Dia Internacional da Enfermagem e do Enfermeiro traz reflexões sobre os desafios da profissão nos últimos anos e a capacitação dos estudantes

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No dia 12 de maio foi celebrado o Dia Internacional da Enfermagem e do Enfermeiro em homenagem a Florence Nightingale, considerada pioneira e marco da enfermagem moderna no mundo: durante a Guerra da Crimeia (1853-1856), a enfermeira cuidava dos feridos e interviu principalmente nas questões de higiene pessoal, salubridade, medicações básicas e alimentação. Relata-se que Florence caminhava todas as noites pelos corredores das tendas, visitando os enfermos. A data foi escolhida por ser o dia do seu nascimento, em 1820. 

Na próxima semana, em 20 de maio, será celebrado o Dia Nacional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem e também o dia em que morreu a enfermeira Ana Néri, no ano de 1880, pioneira da enfermagem no Brasil, que se destacou por prestar serviços voluntários em hospitais militares durante a Guerra do Paraguai. Apesar da falta de condições, pouca higiene, falta de materiais e excesso de doentes, ela chamou a atenção por sua dedicação ao trabalho como enfermeira por todos os hospitais onde passou. Com seus próprios recursos, montou uma enfermaria-modelo em Assunção, capital paraguaia, sitiada pelo exército brasileiro. No final da guerra, em 1870, Ana Néri voltou ao Brasil e foi condecorada com as medalhas de prata Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe. Recebeu do imperador D. Pedro II, por decreto, uma pensão vitalícia para cuidar dos três filhos (tornou-se viúva aos 29 anos, após seu marido, Isidoro Antônio Néri, capitão-de-fragata da Marinha, morrer a bordo do veleiro Três de Maio, no Maranhão, em 1843). 

É por isso que a Semana Brasileira de Enfermagem (SBEn) ocorre anualmente de 12 a 20 de maio em homenagem às duas grandes enfermeiras que fizeram história: Florence e Ana Néri. Organizada pela Associação Brasileira de Enfermagem (Aben Nacional), a SBEn neste ano estará em sua 83ª edição e trará como tema central “A enfermagem no contexto da pandemia pela Covid-19: que lições aprendemos?”.

Para a Dra. Ariadne da Silva Fonseca*, referência em educação na área de Enfermagem e simulação clínica, Consultora de Ensino e responsável pelo projeto de renovação das tecnologias de simulação clínica do Hospital Sírio-Libanês, os impactos da pandemia têm exigido uma mudança não apenas na capacitação dos profissionais e estudantes de Enfermagem, mas também em uma maior valorização e no reconhecimento da profissão. “A pandemia exigiu adaptações emergenciais em todos os âmbitos, não apenas em termos de competências e habilidades, mas no comportamental e psicológico de todos os profissionais da saúde, principalmente dos enfermeiros, pois tiveram que se adaptar de forma desafiadora, como trabalhar e treinar incansavelmente a paramentação e desparamentação, serem realocados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), terem que adaptar até mesmo as questões fisiológicas do corpo, como por exemplo, evitar beber água para reduzir as idas ao banheiro para evitar, por sua vez, a desparamentação, que prejudicava o tempo de atuação do profissional, entre outros aspectos exaustivos”, explica Dra Ariadne.

Ela diz ainda que outro grande aprendizado que a pandemia trouxe aos profissionais da saúde foi a importância do cuidar. “O quanto a preocupação aumentou em, ao realizarmos um treinamento, pensarmos na importância do cuidado com o outro, como por exemplo, em termos uma sala arejada, com espaçamento entre as pessoas e, após o treinamento realizado, a higienização correta de todos os equipamentos, pensando na proteção da saúde do próximo. Além disso, foi extremamente necessário manter os psicólogos próximos aos profissionais de todas as áreas, como limpeza, cozinha, recepção, manobristas dos estacionamentos, pois todos tinham contato com as áreas de pacientes contaminados e estavam assustados com as incertezas do vírus, e precisaram de total suporte emocional. E quantos profissionais tiveram que se isolar de seus familiares durante todo o período para não correr o risco de contaminar as pessoas em casa?”, explica.

Dra. Ariadne diz ainda que outra lição deixada pelos últimos dois anos vivenciados por conta da Covid-19 é em relação à constante capacitação como preparo para possíveis situações como a da pandemia que podem vir a acontecer. “O vírus sofre mutações e, por conta disso, podemos voltar a viver fases cíclicas de contaminações. Além disso, assim como a vacina da gripe, que tomamos anualmente, é muito provável que também tenhamos que manter uma vacinação regular contra o coronavírus e suas variantes. Além disso, ainda que o cenário tenha melhorado, é preciso que a população faça sua parte, principalmente mantendo a higienização das mãos e adotando como hábito os aprendizados da pandemia, como o uso de máscara quando estivermos gripados, pois vimos que o seu uso diminui a propagação do vírus e já era um costume entre a população japonesa antes mesmo da pandemia”, pondera. 

Simulação clínica na capacitação

Quanto à capacitação dos profissionais da enfermagem, a especialista destaca que as instituições de ensino têm, cada vez mais, investido em recursos para que haja a conjunção entre a teoria e a prática de forma mais realista possível. “É por isso que a simulação clínica tem se tornado alicerce para formar os profissionais da saúde, principalmente de enfermagem, pois não tem como serem competentes na função sem o treino de habilidades de forma constante, além de ser fundamental saberem trabalhar em equipe, a tomada de decisão, liderança e a comunicação não somente entre os profissionais, mas com os pacientes. E todas essas questões devem ser constantemente treinadas por meio da simulação”, diz Dra Ariadne.

“E sempre digo que é possível tornar o treino mais próximo da realidade com recursos de baixa e média tecnologia, não apenas com a alta. Exemplo disso são os procedimentos mais básicos, que podem ter um toque mais realista, como o treino de punção: se adicionarmos na veia do manequim de habilidades o sangue artificial para que o aluno realize a habilidade de forma mais próxima do real e desta forma se sinta mais motivado também”, explica a Dra Ariadne. E complementa: “Outro exemplo é o treino de aplicação de sonda, que para fazer o aluno sentir a situação mais próxima da realidade, podemos introduzir no equipamento um chá morninho e com aspecto similar à urina, como o de camomila, por exemplo. Ou seja: há diversas formas de fazer com que o aluno possa experienciar na prática as situações de forma mais realista e isso traz um ganho extraordinário no seu aprendizado”, ressalta a especialista.

Exatamente pelos diversos benefícios na capacitação dos profissionais da área de saúde com a simulação clínica é que a Dra Ariadne está à frente da reformulação do Centro de Simulação do Hospital Sírio-Libanês, que se tornará também referência educacional na área da saúde. Segundo a especialista, um dos grandes desafios da educação da enfermagem hoje está na realização de cenários: “Precisamos unir os profissionais de diversas áreas, como médicos, fisioterapeutas, psicólogos, pois os atendimentos são multiprofissionais e é isso que  estamos trabalhando intensamente no processo de formação dos estudantes, não apenas na capacitação técnica, mas de forma comportamental. E a simulação clínica é uma ferramenta excelente para o treino em diversos âmbitos e as instituições da saúde estão conseguindo enxergar todo esse potencial, possibilitando aos profissionais uma formação mais completa para as mais diversas situações reais no exercício da profissão”, esclarece a especialista.

Dra Ariadne Fonseca

Aos estudantes e em homenagem aos profissionais pelo Dia Internacional da Enfermagem e do Enfermeiro e Dia Nacional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem, Dra Ariadne deixa a seguinte mensagem: “É importante as pessoas buscarem aprimorar o que não sabem e não fiquem apenas na espera do instrutor de curso orientar. Pois, mais do que qualquer pessoa, nós sabemos o que não sabemos, então por que eu não vou aprender o que eu não sei? Por que eu tenho que esperar para errar com um paciente? Por exemplo, quando eu vou verificar a pressão arterial de um paciente, eu preciso treinar o meu ouvido para saber exatamente o que é uma pressão arterial normal para saber quando está anormal e é só dessa forma que terei uma habilidade aprendida. Por isso, é muito importante que a gente busque aprendizado para o que não sabemos e que a gente repita quantas vezes forem necessárias. E vale lembrar que o aprendizado da habilidade depende de cada um, o que não significa que eu sou mais ou menos inteligente, pois devemos respeitar a destreza de cada um, que é diferente de pessoa para pessoa. Mas, que busquemos sempre evoluir naquilo que temos menos destreza e possamos sempre potencializar as habilidades que sabemos que temos mais facilidade.

E lembrem-se: tudo o que a gente deseja é ser cuidado por um profissional competente. Então, que vocês, profissionais de enfermagem, sejam esse profissional por quem gostariam de ser atendidos! Precisamos ter em mente sempre que nós cuidamos de vidas e o quanto nós podemos minimizar a chance de errar com uma pessoa – o quanto isso pode ter uma complicação para alguém de algo que nós poderíamos evitar se estivéssemos treinando. E hoje existem diversas formas de treinamentos, como simulações virtuais, que permitem treinar e simular um com o outro. E se existe um lugar onde eu possa errar é no laboratório, é no centro de simulação. Então, que nos dediquemos para o treino de habilidades e a busca contínua de conhecimento, pois a nossa competência em nossa área de atuação nos permitirá termos grandes chances de manter o paciente vivo e com perspectiva de vida boa se atendemos de forma adequada”, finaliza.

*Dra. Ariadne da Silva Fonseca é Especialista em Enfermagem Pediátrica e Pediatria Social pela Universidade Federal de São Paulo, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo e Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo.

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