Masumi Suginoshita, a Astromasumi, fala sobre a importância do diagnóstico de autismo na fase adulta

O diagnóstico de autismo em agosto de 2024, enquanto investigava o de sua filha Luna, 4 anos, fez com que Masumi Suginoshita pudesse esclarecer toda a sua história de vida, como um divisor de águas, aos 41 anos: “Foi como se eu voltasse no tempo e pudesse lembrar que passei praticamente 40 anos da minha vida com sofrimentos e dores que eu não entendia, mas que hoje vejo que eram características do autismo, como a sensibilidade à luz, por exemplo, que me trazia dor física nos olhos. Ou uma fadiga extrema no final do dia, especialmente quando havia alguma demanda social, além de uma constante sensação de inadequação. É muito triste uma criança ter que anular as próprias necessidades num nível físico, e a si mesma num nível social, para conseguir sobreviver no mundo, um lugar criado por e para neurotípicos. No meu caso, por ser descendente de japoneses, as características do autismo eram ainda mais camufladas com frases do tipo ‘ah, ela é a última a ser escolhida no esporte porque ela não é boa ou ela não se apresenta bem em público porque oriental é tímido’, e assim por diante. E eu não desejo que nenhuma criança sofra por não compreender as suas necessidades, porque é muito triste viver uma vida toda sofrendo, com baixa autoestima, sempre se sentindo menos e não confiando no próprio potencial. Mas, ao mesmo tempo, saber que agora posso me respeitar e priorizar o meu bem estar, tem mudado a minha qualidade de vida”, salienta Masumi.
Publicitária, astróloga, taróloga, alquimista, terapeuta integrativa, casada, mãe da Luna (4) e da Hina (7 meses), Masumi é conhecida como @astromasumi por seu jeito diferenciado de abordar o trânsito dos planetas em cada signo em espaços relevantes, como os renomados portais iG, MdeMulher e as revistas femininas Capricho, Marie Claire, Revista Claudia e Elle, quando eram publicações do Grupo Abril – sendo colunista até hoje desta última publicação, hoje propriedade da Papaki Editora.
Assim, o desabafo em relação ao diagnóstico tardio também foi compartilhado em suas redes sociais, como um importante alerta às pessoas adultas que talvez possam investigar mais a fundo os seus desconfortos. “Eu já desconfiava que a Luna tinha algo e, quando fui buscar um profissional para atendê-la, ao mesmo tempo fui me identificando também com diversas questões nos testes apresentados. E foi libertador receber o diagnóstico de autismo, pois costumamos nos adaptar de forma forçada para nos caber nas caixinhas da sociedade, e isso é chamado de ‘masking’. Porém, para um autista, fazer masking demanda muita energia e desgaste físico e emocional. Por exemplo, se um autista precisa fazer uma apresentação na empresa, mas não suporta olhar nos olhos das pessoas, o masking o obriga a ‘se adaptar’ para conseguir fazer a apresentação e, assim, ser aceito e não ser visto como ‘o esquisito’. Então, a pessoa se força a olhar nos olhos, mas se ela não entende o incômodo por não saber as características do autismo, vive em um ambiente de pressão estafante. Ao passo que, com o diagnóstico, ela irá se respeitar e não se obrigar a se machucar apenas para agradar os demais”, ressalta.
Masumi complementa: “Vale destacar a importância do autoconhecimento, pois, o profissional que fez a minha avaliação havia receitado medicamentos antidepressivos, mesmo eu não apresentando sintomas, alegando que todo autista passa por momentos de depressão. No meu caso, eu preferi seguir com a minha terapia holística e adicionar um acompanhamento com um psicólogo especializado em autismo com abordagem em DIR/Floortime (centrada no indivíduo, cuja estratégia baseia-se no desenvolvimento funcional das pessoas e em suas diferenças individuais e de relacionamentos). Com ele, fiz uma análise sensorial e consegui mapear a maioria das coisas que me incomodava e me desregulava, além dos artifícios que funcionam para eu me regular novamente”, cita a astróloga.
Ela conta ainda que se soubesse do diagnóstico de forma precoce, saberia se regular melhor: “Por exemplo, depois das gravações de vídeo para o horóscopo das revistas ou após apresentações e reuniões, eu precisava ter um momento para me recolher e ficar um quarto escuro, sem estímulos sensoriais para recarregar minhas energias, pois eu ficava exausta e praticamente não-verbal. Além disso, descobri algumas estratégias que me ajudam quando estou começando a sentir um desconforto, um sinal de me desregular – que vão desde respirar fundo, usar um cobertor pesado ou até pedir ao meu marido que me dê um abraço forte, um apertão, e é como se me desse um ‘reset’ e eu volto a me sentir melhor”, brinca Masumi, com um jeito divertido e leve como encara os desafios da vida.
A astróloga também foi diagnosticada com altas habilidades: “Acredito que as altas habilidades me ajudaram a sobreviver no mundo, tanto na jornada escolar, quanto em todas as carreiras profissionais, mesmo com tantas dificuldades, sofrimentos emocionais e ainda sendo vista como `esquisita`”, salienta.
História de vida
Masumi Suginoshita nasceu em São Paulo, cresceu em Amsterdam, fez o colegial em Valinhos (interior de SP) e se formou em Comunicação Social na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), um período após ter cursado uma semana de Engenharia Química na UNICAMP. “Desde criança eu queria ser artista, mas, como a gente se acostuma com o masking a se adaptar e se anular e por orientação dos meus pais, acabei prestando Engenharia. Mas, logo na primeira semana eu vi que não tinha nada a ver comigo e resolvi estudar novamente para o vestibular. Então, prestei Publicidade e passei na ESPM em 23° lugar”.
Trabalhou em altos cargos em agências renomadas de propaganda, onde liderava grandes equipes. “Eu conseguia trabalho nas agências por indicação dos professores da faculdade ou de conhecidos, pois, pensando hoje, acredito que se eu tivesse que fazer entrevistas de seleção, talvez eu não fosse selecionada por conta das especificidades do autismo. Eu acho que me destaquei na aula de comunicação digital por concluir rapidamente os trabalhos e fazer outros por iniciativa própria”. Masumi acredita também que, pelo fato do trabalho no departamento de criação exigir muito foco e tempo na frente do computador, a questão do autismo não ficou tão em evidência.
A carreira ia de vento e popa e a publicitária mudava de emprego a convite das agências, como uma na Holanda, onde Masumi trabalhou por um ano. Porém, retornou ao mercado publicitário brasileiro por motivos de saúde de sua mãe, que veio a falecer quando a jovem tinha 27 anos. Ao refletir sobre a efemeridade da vida, ela decidiu então pedir demissão da agência de publicidade onde atuava no momento para atuar no mercado como freelancer, ao mesmo tempo em que fez um mergulho profundo no autoconhecimento e na espiritualidade.
“No meu último emprego fixo numa agência de publicidade, que foi o último trabalho antes de me tornar astróloga, o ambiente era tão difícil que, avaliando hoje, acredito que eu também não conseguiria crescer na carreira naquele local, porque seria além do que eu conseguiria suportar, sendo autista: briga de egos, politicagem, a necessidade de socialização exacerbada”, destaca Masumi, que complementa: “Eu sei que eu fui uma autista privilegiada por ter tido as oportunidades que tive por conta das altas habilidades, mas sabemos que, infelizmente, a realidade de muitos autistas é ainda o desemprego – por isso, informação e oferecer suporte adequado no ambiente de trabalho é fundamental”, ressalta.
Aos 30 anos, a astróloga passou ainda um tempo no Japão, ao ganhar uma viagem da Aliança Cultural Brasil e Japão, onde cursava o idioma japonês. “E foi muito importante para eu me reconectar às minhas raízes. Fiquei maravilhada de como é possível trabalhar com a beleza das coisas, como os japoneses, que fazem absolutamente tudo com muito capricho, desde as artes até os pratos saborosos e bonitos. Eles abriram os meus olhos para a possibilidade de fazer coisas com integridade, beleza e ética”. Assim, ao retornar ao Brasil, decidiu que seria estilista e grafiteira, mas, ao conhecer uma terapeuta que a indicou os florais do sistema Joel Aleixo para lidar com a suas dores emocionais do luto, as mudanças foram tão impactantes, que despertaram o seu interesse em se aprofundar nos florais – fez cursos do sistema Joel Aleixo, paralelamente em que estudava tarô, astrologia e meditação – sinais que já estavam apontando a bússola do seu caminho. Assim, tornou-se astróloga e alquimista e começou a atender com mapas astrológicos. E deu tão certo que em pouco tempo era uma das pessoas que mais atendia no espaço terapêutico onde trabalhava.
Como um farol aceso no meio da multidão, Masumi passou a se destacar cada vez mais pela habilidade dos seus mapas astrais. Por uma jogada do destino, eis que surgiu um cliente e mal ela sabia que se tratava, na verdade, de uma análise do seu trabalho para então ser convidada para escrever o horóscopo das publicações da Editora Abril, conquistando, assim, leitoras de Capricho, Elle, iG, MdeMulher, Marie Claire e Revista Claudia.
Porém, com a chegada da pandemia e o encerramento da maioria das publicações do Grupo Abril, Masumi teve, novamente, que mudar o leme do seu barco: em decisão com o marido, que tem um restaurante em São Paulo, migraram para o Canadá, também em busca de mais segurança à família com a recém chegada da primogênita. E de lá, continuou como colunista de horóscopo na Elle até hoje, como já mencionado, além de manter o canal @astromasumi no YouTube.
A compreensão do diagnóstico da filha
Segundo Masumi Suginoshita, receber o diagnóstico de autismo nível 1 de forma simultânea ao de sua filha Luna, 4 anos, que é nível 1 e 2, além de conferir maior esclarecimentos à sua jornada, também a prepara para lidar melhor com as especificidades da pequena. “Ao entender tudo o que passei na minha infância por ser autista e não saber, a única coisa que vou lutar para a Luna é que ela seja quem ela é. Claro que ensinarei os bons modos de toda criança, mas não vou obrigá-la a fazer coisas que ela não queira, como socializar quando não quer ou sorrir para as pessoas. Se ela não quiser, eu vou respeitá-la, diferentemente do que as gerações dos nossos pais orientariam, ainda mais quando falamos de famílias com descendência japonesa: nos dariam bronca ou nos obrigariam a cumprimentar, socializar com as pessoas de uma determinada forma e por educação”, diz.
Ela complementa: “Muitas vezes, as pessoas só olham para os comportamentos desafiadores, como os movimentos repetitivos, o grito, entre outros, e tentam reprimir a criança. Mas é preciso entender que sempre há um fator que a leva a se desregular ou quando há a necessidade de mais ou menos estímulos sensoriais. Por isso, quando a criança recebe as acomodações que ela precisa, eu vejo que há uma melhor flexibilidade na rigidez cognitiva. É fato ainda que as formas de se regular mudam com o tempo, porque eu vi isso em mim”. Ao Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, Masumi deixa a seguinte mensagem: “É importante ver o autista como um indivíduo que tem potencial, respeitar as suas especificidades e jamais permitir que o rotulem de modo limitante. Além disso, é essencial tentar entender como deixar a sua vida mais tranquila e favorável para que, assim, ela possa florescer!”, diz a astróloga, que revela também que talvez mude novamente de carreira, uma vez que tem prestado mais atenção ainda aos anseios da sua alma, agora mais livre do que nunca: “Talvez eu pense em montar um espaço para ajudar as crianças neurodivergentes, ainda estou levantando as ideias. A única certeza que tenho é que cada um tem um propósito na vida e, quem sabe, eu não tenha vindo autista, com uma filha também dentro do espectro, para podermos ajudar a vida das pessoas atípicas?”.