Volta às aulas: como as escolas podem se preparar para receber alunos com necessidades complexas de comunicação

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Nathália Bertollotto, que tem cabelos castanhos compridos, usa óculos e uma blusa lilá, está com um tablet nas mãos com figuras, uma das mãos aponta a figura "olhe".
Nathália Bertollotto mostrando um tablet com software de Comunicação Alternativa

Primeiramente precisamos entender que a inclusão escolar das pessoas com deficiência é um direito. Direito que faz parte de um processo de reestruturação da sociedade, buscando uma sociedade mais inclusiva. Dessa forma, a escola deve buscar conhecimento e parcerias, a fim de oferecer o melhor serviço a todos os alunos e sociedade. Compreender as diferentes formas de aprendizagem, metodologias, necessidades específicas e um ensino estruturado e atento às especificidades garante uma aprendizagem que considera todos”, explica a fonoaudióloga Nathália Bertollotto*, à frente da FONONATA, especializada em atendimentos a famílias, organização de cursos e em consultorias a escolas em Campinas (SP) e região e em Florianópolis (SC).

Para a especialista, para que uma escola regular seja inclusiva, o passo inicial é receber todo e qualquer aluno. “Com deficiência ou não. Entender que todos aprendemos de formas diferentes e quais adaptações, recursos e materiais irão contribuir para a aprendizagem de todos? Não devemos oferecer adaptações ou ensino especial aos alunos com deficiência. Diferentemente disso, devemos buscar estratégias que favoreçam a participação e aprendizagem de todos. Recursos visuais, como a utilização de símbolos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)** na escola, por exemplo, favorecem a compreensão e expressão de todos os alunos, especialmente aqueles que possuem necessidades complexas de comunicação (NCC)”, esclarece a fonoaudióloga.

Por isso, ela ressalta que a inclusão nas escolas é um processo. “Não existe certo, errado ou perfeição. Devemos começar no hoje a construção da escola inclusiva que gostaríamos de oferecer às nossas crianças. E, a capacitação continuada de professores é essencial em qualquer contexto de ensino. Vale lembrar que as barreiras para que a inclusão aconteça começam por nós – pessoas – que ao ter uma visão capacitista oferece pouco e limita ainda mais a atividade e participação das pessoas com deficiência. Para que as barreiras sejam superadas precisamos mudar nossas atitudes, presumir competência e potencialidades e promover autonomia e independência para que assim sejamos facilitadores de práticas inclusivas”, orienta.

Quanto à resistência encontrada nas escolas quando o assunto é promover a inclusão, Nathália diz que um dos grandes problemas está no ensino e no método ofertado, que ainda é falho. “Os professores estão desgastados, pouco valorizados, entre outras questões. E quando falamos sobre adaptações, entender esse aluno, oferecer suporte e tempo de qualidade a fim de auxiliá-lo em sua aprendizagem é visto como algo impossível, longe de acontecer, ou que despende muito tempo e dedicação. Além disso, nosso modelo de ensino é conteudista e ultrapassado, pois considera que todos devem aprender da mesma forma e cobra o professor em relação ao currículo pré-estabelecido. Mas, quando estamos falando da aprendizagem de uma criança, devemos ter um olhar em busca de potencialidades e continuar lutando por um ensino de qualidade, valorizado, e não devemos ceder ao sistema de ensino que não condiz com nossa prática”, diz.

Uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) 

A fonoaudióloga ressalta ainda que um dos entraves para o preparo das escolas para a inclusão de um aluno com necessidades complexas de comunicação é em relação ao desconhecimento pelos educadores da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), além do seu pouco uso também pelos familiares da criança. “Os resultados de várias pesquisas mostram que a CAA ainda é pouco conhecida e utilizada pelos profissionais da saúde (fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, médicos), da Educação (coordenadores e professores especializados) e pelos familiares. E para sua implementação é necessário o trabalho em conjunto da educação especial, professor, equipe da saúde, aluno e família”, aponta.

De acordo com a especialista, ainda existem crenças e mitos equivocados que atrasam o uso e indicação da CAA e promovem uma visão capacitista da deficiência. “Necessitamos todos nos unir para auxiliar as escolas na compreensão do uso da CAA em um trabalho articulado com os terapeutas, fonoaudiólogos, profissionais da educação e pais”, afirma.

Consultoria em escolas 

Nathália explica que o processo de consultoria nas escolas que desenvolve compreende um escuta ativa para levantar suas necessidades: “é importante acolher, entender, conhecer a realidade de cada ambiente e de sua equipe escolar, composta pela direção, coordenação, professores, professores especializados, cuidadores e alunos”.

De acordo com a especialista, o passo seguinte propõe reflexões e debates importantes sobre a política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. “Pensamos nas barreiras e nos facilitadores, nas práticas inclusivas que favorecem a aprendizagem de todos os alunos com o objetivo que todos compreendam que a escola é um ambiente rico em desenvolvimento, em interação e promove mudanças importantes nos alunos, nas famílias e na sociedade”.

Assim, são necessários diversos encontros, o que torna uma relação mais próxima entre a família, a escola e os profissionais da saúde, como os terapeutas, pois, segundo Nathália, é por meio do diálogo de todos esses envolvidos que é possível a quebra das barreiras que envolvem a comunicação e a aprendizagem da pessoa com deficiência.

Para a especialista, a falta de informação e do trabalho em equipe (família, escola e saúde) é o principal fator por ainda haver um grande número de escolas regulares que não  promovem a inclusão: “Não adianta cobrar da escola abordagens mais inclusivas e uso da CAA se a fonoaudióloga que está atendendo a criança não tem essa formação e não realiza reuniões com a equipe escolar. Por outro lado, não adianta também a escola ser inclusiva se a família não for parceira da escola no processo de aprendizagem da criança, pois suas potencialidades se esvaem. O trabalho em conjunto é essencial e de responsabilidade de todos, pois todos são facilitadores essenciais das práticas inclusivas”, ressalta.

Quanto aos recursos tecnológicos, a fonoaudióloga avalia que são complementares às práticas inclusivas e que devem ser melhor inseridos na escola. “Se estivermos falando de uma criança com deficiência motora que precisa de um recurso como o mouse ocular para conseguir escrever, por exemplo, a tecnologia é essencial para ela e promove equiparação de oportunidade. Além disso, todos estamos imersos em um mundo tecnológico, devemos saber usar esses recursos ao nosso benefício e das crianças. Sempre com supervisão e acompanhamento de um adulto, vejo que a tecnologia como tablet e celulares trazem muitos benefícios e estímulos de aprendizagem”, opina.

Nathália atende pela FONONATA em Campinas e em Florianópolis e os interessados devem entrar em contato pelo Instagram @fono.nata. “O nosso objetivo é unir forças com pessoas que já são ativistas na área e oferecer diversos serviços que promovam o conhecimento e uso da CAA”, explica. Entre os serviços oferecidos pela empresa estão: avaliação para oferta de recursos de comunicação e tecnologia assistiva, indicação de metodologias – sistemas robustos de comunicação (PODD, Core Words) e métodos de acesso (acesso indireto – acionador, mouse ocular), assessoria/consultoria às escolas, orientações frequentes às famílias, supervisões clínicas aos profissionais/terapeutas (fonoaudiólogos, terapeutas ocupacional, psicopedagogos, psicólogos), elaboração de projetos voltados aos hospitais e à vulnerabilidade comunicativa e organização de cursos nessas regiões como incentivo ao conhecimento.

Foto da Nathália, que tem cabelos compridos castanhos e usa uma blusa lilás, segurando na palma da mão uma caneca

*Nathalia Bertollotto é fonoaudióloga, formada pela UNICAMP, possui pós-graduação em Fonoaudiologia na área da surdez e cursa pós em Transtorno do Espectro Autista. Possui certificação internacional pela US Chan em Integração Sensorial, formação em laserterapia, cursando Conceito Neuroevolutivo Bobath (CERN), método multigestos e formações na área da CSA e TA pela CIVIAM, Curso de Extensão em TA pela UNICAMP, Assistiva, Clarear (PODD), Master Pal, Core Words (Core Power), entre outros. Trabalhou no Centro de Apoio Pedagógico Especializado (CAPE) em uma  equipe multiprofissional em um projeto vinculado à Secretaria de Educação do  Estado de São Paulo (SEE/SP), com a inclusão dos alunos  com deficiência nas escolas estaduais.
Atuou também na APAE de Campinas, estudou e trabalhou com a metodologia de Integração Sensorial na Clínica Ludens @clinicaludens. Adquirindo conhecimento no tratamento integral aos pacientes com transtorno do espectro autista (TEA), paralisia cerebral e, pacientes com necessidades complexas de comunicação.
Realiza atualmente assessoria especializada em CAA no município de Amparo/SP e está à frente da FONONATA, onde presta atendimentos e consultorias em Campinas e região e em Florianópolis/SC, onde também atua na equipe da @valensdesenvolvimento e @centroacolher.

**Nota: Há variações em relação à Comunicação Alternativa. Em algumas regiões, pesquisadores e profissionais utilizam CAA (Comunicação Alternativa e Ampliada), em outras, o termo mais usado é CSA (Comunicação Suplementar Alternativa). Por isso, consideramos todas as variações corretas.

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