A música como auxílio ao aprendizado da CAA

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Muito se fala no uso da música como ferramenta de aprendizagem, uma vez que já estão mais do que comprovados os diversos benefícios aos estímulos ao desenvolvimento cognitivo. Mas, o que as pessoas pouco falam e sabem é que a musicoterapia também auxilia pessoas com deficiência no processo de aprendizagem por meio da Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA)*.

“Quando falamos de musicoterapia podemos utilizar várias formas de trabalho, como improvisação musical, uso de canções, musicoterapia receptiva, composição, entre outras. Elas são escolhidas conforme o objetivo terapêutico que tenho com cada paciente. Porém, algo que sempre questionei é o fato de que quando trabalho com pacientes verbais eu pergunto qual instrumento ele quer tocar, qual canção quer escutar ou cantar, o que ele sentiu e, assim, tem a liberdade de expressar uma vontade. Então por que com um paciente que utiliza a CAA, muitas vezes, vemos as pessoas tentando adivinhar o que quer, ao invés de dar voz a ele da forma que consegue se comunicar? A CAA dentro da musicoterapia, na minha opinião, é algo que deveria ser considerado natural, pois da mesma forma que posso trabalhar com objetivos de melhora da fala através do uso da melodia e do ritmo na musicoterapia, posso trabalhar com o objetivo de ampliar o repertório dos símbolos de uma prancha de comunicação com a utilização de canções, de instrumentos, composição musical, entre outras diversas formas que o ajudem a se expressar em relação às suas preferências e como se sente durante a terapia”, explica Queila de Oliveira**, Musicoterapeuta graduada pela Faculdade Paulista de Artes (2002), Especialista em Intervenção em Neuropediatria (UFSCAR/2005) e Educação Musical (FPA/2009), formada na Abordagem Plurimodal de Musicoterapia e Abordagem Biomédica de Musicoterapia e Fellowship em Musicoterapia Neurológica. 

A especialista trabalha em parceria com fonoaudiólogos nos casos de pacientes com necessidades complexas de comunicação. “Atendo uma criança com Síndrome de Rett, com 7 anos de idade, desde 1 ano e 8 meses. Com dois anos ela começou a aprender a se comunicar com o PODD, orientada pela fonoaudióloga Alessandra Buosi, e todos os profissionais que a atendiam em suas especialidades também foram orientados sobre como utilizá-lo. A princípio fui apresentando as palavras principais dentro do contexto musicoterapêutico de improvisação musical, tais como: ‘mais, pare, sua vez, minha vez’. Também trabalhamos repertórios como partes do corpo, transportes, animais, entre outros, sempre com a utilização de canções e, quando ela gostava de alguma, esta era adicionada ao seu repertório. Quando não gostava, procurávamos outra com o mesmo tema que a agradasse. No primeiro dia em que a paciente ganhou o tablet com controle ocular, logo comandou a improvisação com as palavras que vínhamos trabalhando e sorria muito. No final da sessão, ela disse que a terapia havia sido espetacular”, exemplifica Queila.

De acordo com a especialista, pouco é falado sobre o uso da CAA na musicoterapia, mas existem artigos que falam sobre a música como auxílio para o aprendizado. “A musicoterapia neurológica (Thaut, 2000) estuda a influência da música em processos, como por exemplo: a fala é processada no hemisfério esquerdo, enquanto a melodia é processada no direito. Por isso, quando o paciente tem dificuldades na fala, podemos trabalhar com esses processos, denominados de paralelos, por meio do canto e da melodia. Outros estudos como a musicoterapia biomédica (Taylor, 2010) também relatam os efeitos positivos da música nas áreas cognitivas, motoras, sensoriais e emocionais”, relata.

Sessão de musicoterapia com CAA

Por isso, para Queila, para que o aprendizado por meio da música aconteça, ela deve ser significativa. “A música acessa memórias da nossa vida e, exatamente por trazer algo extremamente significativo para as pessoas, ela tem influências neurológicas e o que observo na minha prática clínica diária é que, sim, ela pode acelerar o processo de aprendizado da CAA”.

Música em casa

A especialista orienta que os pais utilizem a música em casa com filhos com necessidades complexas de comunicação. “Porém, percebo que essa cultura dos pais cantarem para os filhos tem diminuído muito e, na maioria das vezes, a música é ‘vista’ pelo YouTube e a criança fica apenas em frente à tela “assistindo-a”. Ou seja, muitas nem sabem que a música existe independente do vídeo. O ideal é que os pais cantem junto com a criança, interagindo com ela e olhando em seus olhos. É importante também que os pais façam pausas na canção para esperar uma resposta da criança, que pode ser por meio de um som, um olhar, um batucar. Dessa forma, a música trabalhará também essa relação pais e filhos, tornando-a significativa e, portanto, um importante auxílio para que a criança aprenda a se comunicar pela CAA”.

Outra orientação da musicoterapeuta é que a música em casa não se torne apenas aquele momento em que os pais estão ocupados e seja usada como forma de aquietar a criança, ou que esteja relacionada sempre à TV ligada o dia todo ou como ferramenta para condicionar a criança a fazer  suas atividades. “Precisamos de silêncio também. Já tive paciente com quem tive que trabalhar a diminuição do uso da música em casa, pois, segundo a mãe, a criança só fazia as atividades se tivesse música, assim como no momento de dormir. Ou seja, ele era ligado 24 horas à música, sendo que ela é uma das atividades mais complexas para o ser humano ao utilizar mais regiões cerebrais para seu processamento. Então imagina como estava o cérebro dessa criança: não descansava e não tinha tempo para acomodar as informações adquiridas durante o dia, que acontece durante o sono tranquilo”, esclarece.

Queila monta sequências de canções utilizando recursos de alta tecnologia, como o Snap Core First (da Tobii Dynavox). “No caso da minha paciente com Síndrome de Rett, eu canto uma parte da canção e ela completa a outra parte olhando para a figura correspondente. Também utilizo um aplicativo chamado Eyeharp, que é um instrumento musical que pode ser ‘tocado’ com os olhos por meio do controle ocular e é utilizado até mesmo em concertos na Espanha. Ela está na fase de alfabetização e está aprendendo a escrever o seu nome. Como conheço seu gosto musical, compus uma música para memorização das letras do seu nome e montei um jogo de sequências no Communicator (software também da Tobii Dynavox), utilizando perguntas e respostas, que possibilitam que ela associe a melodia às letras. Na primeira parte, eu apresento as letras separadas, uma em cada tela, e na segunda etapa todas as letras do nome ficam em uma única tela para que ela consiga olhar a sequência correta”.

A especialista atende também um paciente com 8 anos de idade com Lesão Encefálica Infantil adquirida, após parada cardiorrespiratória aos 6 anos. “O pai é músico e informou que a criança gostava de tocar no violão e tinha até aprendido de ouvido as notas musicais ‘do, ré, mi, fá’ antes do ocorrido. Então levei o controle ocular para testar utilizando o Eyeharp e, a princípio, ele percebeu que as notas tocavam conforme ele olhava. Nas duas primeiras sessões ele explorou bastante o instrumento e, na terceira, toquei as notas musicais no violão. Ele arregalou os olhos e logo tentou tocar a sequência no Eyeharp”, alegra-se. 

Outro resultado da junção da música com a fonoaudiologia foi quando o pequeno começou a aprender sobre as frutas. “Enquanto a fonoaudióloga trabalhava as imagens da CAA com as frutas que ele costumava comer em sua rotina, criei um jogo de música chamado Pomar da Palavra Cantada e, assim, ele conseguiu associar as frutas a seus respectivos pomares no jogo. Estamos agora trabalhando em uma composição com legumes e verduras: ele escolhe os acordes e o ritmo que tocaria no violão e as notas de cada frase tocamos no Eyeharp. Vamos agora criar um jogo associando os legumes e as verduras aos seus benefícios. Acredito que quanto mais personalizado o jogo com a música, mais eficaz será o aprendizado, pois o envolvimento da criança nesta criação torna a música mais significativa, fazendo com que a criança assimile mais o ensinamento. O Communicator ainda possibilita utilizar programas de gravação e adicionar arquivos em mp3, o que é fantástico, pois posso utilizar minha voz, modificá-la para que fique mais infantil, entre outros recursos”, explica a especialista.

De acordo com Queila, a musicoterapia pode ser utilizada desde a gestação, para que seja trabalhado o vínculo mãe e bebê, e, principalmente, com idosos para estimular a memória, a socialização, a expressão das emoções, entre outros benefícios. “Mas é importante ressaltar que a terapia com música deve ser aplicada por um profissional qualificado no Brasil, que seja bacharel em musicoterapia ou tenha especialização reconhecida pela União Brasileira de Musicoterapia, entidade que regulamenta a profissão”, afirma.

A especialista faz atendimentos e os interessados devem entrar em contato pelo telefone (11) 96775-6650 ou pelo e-mail: [email protected]. Para mais informações, acesse: www.musicoterapiaesaude.com.br 

Música na reabilitação de pacientes pós-Covid

A musicoterapia tem sido também um auxílio, tanto à área hospitalar de pacientes infectados com coronavírus, quanto na reabilitação pós-Covid: “Hoje temos hospitais que possuem musicoterapeutas atuando no suporte emocional aos profissionais de linha de frente (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, entre outros), como também na denominada “Síndrome pós-Covid”, que ocorre normalmente nas pessoas que apresentaram quadros mais graves da doença, ocasionando problemas respiratórios, dificuldades de linguagem, raciocínio e memória, dores musculares, cansaço, dificuldades motoras, depressão e ansiedade. A musicoterapia trabalha através da influência da música nessas áreas, inclusive modificando os batimentos cardíacos, a respiração e liberando químicas responsáveis pela diminuição da depressão, sendo, assim, uma excelente ferramenta para auxiliar a reabilitação na Síndrome pós-Covid”, explica Queila.

E, além dos casos de Covid-19, a especialista diz que a musicoterapia também tem sido utilizada aos pacientes em acompanhamento de procedimentos invasivos para alívio da dor, preparação para cirurgia, coma, UTIs, UTI Neonatal. “Existem pesquisas que comprovam a eficácia do uso da música de maneira apropriada no setor hospitalar, diminuindo, inclusive, o tempo de internação dos pacientes, a quantidade de medicamentos, além de uma atuação positiva na redução da ansiedade, depressão, entre outros estados emocionais”, diz a musicoterapeuta.

Recursos musicais

As pessoas que têm limitações físicas e cognitivas podem contar com recursos de tecnologia assistiva que utilizam a música como apoio ao seu desenvolvimento e às suas terapias. O Beamz e seu conjunto de aplicativos, por exemplo, permite que os usuários possam tocar música utilizando centenas de instrumentos musicais e efeitos sonoros. Ele é composto por um controlador a laser e um conjunto de softwares e pode ser utilizado como um recurso para atividades de reabilitação sensoriais e motoras, utilizando apenas o movimento dos olhos com a tecnologia EyeGaze ou o movimento corporal através do sensor de luz, que acompanha o produto. 

As atividades feitas com o Beamz ajudarão o usuário a desenvolver diversas habilidades, como audição, coordenação, atenção, interação, possibilitando ainda o desenvolvimento motor dos membros superiores. 

O dispositivo oferece ainda a oportunidade de compartilhar a experiência musical com a família e amigos, sejam pessoas com deficiência ou não, sendo um ótimo recurso para estimular a interação e socialização de todos de forma divertida.

Aos profissionais das áreas de Terapia Ocupacional, reabilitação física e neurológica e educação especial, o Beamz é uma excelente ferramenta para as atividades com pacientes em clínicas em terapias diversas. Saiba mais:

O Skwitch, da Skoogmusic, é outro recurso de tecnologia assistiva ideal para pessoas com deficiência, pois, por meio da música, possibilita a comunicação e a integração, além de estimular o desenvolvimento cognitivo, o raciocínio linguístico e a memória. É um excelente recurso também para terapeutas ocupacionais e clínicas que atuam com crianças com autismo, pacientes com alguma necessidade especial ou que precisem de reabilitação física e neurológica. O aparelho não precisa de bateria, nem pilha, pois carrega automaticamente quando conectado ao celular. 

O Skwitch permite que o usuário crie e programe músicas de um jeito fácil, mesmo sem ter conhecimentos ou habilidades musicais: apenas apertando um botão é possível criar os sons. O dispositivo é prático e pode ser levado e utilizado em qualquer lugar. Saiba mais:

**Queila de Oliveira é Musicoterapeuta graduada pela Faculdade Paulista de Artes (2002), Especialista em Intervenção em Neuropediatria (UFSCAR/2005) e Educação Musical (FPA/2009). Formada na Abordagem Plurimodal de Musicoterapia e Abordagem Biomédica de Musicoterapia. Fellowship em Musicoterapia Neurológica. 

Possui mais de 18 anos de experiência em Musicoterapia na neuroreabilitação infantil junto à equipe interdisciplinar em instituições como ABRE-TE, ADEFAV, AACD e clínicas particulares. Tem experiência no uso da tecnologia eyetracker (Tobii Dynavox) com uso da Comunicação Alternativa (PODD e Snap Core First) e instrumento musical pelo aplicativo Eyeharp nos atendimentos musicoterapêuticos.

Faz parte do corpo docente dos cursos de especialização de musicoterapia da CENSUPEG Brasil e Instituto Fenix de Humanização/ES. Faz atendimento domiciliar e trabalha na Fábrica da Terapia – Reabilitação Infantil e  Clínica Viva de Neuroreabilitação.

*Nota: Há variações em relação à Comunicação Alternativa. Em algumas regiões, pesquisadores e profissionais utilizam CAA (Comunicação Alternativa e Ampliada), em outras, o termo mais usado é CSA (Comunicação Suplementar Alternativa). Por isso, consideramos todas as variações corretas.

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