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Dia Mundial de Conscientização do Autismo

Conheça Fernando Murilo Bonato, 18 anos, o filósofo autista

foto de Murilo sorrindo em cima de sua bicicleta com vento no rosto
Foto: Fernando Murilo Bonato (instagram @murilo_ciclistea)

“Posso falar? Autismo não se limita ao que vemos no Instagram. Autismo não se limita a sofrimento, nem a genialidade. Autismo enquanto deficiência tem muitas possibilidades de enfrentamento, autismo enquanto visão romanceada não é real. Autistas verdadeiros são pessoas com limitações, mas que com boa perseverança podem ultrapassá-las, mas jamais deixar de serem autistas. Penso que não existe receita, existem tentativas, existem possibilidades, e precisamos poder aprender que ninguém é definido por autismo, somos definidos por caráter, independente de nível”. Essa é a mensagem que Fernando Murilo Bonato, 18 anos, autista, quis falar para o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado no dia 2/4.

Diagnosticado com autismo com quase 2 anos de idade, o jovem tem também apraxia severa na fala. Mas, nem a condição de não oralizado o impede de comunicar seus pensamentos filosóficos encantadores, pelo contrário. Ele compartilha diversos textos em seu instagram @murilo_ciclistea, cujo nome é em relação à sua paixão por pedalar: “O pedal entrou em minha vida como entra em cada alma que busca a liberdade de sentir o vento bater em seu rosto. Minha vida com pedal longo vem desde meus 9, 10 anos, não lembro. Me importa lembrar somente do vento em meu rosto e da liberdade. Nas pedaladas me desconecto do mundo de textos. Sou livre, tão livre pedalando que nem textos produzo. Meu cérebro entra em modo liberdade”.

Até meados dos 14 anos, Murilo, como é chamado pela família, não conseguia se comunicar verbalmente. Na escola, acompanhado de um professor de AEE (Atendimento Educacional Especializado), ele se comunicava por meio de apontamento, como na realização de provas, que eram com alternativas para assinalar a correta. “A vida de autista jamais me permitiu ser um indivíduo sem apoio. A vida escolar seria impossível sem suporte individual. Pensamento não se mede apenas por comunicação. Penso que meu maior poder enquanto aluno é chegar pleno no final da jornada escolar formal. Isso prova que escola é para todos, inclusive para pessoas sem comunicação. Mas como pude ser aluno sem comunicação? Respondo por ter tido pessoas que sabem interpretar o corpo, por minimamente mostrar meus conhecimentos, por ser respeitado em minha individualidade. Principalmente por mesmo no meu silêncio ser visto como aluno. Comunicação é importante, fato. Mas na escola empática pertencer ao respeito e presumir competência é melhor do que falação sem dizer nada”, diz o jovem.

Ele complementa, em relação à inclusão escolar: “Desafios são pertencentes a todo aluno. Para mim, desafio específico por conta de minha vida autista é pertencer à incredulidade em minha capacidade, é perceber que pertenço a uma forma de viver diferente. É aprender a conviver sem me comunicar como todos. É me sentir meio perdido por não conseguir falar, mas ter muito a dizer. É me controlar para pertencer a boa conduta. É ter de conviver com barulho e muitas posições de pensamentos diferentes. É existir mesmo, às vezes, parecendo invisível”, salienta.

Com a chegada da pandemia, em 2019, sua mãe Josiane Karina Nichele Bonato conta que, como forma de fazer atividades escolares em casa para que ele não fosse prejudicado nos aprendizados, passou a desenvolver uma forma de entendê-lo por meio da leitura labial e assim a comunicação do jovem começou a fluir, como um ditado falhado, como ela chama. “Acredito também que nessa época eu me coloquei à disposição integralmente para conseguir compreendê-lo, ao mesmo tempo em que ele foi se sentindo cada vez mais confortável e seguro para falar comigo e ir ditando as palavras falhadas”, diz Karina, que a partir de então tornou-se o canal de comunicação do jovem. “A mente dele é incansável na produção de textos! Ele não volta atrás do que já ditou, não revisa, nada. Tudo que ele vai comunicando já é o texto final”, explica.

E, assim, Murilo passou a colocar em textos seus pensamentos e ideias em uma produção de conteúdo tão surpreendente que é impossível não se maravilhar: publicou o primeiro livro “Você pode ser o que quiser” aos 13 anos, a partir do ditado falhado à sua mãe. “Podemos dizer que foi como se tivesse poderosa força em fazer  meu poder mental expandir para muitas pessoas. Foi um ato de coragem poder fazer um livro ditado. Foi minha grande potência sendo distribuída para todos interessados. Mas meu primeiro livro não é apenas um livro, é um pedaço de mim”, filosofa.

Murilo sentado atras de uma mesa com seus 4 livros expostos
Foto: Fernando Murilo Bonato (instagram @murilo_ciclistea)

E, como se a mente tivesse sido liberta para criar o que quisesse, o jovem engrenou na publicação de mais três livros: “Tudo pode se transformar quando se tem coragem”, “Verdades que podem transformar sua verdade” (livreto de bolso), “A vida pede vontade de transformar tempo em pertencimento”. 

“De verdade, para mim sempre foi uma vontade de pensar para fazer meu poder de plenitude. Meu processo de compartilhar foi por acaso. Para falar a verdade, um acaso programado  em meu cérebro. Sou um autista pertencente ao mundo de observar o mundo. Mas pensar foi somente um poder de minha transformação quando pude pôr para fora. Isso foi libertador. Poder ter encontrado um modo de pôr para fora foi poder ter evolução pessoal. Mas verdadeiramente vi que poderia e deveria compartilhar por perceber que pessoas estão carentes de palavras de transformação. Assim, pedi para me transformarem em um autor falhado. O que produz textos ditados. Dessa forma fiz meus livros, buscando minha cura em minha verdadeira pobreza mental. Cada texto pode ser um pensamento para outras pessoas e ajudar, mas para mim é minha maior terapia. E não lembro quando surgiu a ideia de expor, foi meio natural e parte de meu processo”, destaca o filósofo sobre o expressar-se por meio dos textos, após anos sem se comunicar.  E ele adianta que já tem uma lista de livros produzidos, que estão aguardando edição para, então, serem publicados.

Foto de Murilo junto com sua mãe Josiane. Ambos estão sorrindo para camera.
Foto: Murilo e sua mãe Josiane (instagram @murilo_ciclistea)

Murilo é ainda avesso às tecnologias. “Tentamos usar a Comunicação Aumentativa e Alternativa com uma profissional que o atendia, mas ele não se interessava, nem mesmo por tecnologia alguma, o que inviabilizou que ele conseguisse utilizar a CAA como forma de se comunicar”, diz Josiane, a quem o jovem se refere como “pessoa amada” em seu Instagram: “Pessoa amada é a pessoa que ama sem medo, ama sem pedir nada, ama sem perder fé no processo, ama na dor, na alegria, no sucesso, no fracasso, na crise, na tranquilidade. Se vocês chamam de mãe eu chamo `pessoa amada`”.

Quando perguntamos ao jovem quem o inspira em seus pensamentos poéticos e filosóficos, ele respondeu: “Sempre me inspiro no maior filósofo de todos, meu filósofo é maior que todo pensamento pronto, é uma grande e poderosa resposta para tudo. Com ele aprendo sobre amor, fé, cura, de verdade aprendo sobre a vida e suas problemáticas transformações. Seu nome é Jesus. Meu amigo e mentor”. E complementa: “De verdade, me inspiro na vida simples. E poesia é a vida em pura sintonia com o simples pensamento da alma. E minha alma é uma alma simples. Mas existem pessoas que me associam a um denominado poeta Manuel de Barros”.

Os interessados em adquirir suas obras devem entrar em contato pelo WhatsApp: (41) 99244-0243 (Karina).

Redação Civiam

Entrevistas, histórias reais e conteúdo sobre diversos aspectos ligados às Tecnologias Assistivas e à educação na saúde.

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