção com a robótica, estavam com menores déficits de atenção, maior controle inibitório e expressivo rendimento na aprendizagem de conteúdos acadêmicos relacionados aos projetos que eram montados e programados”, explica o especialista.

E, além disso, segundo ele, após pesquisar literaturas sobre o autismo e, especificamente descobrir textos escritos por Temple Grandin, uma autista e pesquisadora da área, que relatava que alguns portadores possuíam uma espécie de “pensamento visual”, como uma forma de raciocinar de forma facilitada a partir da representação visual de conceitos, é que Loureiro começou a estudar a realidade virtual e o desenvolvimento de games para esse público como ferramenta pedagógica. “Os alunos escolhem alguns dos recursos e nós passamos sistematicamente a instruí-los na aprendizagem dos mesmos. Eles são incentivados não só a utilizar essas tecnologias, mas também a desenvolvê-las! E aí está uma grande diferença, porque eles passam a se sentir parte do processo de construção do conhecimento e não apenas um mero observador passivo. Muitos deles até criam seus próprios projetos com essas tecnologias para auxiliar outros alunos com mais necessidades de apoio – e este é o meu maior orgulho! Temos alunos autistas que já desenvolveram aplicativos vocalizadores de celular para outros alunos autistas não verbais se comunicarem melhor com seus pais e com os profissionais que os atendem”, relata o professor.


Um dos resultados mais evidentes, de acordo com o especialista, é a melhora na atenção, que passa a ser melhor administrada e mantida durante as atividades. “Outro fato é que muitos autistas são atendidos em suas dificuldades, mas negligenciados em suas potencialidades. E eu acredito que todos eles possuam algo extraordinário com que possam contribuir socialmente. Hoje eu tenho alunos que estão em cursos e universidades de excelência nas mais diversas áreas, mais comumente nas áreas de exatas, mas tenho também alunos na medicina e no turismo. E é visível que a qualidade de vida de cada um aumentou de forma diretamente proporcional às oportunidades que eu fui lhes oferecendo com o aprendizado por meio da robótica. O nosso lema: oportunizar é incluir!”, diz Paulo.

De acordo com o especialista, para que o processo de aprendizado com a robótica tenha sucesso é fundamental que os alunos sejam respeitados no tempo de aprendizagem de cada um. “Além disso, é importante que façam o uso das tecnologias de forma flexibilizada a cada grau de autonomia em que estão. Eu busco sempre aumentar gradualmente os níveis de dificuldades das atividades para que possam sentir a cada sucesso maior motivação e, consequentemente, menor probabilidade de frustração”, explica. E claro que os projetos do professor Paulo só são um sucesso pelos esforços próprios do especialista, que luta, incansavelmente, pela popularização da robótica: “infelizmente somos carentes de políticas de acesso a esses recursos. Inclusive tudo que disponho em meu trabalho foi adquirido a partir do meu esforço e busca por editais que promovessem o financiamento dos meus projetos. As políticas de acesso caminham morosamente em comparação aos avanços tecnológicos e sociais dos autistas. O que tenho feito é buscar com o meu trabalho com que esses três pilares caminhem juntos: políticas públicas, inovação tecnológica e protagonismo autista. Acredito que a partir do momento que dou oportunidade aos autistas revelarem os seus potenciais inovadores, estarei contribuindo para que novas políticas públicas permitam uma maior inclusão e autonomia desse público para irmos muito além. Inclusive, juntamente com os meus alunos, que são verdadeiros artesãos cibernéticos, ganhamos um prêmio da Red Bull por desenvolvermos um sistema de ondas cerebrais que permite que pessoas com paralisia cerebral ‘escrevam no computador’ por meio do piscar de olhos. E é isso que eu digo: ir além! Cada vez mais essas novas tecnologias e conhecimentos estarão interligados, promovendo a interdisciplinaridade e a inovação!”, exemplifica.

Mês da CAA
Vale lembrar que outubro é o mês da conscientização da Comunicação Alternativa. A Civiam apoia a causa e parabeniza o especialista e professor Paulo pelo exemplo de trabalho e por toda dedicação aos seus alunos! #mesdacaaciviam

*Paulo Victor de Paula Loureiro é Físico e atualmente trabalha no Atendimento Educacional Especializado como professor efetivo pela Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Trabalha com Robótica no desenvolvimento de autistas há dez anos e nos últimos anos tem desenvolvido projetos na área de interface homem-máquina, ajudando pessoas com paralisia cerebral a se comunicarem. Hoje está também como bolsista de pesquisa e inovação pela Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação da Prefeitura de Fortaleza.

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