A importância de não infantilizar pacientes adolescentes com deficiências

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn


É muito comum familiares e até mesmo professores infantilizarem pessoas com necessidades complexas de comunicação ou deficiência intelectual, propondo a eles atividades extremamente infantis fora do contexto da sua idade ou até colocando-os para frequentar turmas escolares com idades inferiores. Porém, segundo a psicopedagoga Tania Affonso*, terapeuta integrativa e especialista em educação inclusiva, a infantilização prejudica o desenvolvimento do paciente, o que afeta diretamente a sua qualidade de vida: “nos atendimentos terapêuticos, em salas de aulas ou nos ambientes familiares a infantilização das atividades propostas acarreta, muitas vezes, desmotivação do indivíduo e, assim, ele não desenvolve toda sua potencialidade. É preciso observar e respeitar o paciente como um jovem que tem gostos e vontades correspondentes à sua idade”, explica.

“O que acontece é que, às vezes, a instituição/escola responsável pela matrícula do jovem o coloca em uma série inferior à sua idade porque foca na sua deficiência e não na sua potencialidade, foca somente no conteúdo e esquece que aprendizagem vai além desse conteúdo. Por exemplo, um adolescente de 14 anos que apresenta paralisia cerebral que ainda não está alfabetizado e por não ser oralizado, acaba sendo matriculado em uma turma de primeiro ano, com crianças de oito anos, exemplificando de forma bem exagerada para ilustrar a triste realidade. No entanto, a parte social desse adolescente, que é muito importante e contribui para o aprendizado não é levada em consideração, pois ele precisa estar com pares da idade dele, tendo assim modelos para observação”, explica a terapeuta. Ela alerta ainda para que os familiares observem o quanto também acabam infantilizando de forma automática o adolescente e nem percebem: “muitas vezes é comum ver mães embonecando adolescentes de 15, 16 anos com lacinhos no cabelo, mas será que essas meninas não ficariam mais felizes com um batom ou vestindo uma roupa mais adequada, como as meninas de sua idade vestem, do que em um vestido infantilizado?”, questiona.

“E não só o visual, mas muitos pais acabam tratando jovens e adultos como se fossem bebês até mesmo em relação aos assuntos que os interessam. Algumas vezes colocam desenhos animados extremamente infantis para adolescentes assistirem, enquanto jovens de sua idade estão acompanhando games, séries e outros tipos de conteúdos”, orienta a psicopedagoga.

Como adaptar as atividades em aula

Uma forma prática que Tania exemplifica de como trabalhar com um adolescente com deficiência intelectual em um contexto escolar em uma aula de Geografia, por exemplo: “enquanto a turma está trabalhando em um texto ou mapa sobre a região do  Nordeste, o adolescente com deficiência intelectual mesmo não alfabetizado pode e deve, conforme a legislação informa, ter um material adaptado, podendo estar em sua mesa, por exemplo figuras de animais daquela região e, assim, a professora explorar a sua participação na atividade de forma contextualizada. Ou seja: todos estão trabalhando o mesmo assunto e o adolescente não está sendo infantilizado, nem excluído, está participando no mesmo contexto e está inserido na sala de aula com os alunos da idade dele”

A psicopedagoga diz ser de suma  importância a família também estimular a autonomia desses adolescentes com deficiências, mas que para isso acontecer é um trabalho em conjunto entre terapeutas, família e escola. “É todo um processo no qual os familiares precisam ser acolhidos e orientados, porque também precisam compreender e acompanhar todo o processo, passar pelo luto daquela deficiência, entender que o filho não vai ser eternamente um bebê e o estímulo à autonomia é fundamental porque os pais não vão viver para sempre. Por isso é importante motivar esses pais com exemplos de jovens com deficiências que praticam esportes, que praticam artes marciais, que terminam faculdade, que têm uma vida social, namoram, e tudo isso porque não foram infantilizados no início do processo. Por isso, a questão da infantilização é bem séria e precisa ser vista como um prejuízo ao desenvolvimento do indivíduo”, esclarece a especialista.

Família exemplar

O jovem Yan Silva Batista nasceu com icterícia e devido ao erro médico de não colocá-lo no banho de luz, o quadro evoluiu para Kernicterus e, consequentemente, Paralisia Cerebral, afetando sua parte motora e fala. Hoje ele é cadeirante, tem 21 anos (recém completados no dia 15) e, desde sempre, seus pais, Eliete e Pedro, buscam o melhor tratamento para que Yan possa enfrentar a sua vida diária de forma normal – dentro das suas limitações, com os seguintes tratamentos: fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, ecoterapia, hidroterapia, Terapia Ocupacional e, mais recentemente, iniciou a alfabetização com a Comunicação Alternativa e já tem surtido ótimos resultados.

“Nas terapias sempre pedimos para que tratem o Yan como uma pessoa normal, um adolescente de 21 anos, chamando sua atenção quando necessário, pois muitas das vezes ele sabe fazer o exercício, mas quando não quer fazer por motivo de birra, usa sua dificuldade”, diz Eliete, que enfrentou algumas dificuldades na fase escolar para encontrar  uma escola que o aceitasse. E então o matricularam em uma unidade terapêutica com terapias e oficinas pedagógicas que foi muito importante para o desenvolvimento do jovem. “No entanto, após um certo tempo, começamos a notar que ele não queria mais freqüentar, pois é uma instituição que atende pessoas especiais  de diversas patologias. Foi nesse momento que vimos a necessidade de procurar outros meios de aprendizagem onde ele se sentisse  motivado.  Visitamos várias escolas particulares e sempre ouvindo que a instituição e os professores não estavam preparados para receber pessoas com deficiências e isso fazia com que muitas das vezes pensássemos em desistir, mas sempre acreditamos em Deus que ele iria colocar um anjo na vida do Yan para melhorar a comunicação dele com a sociedade. Como ele sempre gostou de escola, procuramos a prefeitura para ver a possibilidade de conseguir uma matrícula. E assim conhecemos a psicopedagoga Tania Affonso (o anjo que Deus colocou na vida do Yan), que nos atendeu e se interessou em ajudá-lo, nos orientou, matriculando-o na escola pública em uma turma pública de jovens onde ela fazia acompanhamento como professora itinerante. Como a Tania não realiza mais esse atendimento na rede pública, demos continuidade em seu consultório, onde o Yan vai uma vez por semana em sessões de 2 horas, com ênfase no processo de alfabetização com a comunicação alternativa. Quanto ao nosso tratamento diário com o Yan, sempre buscamos o entendimento dele de acordo com sua idade, chamando sua atenção, colocando de castigo quando necessário e ele, mesmo com suas limitações, entende e obedece ou fica de castigo. Lembrando que, mesmo que eu ainda esteja trabalhando e o pai esteja aposentado, sempre fomos presentes e com isso sabemos muito bem quando ele está fazendo ‘birra’ e quando precisa de atenção ou quando, por exemplo, está sentindo alguma dor. Além disso, sempre buscamos atividades de acordo com sua idade, tais como levá-lo ao campo de futebol, cinema, praia, piscina, pista de skate, shopping, teatro. Uma diversão que ele adora é ficar na sexta-feira com os primos até de madrugada assistindo os games do YouTube e comendo guloseimas. Isso faz com que ele se sinta equiparado com a idade dele, pois os primos têm de 23 a 27 anos e também adoram games”, explica Eliete.  

Ela dá ainda uma dica aos familiares para que não infantilizem seus filhos com necessidades complexas de comunicação: “alguns pais procedem dessa forma achando que eles não entendem pelo simples fato de não se comunicarem, mas muitos deles entendem, só precisam ser estimulados e trabalhados a se expressarem e darem suas opiniões sobre seus desejos. Já o Yan, ele é quem escolhe o que vestir, calçar. Claro que às vezes nada combina, mas ele fica feliz e é assim que vai sair, pois gosto não se discute! Acredito que a forma correta seria primeiro os pais se conscientizarem em tratar os filhos de acordo com a idade e dar espaço para os terapeutas também agirem dessa forma, pois, tudo isso faz parte de um processo de desenvolvimento, não somente físico, mas principalmente intelectual e cognitivo que muitas das vezes ficam esquecidos”, diz Eliete.

A importância de buscar atendimento especializado

Para iniciar o processo de alfabetização do Yan, Tania fez um trabalho minucioso de análise de todo o histórico das terapias utilizadas, conversou muito com a família, mapeou a linguagem utilizada pelo jovem – de suma importância, segundo ela – iniciou com recursos de baixa tecnologia e hoje trabalha alternando recursos de baixa e alta tecnologia. “Foi todo um processo de envolvimento e compreensão sobre a vida do Yan e hoje tenho estruturado todo um trabalho que já dura 2 anos focado para a alfabetização, onde vamos experimentando formas de comunicação de modo a estimular que ele consiga cada se comunicar com pessoas que ele não conhece para que sua comunicação seja cada vez mais universal e sua alfabetização consolidada”, explica a especialista. E complementa: “Desde junho o Yan utiliza um equipamento de controle ocular da Tobii Dynavox, que, pelos movimentos oculares ele consegue participar das atividades, como jogos, onde consigo trabalhar inserindo vocabulários de seu interesse, inerentes a todos garotos de sua idade, como ‘futebol’, ‘mulher bonita’, ‘games’, entre outros. Dessa forma, ele se mantém motivado a participar cada vez mais das sessões – que ele adora!, o que é fundamental para que ele consiga evoluir em seu processo e os resultados a cada atendimento têm sido notáveis”, celebra a especialista, que não raramente se emociona com a evolução do rapaz a cada sessão. Para as famílias que ainda estão com dificuldades e ainda infantilizam seus filhos por não saberem como lidar com as nuances da adolescência e vida adulta dos filhos com deficiências, a psicopedagoga, por meio de consultoria, faz atendimento e orientação presencialmente (para quem estiver no Rio de Janeiro) ou on-line. Siga-a no Instagram @psicopedagogabarra/@consultoriasistemicamentecorpo ou, caso tenha interesse, ela atende por WhatsApp (21) 99727-7727.

Tania Affonso* é psicopedagoga, graduada em Ciências Biológicas e pós graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com ênfase em Deficiência Intelectual. É facilitadora em Constelação Familiar, atua com psicopedagogia com foco sistêmico, é especialista em educação inclusiva e analista corporal e comportamental.

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *